Visibilidade trans: políticas de inclusão avançam na educação básica e no ensino superior, mas permanência ainda é desafio

Cotas trans e exigência do nome social são agendas que têm ganhado espaço, com luta encabeçada por movimentos sociais e coletivos estudantis

Imagem da matéria "Visibilidade trans: políticas de inclusão avançam na educação básica e no ensino superior, mas permanência ainda é desafio". Na imagem há pessoas trans, elementos de papel e natureza,com uma delas segurando a bandeira trans

Embora ainda persistam muitos desafios para inclusão e permanência, a população trans tem conseguido avançar suas agendas na educação, especialmente com a aprovação de políticas sobre o uso do nome social e as cotas trans nas universidades. Coletivos estudantis e movimentos sociais têm liderado essas lutas em todo o país, enquadrando-as como parte de um processo de emancipação e construção de futuros para uma população historicamente marginalizada das políticas sociais e educacionais, mas que se recusa a ser invisível. 

Não há dados sobre a população trans no Brasil pelo Censo do IBGE, mas estudos estimam que essa categoria (que abarca pessoas trans, travestis, transmasculinas, não-binárias e de gênero diverso) representa cerca de 2% da população. São cerca de 3 milhões de pessoas vivendo em um país que é repetidamente classificado como o que mais mata pessoas trans no mundo, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), e cuja legislação ainda precisa ser aperfeiçoada para assegurar ações de reparação a essa população. 

As cotas trans no ensino superior são um exemplo disso, sendo uma agenda prioritária do movimento atualmente e cuja implementação tem se acelerado nos últimos anos. Segundo o monitoramento contínuo da ANTRA, ao menos 38 universidades federais e estaduais já adotaram esse mecanismo na graduação. Em 2025, por exemplo, UFRJ, Unifesp e Unicamp passaram a adotá-lo. As regras e percentuais variam por universidade, pois não há legislação federal sobre isso, mas em geral o percentual estabelecido fica na casa de 2% dos ingressantes, espelhando as estimativas da população trans em relação à nacional. 

Os poucos dados disponíveis mostram que, atualmente, nas universidades, as pessoas trans não chegam a 2% do corpo discente. Segundo dados da V Pesquisa de Perfil Socioeconômico e Cultural dos(as) Graduandos(as) das Instituições Federais de Ensino Superior, de 2018, apenas 0,2% dos/as estudantes universitários eram pessoas trans e travestis. Na USP, o grupo de pesquisa e extensão Corpas Trans aferiu que, em 2022, pessoas trans eram 0,15% do corpo discente de graduação, 0,04% do de pós-graduação, 0,02% do corpo técnico e 0,04% do corpo docente. A ANTRA, que em nota técnica de 2024 sobre a implementação de cotas trans no país ressalta a ausência de dados, aponta que a população trans universitária estaria estimada em 0,3%. “A produção [de dados de escolarização das pessoas trans e travestis] é muito mais propiciada pelas organizações da sociedade civil e grupos de pesquisa do que propriamente pelo Estado brasileiro, o que já evidencia os descasos públicos contra essa população”, diz a entidade. 

Por que cotas trans

Foto: @auriklaus @solmartinnns - Via @ufmgdce
Foto: @auriklaus @solmartinnns – Via @ufmgdce

“As cotas são políticas de reparação histórica para um grupo que sempre foi perseguido pelo Estado e que vive num país líder de assassinatos”, resume Ise Luiza de Moraes, travesti e coordenadora do DCE da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que está no front pela adoção de cotas trans na universidade. A UFMG ainda não implementou esta ação afirmativa. A proposta de reserva de 2% das vagas, pensada no âmbito de uma política LGBTQIA+ para a universidade, chegou agora à última instância de análise. Precisa da aprovação do Conselho Universitário, que vota o tema em sua próxima reunião ordinária de 2026. O debate tem sido intenso e as cotas trans enfrentam grande oposição interna, com professores e técnicos contrários às cotas circulando, por e-mail, uma carta anônima argumentando preocupação com fraudes e questionando a real necessidade de uma política para pessoas trans. Já o Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBTQIA+ (NUH) da universidade produziu um informe com dados para subsidiar uma discussão informada na UFMG, ressaltando a urgência da adoção da medida. 

“A institucionalidade da universidade abriu o espaço para o debate, mas seguem existindo grupos de oposição que tentam diminuir a quantidade de vagas [a serem reservadas] ou negar a política por completo. Sinto que a movimentação de maneira geral na UFMG é de empatia, entendimento da agenda e pela aprovação das cotas, mas essa luta continua contra grupos com discurso ultraconservador”, acrescenta Ise Luiza de Moraes, do DCE da UFMG. 

A universidade já enfrentou embates parecidos em outros momentos, como na aprovação do direito ao nome social – segundo dados de 2025 apurados pelo Departamento de Registro e Controle Acadêmico, 0,5% dos estudantes da UFMG o adotam, indicando a baixa presença de pessoas trans. E vai continuar lutando, como Ise não deixa dúvidas, pelas cotas e também por políticas de permanência. “Precisamos desafazer uma desigualdade e um apagamento construídos desde a colonização. Um apagamento de identidade, físico, da possibilidade de nossas existências. As cotas não vão resolver todos os problemas, mas são um meio de dar oportunidade para uma população que, por exemplo, até pouco tempo estava condicionada à prostituição. Nós queremos qualidade de vida e o direito à educação”, diz. 

Nome social e direito à identidade 

A adoção do nome social de pessoas trans é outra medida prioritária e que tem avançado nos últimos anos no Brasil, não apenas no ensino superior. Ele é garantido no Enem desde 2014 e, na administração pública, desde 2016

Na Unicamp, que aprovou cotas trans em 2025, 279 candidatos haviam se inscrito no vestibular do ano anterior utilizando nome social, e 40 foram convocados. No Enem, o número de pedidos atendidos vinha aumentando (por exemplo, foram 822 em 2024 ante 408 em 2016), mas em 2025 entraves burocráticos fizeram com que pessoas trans e travestis não conseguissem acessar esse direito a tempo, o que foi alvo de mobilização da ANTRA. “A garantia do uso do nome social no Enem representa um marco no reconhecimento da dignidade, cidadania e identidade de pessoas trans em um dos principais processos de acesso ao ensino superior no país. Ao longo dos anos, o movimento tem consolidado o entendimento do nome social como uma tecnologia de acesso, uma ferramenta de respeito à identidade de gênero, que viabiliza não apenas o exercício de direitos educacionais, mas também a permanência e valorização das existências trans em ambientes institucionais”, disse a nota da entidade à época. 

Um avanço recente se deu em Campinas (SP) no fim de 2025, com a publicação de uma nova resolução sobre o tratamento de estudantes trans na rede municipal da educação básica. Agora, o nome social é exclusivo nas bases de dados, ou seja, não vem acompanhado de nome civil. ​​O texto destaca que as unidades da rede municipal de ensino “devem assegurar o respeito aos direitos individuais e coletivos, prevenindo qualquer ato de discriminação, constrangimento e violência física ou psicológica, contra qualquer aluno(a) em virtude de identidade de gênero ou orientação sexual, no âmbito de sua atuação”.

Já no estado de Pernambuco, a campanha “Na nossa chamada, o respeito vem primeiro” está reforçando o direito ao nome social na rede estadual – garantido em lei desde 2017 e que atendeu 562 pessoas apenas em 2025. A coordenadora da Unidade de Educação para Relações de Gênero e Sexualidade da Secretaria de Educação de Pernambuco, Dayanna Louise, entende que a normativa faz com que adolescentes e jovens transvestigeneres não apenas tenham seu nome respeitado, mas sua existência e dignidade reivindicadas em um espaço que por vezes se apresenta inóspito e violento. “Ao efetivar o direito à personalidade, a educação assume o compromisso de desnaturalizar ciclos de violência, reconstruindo narrativas em defesa da democracia e do projeto de cidadania brasileira, possibilitando, por exemplo, que uma travesti negra da periferia não apenas conclua a educação básica como também vislumbre chegar à universidade pública carregando sonhos e esperança no futuro, ainda que consciente de todos os desafios que terá pela frente”, diz. 

Dayanna, que também é Secretária Nacional de Educação da ANTRA, reforça ainda que as ações afirmativas para a população trans contribuem para “a construção de novas fotografias políticas no campo da educação e da empregabilidade” e, especialmente em relação às cotas trans, que além de reparação histórica elas têm o efeito de democratizar os saberes nas universidades, bem como a inserção de docentes trans pode impulsionar outros saberes e práticas pedagógicas. “No país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, temos o horizonte de efetivar um projeto de democracia que se contraponha ao extermínio dessa população tendo na educação uma importante ferramenta de luta por justiça social”, diz. 

Saiba mais: Frequentemente descumprida, lei de cotas ainda não conseguiu incorporar docentes negros em número adequado nas universidades federais

Além do acesso 

Políticas de acesso são importantes, mas não bastam para assegurar o acolhimento e continuidade dos estudos de estudantes em quaisquer situações de vulnerabilidade – o que inclui as pessoas trans. É consenso entre ativistas que tornar o ambiente escolar e universitário mais acolhedor para a população trans e, portanto, diminuir ou erradicar a evasão escolar desse grupo, inclui também políticas de permanência, bem como ações de formação continuada com docentes e demais profissionais. 

O levantamento Corpas Trans, da USP,  revelou que quase 70% dos respondentes tinham passado por episódios de transfobia. O Mapeamento Educacional das Transmasculinidades no Brasil, a primeira pesquisa em âmbito nacional a investigar transmasculinidades e educação, de 2023, registrou taxa de evasão de 13% entre seus 406 respondentes. Além disso, mais da metade relatou o desrespeito com o uso de nome social;  40% afirmam ter sofrido violências em relação ao uso de banheiros; e mais de um terço disse já ter sofrido violências em suas relações com docentes.

“A permanência na universidade começa na educação básica, então é algo a se trabalhar também com as secretarias, não é apenas a luta pelo cumprimento de normativas no ensino superior – e que também não acontecem”, diz Murillo Medeiros Carvalho, coordenador nacional de educação e formação continuada do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT). A preocupação de Murillo tem por base um levantamento realizado por IBRAT e ANTRA com as secretarias de Educação de todo o país e que, embora não tenha conseguido resposta de todos os estados, aferiu que cerca de metade das redes do país não possuem políticas para a população trans no sistema educacional. Fora isso, o ativista reforça o grande descumprimento das legislações existentes em todos os níveis. 

“Temos o cenário da falta de normativas na educação básica e do descumprimento das políticas quando elas existem. São funcionários e até professores sem saber o que é o nome social ou sem respeitá-lo. É importante lutar não só para ter esse direito garantido, mas para de fato ser exercido”, diz. Murillo ressalta a importância da formação continuada de profissionais da educação para reverter esse cenário de descumprimento e mesmo de ignorância em relação a normativas existentes. “São entraves sistemáticos, de não dar a essas agendas a importância e urgência que merecem, de não fazer formação continuada, de não ter sistemas tecnológicos que se adequem a nomes sociais. São entraves que reforçam uma cultura cisheteronormativa que retira a humanidade das pessoas nos espaços educacionais, sejam elas estudantes, docentes ou funcionários”, complementa.  

Outras políticas de permanência pleiteadas pelo movimento são o acesso à moradia e assistência estudantil – políticas que têm sido esvaziadas em cenário de subfinanciamento. “A relação das pessoas trans com suas famílias nem sempre é positiva, então é importante que também sejam contempladas em políticas de moradia. A universidade é muitas vezes o meio para que as pessoas saiam de ambientes de violência”, defende Ise Luiza, do DCE da UFMG. “Fora o direito à saúde, como ter hospitais universitários com ambulatórios trans”, completa. 

A ANTRA, em sua nota técnica sobre as cotas trans, também defende que além da reserva de vagas, as pessoas trans sejam beneficiárias de bolsas e financiamentos e que as universidades se adaptem em todos os aspectos – de convivência, com respeito à autodeterminação de gênero em todos os espaços, inclusive banheiros, mas também no âmbito burocrático. Por exemplo, criando coordenações ou secretarias LGBTQIA+ e utilizando linguagem inclusiva e não sexista.  

Murillo Medeiros, do IBRAT, reforça: “As universidades têm mudado de fotografia nos últimos anos, mas é preciso ir além. As cotas devem vir acompanhadas de políticas afirmativas e estar presentes também entre profissionais da educação – que é um outro jeito de movimentar a política das instituições. O ativismo trans sempre foi de resistência e articulação muito potente, e a chave para a emancipação é o trabalho rumo à coletividade. Não queremos dividir migalhas, mas sentar na mesa”

Frequentemente descumprida, lei de cotas ainda não conseguiu incorporar docentes negros em número adequado nas universidades federais

Lei foi burlada de várias maneiras ao longo de uma década, e atualização ainda deixa brechas para descumprimento

Imagem da matéria "Frequentemente descumprida, lei de cotas ainda não conseguiu incorporar docentes negros em número adequado nas universidades federais". Consta três pessoas negras na imagem

A Lei de Cotas (Lei 12.990/2014), que estabeleceu a reserva de 20% das vagas oferecidas nos concursos públicos da administração pública federal a pessoas negras, ficou uma década em vigor, mas com efetividade quase nula. Isso porque as universidades e outros órgãos federais adotaram inúmeras estratégias para burlá-la. Como resultado, milhares de pessoas negras tiveram negado seu acesso ao funcionalismo público, com prejuízo financeiro estimado em mais de 3 bilhões de reais. Estes são dados levantados em 2024 pelo Observatório Opará, grupo de pesquisa e extensão vinculado à Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), que desenvolve pesquisas, discussões e advocacy sobre políticas públicas e relações étnico-raciais. 

O Opará classificou o cenário de implementação da lei de cotas como de “fracasso programado”. “Desde 2020 professores da UNIVASF já olhavam para as ações afirmativas nos concursos públicos, atentando para a ineficácia da norma vigente. A própria universidade não tinha contratado nenhum docente negro por ação afirmativa, mesmo com a lei em vigor há 6 anos. Em 2023 sentimos a necessidade de criar um observatório, pois o que acontecia no país era um escândalo e a política não tinha monitoramento e avaliação adequadas”, conta a professora Ana Luisa Araújo, atual coordenadora do Opará. 

Segundo o relatório “A implementação da Lei nº 12.990/2014: um cenário devastador de fraudes”, o direito de cada 10 pessoas negras contempladas com as cotas raciais veio acompanhado da “negação” desse direito para outras 1.990. Ou seja, de cada mil vagas ofertadas que deveriam, pela lei de 2014, ter sido preenchidas por pessoas negras, só 5 de fato o foram. O Opará analisou 10 mil editais para 46.300 vagas em 61 instituições, sendo 56 instituições da educação (Universidades e demais instituições federais de ensino).

“Não em uma ou duas instituições, mas em todos os concursos analisados encontramos mecanismos de burla que impedem pessoas negras de ter acesso pleno às vagas reservadas, o que nos permite constatar que é um projeto. Um projeto de racismo institucional reproduzido largamente”, resume Ana Luisa. 

Como a lei de cotas raciais foi descumprida

Na década em que a Lei 12.990/2014 esteve vigente (foi substituída no último mês de junho), o Opará atestou seis mecanismos principais de burla – tanto da lei de cotas raciais quanto da reserva de vagas para pessoas com deficiência (PCDs), instituída pela Lei 8.112/1990. Ou seja, seis estratégias utilizadas para que as reservas não fossem efetivadas. São elas a não publicidade da norma (ou seja, não deixar essa obrigatoriedade explícita) e cinco tipos de fracionamento de vagas. Por exemplo: ao invés de uma universidade abrir um único edital, abre vários pequenos concursos em um curto período de tempo (em diferentes campi ou departamentos). Assim, os concursos menores podem não ter vagas reservadas por conta do número total de vagas ofertadas. “A contratação não é como professor/a de uma especialidade ou campus, e sim como docente de uma Universidade”, diz a professora Ana Luisa Araújo, do Opará, sobre os fracionamentos. 

Segundo a Lei 12.990/2014, seriam necessárias ao menos três vagas para que uma delas fosse reservada a pessoas negras, mas quase dois terços dos editais analisados na pesquisa do Opará foram abertos com apenas uma vaga, e outros 10% com duas. Assim, quase 75% dos editais analisados foram elaborados com número de vagas insuficiente para a implementação da Lei nº 12.990/2014.

Outro ponto de destaque no estudo “A Mão invisível do racismo institucional e a sabotagem da Lei de Cotas Raciais (Lei nº12.990/2014)”

é o que os autores chamam de “fracionamento de elegíveis”. Esse método de burla consiste em escolher quais vagas serão reservadas, seja por sorteio ou outros métodos discricionários – e o sorteio tornou-se prática naturalizada nas universidades brasileiras. Esses métodos, como reforçam as pesquisadoras e pesquisadores, significam reduzir a integralidade do direito de pessoas negras, trazendo um fator aleatório (sorte) para o concurso. 

Como a coordenadora do Opará explica, o sorteio (e outros métodos discricionários)  é irregular pois todos os candidatos devem poder concorrer via ação afirmativa, e não apenas os que vão pleitear a vaga sorteada. Não havendo inscritos ou aprovados na vaga sorteada para as cotas, é comum que elas acabem retornando para a ampla concorrência. Assim, aquelas vagas são “perdidas”, enquanto candidatas/os a outras vagas não tiveram acesso ao direito. 

“Não é plausível que em 11 anos ainda tenhamos editais publicados sem assegurar os direitos das pessoas negras. As evidências da ineficácia estão colocadas, e por isso dizemos que as instituições que continuam reproduzindo seus editais nesses moldes estão ativamente buscando a ineficácia desta norma”, reforça Ana Luisa. 

Reserva de vagas e reparação

A lei é largamente descumprida, mas a reserva de vagas é uma demanda do movimento negro. “Precisamos de reparação, precisamos reverter essa lógica excludente e ocupar o que é nosso por direito. A Universidade pertence ao povo, e o estado [de São Paulo] tem 40% de pessoas negras. Temos o direito a estar aqui e nessas posições”, diz o professor Celso Oliveira, docente da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Coletivo de Docentes Negras e Negros da universidade. Celso é um dos professores na luta pelo aprimoramento das ações afirmativas e da reserva de vagas na USP – já que a universidade, sendo estadual, não está coberta pelas Leis de Cotas do funcionalismo federal. O Coletivo e a Defensoria Pública do Estado de São Paulo – que movem ação contra a USP pelo cumprimento de ações afirmativas raciais – sustentam que já existe arcabouço jurídico suficiente na legislação brasileira que justifique a adoção ampla e efetiva da reserva de vagas em todos os âmbitos. O principal exemplo seria a Convenção Interamericana contra o Racismo, promulgada no Brasil em 2022 como Emenda Constitucional

O professor da USP cita também a urgência de reparação dos acessos negados à população negra. E já há, de fato, universidades brasileiras pensando ou implementando concursos específicos focados nesse mecanismo, como a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e a Univasf. Esta última aprovou, junto ao Conselho Universitário, a reparação de vagas para pessoas negras e PCDs com a ideia de incorporar em concursos futuros todas as vagas que deveriam ter sido preenchidas por estes grupos, mas que não o foram porque a Universidade não implementava a lei adequadamente. Ou seja, além de seguir aplicando a Lei de Cotas, fará um “esforço extra” para que a população negra ocupe vagas que já deveriam ter sido preenchidas. 

Desafios da inclusão real 

A Universidade Federal de Goiânia (UFG) criou uma Secretaria de Inclusão em 2022 para avançar na implementação da Lei de Cotas. Como relata a professora Luciana de Oliveira Dias, antropóloga, docente e Secretária de Inclusão da Universidade, ainda há muito a ser feito, mas a universidade já avançou e começa a ver algumas mudanças no cotidiano. “Os reflexos no corpo docente são insuficientes se considerarmos o quadro geral brasileiro, mas há uma diversificação mínima do quadro de profissionais, que têm feito diferença discreta e estética na universidade. O saber está mais pluridiverso, e essa diversidade está diretamente relacionada à adoção de políticas afirmativas”, completa Luciana, que menciona também a presença de 30 línguas indígenas na universidade por um programa de ação afirmativa via educação intercultural. “As instituições precisam reconhecer que o racismo opera na sociedade e assumir sua responsabilidade social na implementação de ações afirmativas e também na criação de procedimentos internos para sua efetivação”, diz. 

Mas como a própria docente afirma, os casos de racismo cotidianos seguem acontecendo na universidade, e as e os profissionais incorporados ao quadro da Universidade seguem sendo questionados de diversas maneiras. “Ser a primeira, e falo por experiência própria, tem uma grande carga de responsabilidade, porque somos inspiração mas também vitrine, sofrendo ataques de todos os lados. Um erro mínimo ganha dimensão escalonada e o erro é rapidamente relacionado ao pertencimento racial. São vários processos que provocam adoecimento nas poucas pessoas negras da universidade”. 

A antropóloga, que chefia a Secretaria de Inclusão da UFG, diz também que outras nuances permanecem nos processos de ingresso de docentes e que, portanto, a luta continua. “Há ainda muitos concursos com resultados judicializados. E percebemos que as bancas são muito afetadas por subjetividades que acabam interferindo, por isso é importante assegurar a presença de docentes negros também nesses espaços, fora a obrigatoriedade da banca de heteroidentificação”. 

Essas agendas também são defendidas por Ana Luisa Araújo, do Opará. O observatório recomenda ainda a divulgação de espelhos de provas escritas e didáticas para assegurar a transparência e o monitoramento dos concursos e da Lei de Cotas, além de composições diversas nas bancas examinadoras e de prestações de contas por parte das instituições federais e do Ministério da Educação.  

Lei atualizada, brechas que persistem

A Lei 12.990/2014 foi revogada no último mês de junho, sendo substituída pela Lei 15.142/2025. A nova legislação em vigor aumenta a reserva de vagas para cotas de 20% para 30% e expande o rol de elegíveis: pessoas pretas e pardas, indígenas e quilombolas. A distribuição dos 30% deve ser: 25% para pessoas pretas ou pardas, 3% para indígenas e 2% para quilombolas. A revisão e aprimoramento da lei de 2014 com uma década de vigência já eram previstos, mas a lei aprimorada não ficou pronta no Congresso no prazo ideal, fazendo com que a legislação de 2014 ficasse um ano a mais em vigor. 

Para organizações que monitoram o cumprimento de ações afirmativas, o novo texto é um marco importante mas, embora traga avanços, permanecem os desafios de efetivação. “A Lei 15.142 de 2025 de fato representa um saldo positivo, com resultados dos aprendizados da lei anterior. A ampliação para 30% e a inclusão de indígenas e quilombolas são conquistas históricas. Mas é preciso considerar que existe um desafio além da norma, na efetividade. Sem fiscalização, se os mecanismos não forem robustos do ponto de vista do controle de fraude, do esvaziamento da legislação, e da aplicação dessa política pública, corremos o sério risco de ver a lei reduzida a uma simples promessa”, resume Amarilis Costa, da Rede Liberdade, articulação que atua juridicamente em casos de violação de direitos e liberdades individuais.

Amarilis destaca positivamente as cláusulas de alternância e proporcionalidade – que dispõem que a nomeação de candidatas e candidatos deve procurar ser alternada (entre ampla concorrência e acesso via lei de cotas) e seguir as proporções gerais do concurso. Para a advogada, essas cláusulas “rompem com a lógica de confinamento dos cotistas, que cria uma espécie de posições marginais”, e, se respeitadas, permitem maiores chances de ascensão funcional dos novos servidores. Outro ponto positivo é a inclusão de indígenas e quilombolas como grupos beneficiários. “Esta inclusão faz com que possamos pensar dinâmicas sociais para a composição do serviço público que de fato sejam mais representativas e que tenham um olhar de justiça racial”, diz.

A coordenadora do Observatório Opará, Ana Luisa Araújo, concorda que a legislação traz avanços, mas ainda enxerga fragilidades no novo texto. “Para assegurar a reserva de uma vaga por essa lei, um edital só precisa abrir duas vagas. Mas essa reserva exclui as pessoas com deficiência. Para contemplá-los também, são necessárias 5 vagas no total. Além disso, a lei não resolve os desafios que já foram identificados como levando à inefetividade da norma anterior”, avalia.

Ana Luisa se refere principalmente ao mecanismo de sorteio das vagas, que segue sendo possível após a regulamentação da nova lei, através da Instrução Normativa 261 (IN261), elaborada pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos em parceria com os ministérios da Igualdade Racial e dos Povos Indígenas. “Incluir um critério aleatório como a sorte é uma forma de esvaziar uma política de ação afirmativa, de desmontá-la silenciosamente e com o aval do Poder Executivo”. A Rede Sustentabilidade entrou com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no Supremo em relação a isso.

A sociedade civil e os movimentos negros seguem e seguirão atentos para assegurar a efetividade da nova política e denunciar eventuais descumprimentos. Como resume a advogada Amarilis Costa, “a lei é uma conquista, mas a efetividade e a aplicação são o destino final de toda essa atuação”. “Seu efeito está intrinsecamente condicionado a suas dinâmicas de aplicação, e sociedade civil, movimentos negros, indígenas, quilombolas e as universidades, junto dos órgãos de controle, fizeram um trabalho muito importante para a construção dessa revisão e vão se manter vigilantes. Até porque trata-se de uma matéria de reparação histórica. É uma vitória real, mas ainda não concluída”.

Tramitando no Congresso Nacional, texto do novo PNE ainda não assegura agendas de gênero e sexualidade

Apesar de centenas de emendas pela inclusão, últimas versões não explicitam essas agendas nem nomeiam discriminações a serem combatidas

O novo Plano Nacional de Educação (PNE), atualmente em tramitação no Congresso (PL 2.614/2024), é o projeto de lei (PL) que mais recebeu emendas na história. Foram 3070 propostas de alteração no texto enviado pelo Governo, expressão das disputas em torno do projeto. No último dia 14 de outubro, o deputado Moses Rodrigues (MDB-CE), relator da matéria, apresentou a nova versão do texto após a incorporação ou rejeição das emendas recebidas. Ponto em comum entre ambas as versões é a ausência das agendas de gênero e sexualidade, apesar de terem sido validadas pela sociedade na Conferência Nacional de Educação (CONAE) de 2024 e das centenas de emendas que tocavam no assunto.

“Gênero” no PNE: histórico 

O PNE atualmente em vigor (lei 13.005/2014) também não contempla essas agendas de modo explícito, resultado de intensa pressão de setores ultraconservadores que marcou a tramitação do Plano. O texto que chegou à Câmara em 2014 expressava que o PNE tinha como diretriz “a superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual”. Ao final, prevaleceu um texto que retirava essas ênfases, expressando apenas a necessidade da “erradicação de todas as formas de discriminação”. Um “conteúdo genérico, suficientemente inclusivo”, como avaliaram, em artigo, os pesquisadores Salomão Ximenes, Fernanda Vick e Márcio Alan Menezes Moreira. 

“A supressão deste tema no último PNE é um importante capítulo na disputa em torno das políticas educacionais e, por tabela, do projeto de cidadania brasileira. As cruzadas antigênero encontraram no espaço escolar um terreno fértil para sua disseminação, ancorada muitas vezes na lógica de uma suposta proteção da infância e da família aliada à propagação de pânicos morais”, diz Dayanna Louise, Secretária de Educação da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). A ausência se traduziu em uma década de disputas em diferentes âmbitos: nas escolas, onde aumentou a censura e a cultura do medo; no Legislativo, durante a elaboração dos planos estaduais e municipais, além das centenas de projetos de lei sobre gênero e educação; no Judiciário, que desde 2020 vem reconhecendo em diversas ocasiões não apenas a legitimidade mas também o dever constitucional de abordar discussões sobre gênero e sexualidade na escola. Uma das mais importantes foi o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5668 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que interpretou que a “erradicação de todas as formas de discriminação” presente no PNE também abrange as discriminações de gênero e de orientação sexual, reconhecendo a obrigação do Estado em garantir que as pessoas não sejam vítimas dessas violações nas escolas.

Gênero no novo Plano: lutas e resistências

As agendas de gênero e sexualidade (articuladas à raça) e o combate a todas as formas de discriminação foram amplamente referendadas pela sociedade civil, que vem lutando para que estas constem no documento mais importante da política educacional brasileira. Na última CONAE, o texto final – que, segundo o regimento, deve ser a base para o governo apresentar sua proposta -, contemplou de forma abrangente o aumento do investimento em educação pública, a revogação do Novo Ensino Médio e a necessidade das discussões sobre gênero, raça e combate a todas as formas de discriminação. Fora isso, foram aprovadas quatro moções da Articulação contra o Ultraconservadorismo na Educação, incluindo uma por uma política de promoção da igualdade de gênero, raça e diversidade sexual na educação

No entanto, o Executivo não espelhou essa ampla defesa das agendas de gênero e sexualidade na proposta que enviou ao Congresso. Nela, os termos “gênero”, “orientação sexual” ou a população LGBTQIA+ sequer são mencionados. Teoricamente, essas populações e agendas estariam contempladas nas menções a diversidades, igualdade, equidade e combate a discriminações, à luz do que aconteceu em 2013. O presidente Lula classificou o Plano, nesta versão, como “factível e sério”. 

O texto base do governo, já à época criticado por seu caráter mais generalista também em outras metas, recebeu 3070 emendas. Quase 10% delas tratavam explicitamente de gênero e sexualidade, seja no sentido de inclusão, expansão e garantia de direitos, seja no sentido de exclusão e cerceamento. “Foram mais emendas de inclusão do que de exclusão, o que não significa maior presença do campo progressista em relação ao conservador. Isso quer dizer, na verdade, que o documento enviado pelo Executivo não foi tão progressista assim e tinha muito espaço para melhora. Já as emendas de exclusão tentam tirar os poucos ganhos do projeto, em sua maioria suprimindo gênero ou práticas pedagógicas em direitos humanos”, resume Natália Assunção, mestranda em Ciência Política na UNB e criadora do Observatório de Gênero e Diversidade Sexual no PNE, que monitora o processo. 

A maioria das emendas, tanto de inclusão ou de exclusão, foi rejeitada integralmente, com algumas propostas sendo parcialmente acatadas na nova redação. “Entendo que é o resultado de um esforço do Executivo de não trazer controvérsia para o Plano, o que já tinha sido refletido também nas audiências públicas realizadas pela Comissão Especial do PNE, todas focadas nas estratégias, sem debruçar-se sobre gênero”, complementa Natália.

Na sessão de apresentação do documento, dia 14 de outubro, o deputado Moses Rodrigues mencionou explicitamente que o objetivo foi “preservar o debate acerca do PNE (…) de disputas ideológicas que desviassem o foco da garantia do direito à educação de qualidade”. O prazo de envio de emendas para a versão de Moses já se encerrou, e agora o texto será analisado e aprovado na Comissão Especial da Câmara dos Deputados para, em seguida, ser votado na Câmara e no Senado – processo que pode se estender até 2026.

“Assim como na tramitação do Plano atual, os grupos que atuam contra gênero, raça e a população LGBTQIA+ estão organizados. Agora, ampliaram sua bancada e se fortaleceram na Câmara, estando também muito atuantes no cotidiano escolar – por exemplo, agindo para cima de familiares que cobram o ensino da cultura africana e afro-brasileira na escola, e chamando certos temas de ‘doutrinação ideológica’. Ou seja, estamos num momento extremamente crítico. Mas também temos aliados e aliadas comprometidas a fazer valer uma educação de qualidade”, pondera Suelaine Carneiro, coordenadora de educação e pesquisa do Geledés – Instituto da Mulher Negra. 

As disputas no projeto do Executivo 

O primeiro texto, do Executivo, recebeu 227 emendas que o tornavam mais inclusivo em relação a gênero e sexualidade, e outras 36 que o tornavam mais restritivo. Vinte e um parlamentares de seis partidos diferentes apresentaram emendas inclusivas, que se distribuíram em todas as etapas da educação, além de emendas transversais, não específicas a uma etapa ou modalidade. Essas emendas majoritariamente espelhavam o conteúdo proposto pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação junto a 23 entidades. 

Além da inclusão da abordagem de gênero e sexualidade e da nomeação das discriminações e violências a serem combatidas e superadas, as emendas inclusivas também propunham: políticas de educação sexual; fomento da participação feminina em carreiras STEM (ciência, tecnologia, engenheria e matemática); mecanismos para garantir a efetivação das leis 10.639/2003 e 11.645/2011; políticas de prevenção ao abuso sexual; e uma política nacional de desmilitarização de escolas públicas, com recorte ao enfrentamento de racismos, machismos, LGBTQIAPN+fobia. Das 227 emendas, 6 foram acatadas integralmente; 109 parcialmente e 139 delas foram rejeitadas. 

Já as 36 emendas que pretendiam tornar o PNE excludente e contraditório à legislação existente – que já assegura a abordagem de gênero, raça, sexualidade e direitos humanos na Educação – foram propostas por 10 parlamentares distintos. Nikolas Ferreira (PL-MG), presidente da Comissão de Educação da Câmara, e Júlia Zanatta (PL-SC) foram responsáveis por mais da metade delas, tendo enviado 10 e 9 emendas, respectivamente. Assim como no caso das emendas de inclusão, essas também se distribuíam por todas as etapas e em diversos objetivos, metas e estratégias do novo PNE. O deputado Dr. Luiz Ovando propôs “protocolos de prevenção à ‘doutrinação ideológica’”; Julia Zanatta apresentou uma emenda sobre o “direito dos pais de escolher a formação moral e religiosa dos filhos“, e Chris Tonietto sobre uma suposta “neutralidade ideológica”, vedando conteúdos “que contrariem convicções morais, religiosas ou filosóficas das famílias”. Das 36 emendas excludentes, nenhuma foi acatada integralmente, outras 28 foram rejeitadas e 8 foram acatadas parcialmente. 

“Chama a atenção a articulação do grupo antigênero, que consegue pautar suas agendas de uma maneira que é preciso um olhar afiado para entender que, por trás das palavras e de seu enquadramento de gênero, estão retrocessos para a democracia como um todo”, destaca Nicole Gonzaga, co-criadora do Observatório de Gênero e Diversidade Sexual no PNE. O Observatório tem monitorado e categorizado todas as emendas recebidas nas diferentes versões do PNE, disponibilizando o balanço para consulta pública. Natália Assunção, também do Observatório, faz coro a essa análise, alertando para a estratégia do campo conservador de não nomear discriminações, como na tramitação passada. “Por mais que o STF tenha afirmado que mesmo uma redação genérica implica que as escolas devem combater todas as formas de preconceito, inclusive baseadas em gênero, identidade de gênero e diversidade sexual, parece ser uma estratégia que a direita percebeu que funciona”, diz.

A percepção de que não explicitar violências, discriminações e grupos específicos no PNE é uma vitória do campo conservador – a despeito do que diga o arcabouço jurídico – é compartilhada por Fernanda Moura, professora e integrante do Observatório Nacional de Violência contra Educadores e do Professores Contra o Escola Sem Partido. “Se não conseguimos nomear, estamos perdendo, por mais que existam brechas”, afirma, baseando-se na experiência de uma década atrás. “A mobilização pela exclusão do gênero foi bem sucedida. Mas a mobilização posterior, que era pela proibição do gênero – e não apenas a exclusão – não foi. Ou seja, a vitória do campo conservador foi parcial se analisarmos apenas o texto, mas isso não bastou, porque ao longo dos anos a exclusão foi tratada, no dia a dia, como se fosse uma proibição. A retirada do gênero foi usada como justificativa quando se perseguiam professores por tratar dessas questões”. Por isso, a educadora reforça a importância de brigar por essas explicitações em todas as etapas da tramitação. 

O Geledés Instituto da Mulher Negra avaliou que o texto do Executivo demonstrou uma preocupação significativa com a pauta étnico-racial, tratando-a tanto de forma estrutural quanto como um marcador de vulnerabilidade. Em contrapartida, a completa omissão da sexualidade e identidade de gênero sugere uma intenção de despolitizar o texto e evitar o confronto ideológico com setores conservadores na fase de tramitação legislativa, mantendo apenas a linguagem mais genérica amparada constitucionalmente. “Isso compromete a capacidade do PNE de enfrentar de forma robusta e explícita as desigualdades e opressões históricas na educação brasileira”, diz a análise da organização, que, ao comparar as versões da Conae, do Executivo e do relator, destaca a tensão e “disputa explícita sobre a centralidade e a forma como as questões de raça, gênero, sexualidade e diversidade devem ser tratadas na política educacional brasileira”. 

“É fundamental lembrar que suprimir o gênero não é apenas uma finalidade em si mesma. Ao contrário, é um conceito que virou um espantalho que justifica tudo, basta lembrar que o PNE não tirou só o gênero do texto, mas também as outras formas de desigualdade, como a de raça e a de classe”, diz Fernanda Moura. “Por isso não dá mais para apenas ‘combater desigualdades’, precisamos nomeá-las. Enquanto não estiverem claras e nomeadas, o outro lado continuará dizendo que é proibido, que estamos doutrinando, a despeito das decisões legais. Nomear também traz segurança jurídica aos educadores e educadoras”, complementa a educadora Fernanda Moura.  

Parecer do Relator Legislativo (PRL) e Emendas: apagamento e resistência

A versão do relator, apresentada em outubro, difere do texto do Executivo ao incluir  um objetivo, 12 metas e 101 estratégias no texto do PNE, mas segue sem adereçar diretamente a importância das escolas educarem para a igualdade de gênero na intersecção com raça, pelo respeito a todas as identidades de gênero e orientações sexuais, pelo enfrentamento ao machismo, racismo, LGBTfobia, capacitismo e por um currículo em educação sexual. A maior parte das emendas sobre essas agendas foi rejeitada ou acatada apenas parcialmente. Alguns avanços foram a inclusão das interseccionalidades nas diretrizes​​, e do cumprimento das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que tratam da obrigatoriedade do estudo da História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena. 

Em nota, a Ação Educativa manifestou profunda preocupação e repúdio pela ausência e reforçou que essas interdições representam um novo ataque a estudantes e profissionais da educação que têm o direito constitucional de abordar agendas relacionadas aos direitos humanos. “A omissão dessas agendas representa um grave ataque ao direito humano à educação e reforça a invisibilização das desigualdades estruturais que atravessam a vida de meninas, mulheres, pessoas negras, indígenas, quilombolas, LGBTQIAPN+ e pessoas com deficiência, comprometendo o direito à aprendizagem, à proteção e à dignidade de milhões de estudantes”, diz o posicionamento. 

O substitutivo recebeu 1380 emendas. Destas, 86 referem-se explicitamente a gênero e sexualidade, sendo 48 no sentido de inclusão das agendas e 38 de exclusão. Em ambos os casos, as e os parlamentares proponentes retomaram pontos da etapa anterior – por exemplo, propondo uma política de desmilitarização das escolas públicas ou, ao contrário, suprimindo marcadores de discriminações. Há ainda uma emenda que quer incluir, entre as diretrizes, a promoção “das diferentes visões de mundo” visando evitar “deriva para agendas identitárias prescritivas”. Entre as mais de 100 emendas que propõe ao substitutivo, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) quer resguardar “o direito dos pais de decidir sobre aspectos relevantes da educação dos filhos”. 

“Apesar da deputada Tábata Amaral [presidente da Comissão Especial sobre o PNE]  ter comentado que o substitutivo não deixa ninguém para trás, foi mantida a completa ausência da palavra gênero e da população LGBTQIAPN+, além de temas relacionados que estão sendo enquadrados no mesmo guarda-chuva como proibidos, como a educação sexual“, destaca Natalia Assunção, do Observatório de Gênero e Diversidade Sexual no PNE

Após a categorização e disponibilização das emendas, Natalia avalia que o campo conservador partiu para outras agendas. “Dá a impressão de que reconheceram que essa batalha [pela exclusão do gênero] estava ganha. Agora se destaca o negacionismo climático. Isto é, emendas que tentam remover totalmente as menções a mudanças climáticas e adaptação a elas. Além disso, há a tentativa de retirada de trechos que direcionam políticas específicas a grupos sociais historicamente excluídos ou marginalizados, com a ideia de que as políticas devem ser universais. O exemplo mais direto é o ataque a emendas que falam sobre fomentar acesso, permanência e conclusão de mulheres em áreas STEM”, resume. 

Para Denise Carreira, professora da Faculdade de Educação da USP e integrante da Articulação contra o Ultraconservadorismo na Educação, a retirada das menções a gênero e sexualidade não foi uma surpresa e nem necessariamente uma derrota. “A estratégia de retomar explicitamente esses temas, sempre em articulação com raça, em vários momentos do texto é uma afirmação política”, diz. “Nós conseguimos avançar no reconhecimento da interseccionalidade, e há a menção à violência e ao assédio, embora apenas de forma genérica, sem a explicitação de suas causas. Gênero também não entrou como objeto de proibição, como proposto por grupos ultraconservadores”, completa. 

Lutas prosseguem por um PNE que valorize a diversidade

No início de novembro, mais uma versão do texto foi apresentada. Novamente, sem a incorporação das agendas de gênero e sexualidade. Por isso, a luta por um PNE inclusivo e que enfrente as múltiplas desigualdades sociais e educacionais continua. “Precisamos seguir pautando a mesma estratégia múltipla no Senado, associando-a à determinação do STF sobre a ADI 5668/2024″, reforça Denise. Uma das ferramentas de luta é a “Proposta de Política Nacional de Educação para a Igualdade de gênero, diversidade sexual e educação integral em sexualidade, em perspectiva interseccional”, entregue em outubro ao Ministério da Educação (MEC). O documento é fruto de um trabalho amplo de escuta do MEC de organizações de sociedade civil, entidades acadêmicas, movimentos sociais e instituições do sistema de justiça e de pesquisa, que pretendia justamente dar uma resposta a uma determinação do STF. “Ele propõe uma política sistêmica, multidimensional e de Estado que supere a interdição e silenciamento ou mesmo a abordagem residual das agendas de igualdade de gênero, diversidade sexual e educação integral em sexualidade nas políticas educacionais. Na próxima etapa da tramitação do PNE, no Senado, devemos ecoar este documento como referência fundamental para nossa incidência”, reforça Denise. 

Também parte do grupo que ajudou a produzir esse referencial, Dayanna Louise, Secretária de Educação da Antra, lembra que quanto mais os movimentos reacionários tentam criminalizar essas discussões, mais se ampliam os espaços e horizontes dispostos a experimentar saídas. “A frágil democracia brasileira exige luta diária e coletiva pela preservação e ampliação de direitos, contrariando a quem nos quer silenciar, criminalizar e exterminar. Para além de uma “pauta de costumes”, garantir a inserção de temas como gênero no currículo escolar a partir de uma perspectiva emancipatória é reivindicar uma educação pública ancorada na democracia e na justiça social”, afirma. Suelaine Carneiro, de Geledés, reforça: “Nós enquanto sociedade civil e ativistas pelo Direito à educação de qualidade, antirracista e antissexista, vamos continuar acreditando na possibilidade de termos um PNE que de fato valorize e promova a diversidade étnico-racial, a igualdade de gênero e principalmente uma educação voltada para a emancipação e fortalecimento da cidadania”.

Organizações da sociedade civil e instituições acadêmicas entregam proposta de política nacional para enfrentar violências e desigualdades de gênero e sexualidade na educação

Documento propõe diretrizes sistêmicas para promover direitos educativos de meninas, mulheres e população LGBTQIA+ e fortalecer relações igualitárias nas escolas

Como as políticas educacionais podem contribuir para o enfrentar violências, discriminações e desigualdades de gênero e orientação sexual? Representantes de organizações da sociedade civil, movimentos sociais e entidades acadêmicas, incluindo Ação Educativa, Faculdade de Educação da USP, Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), Associação Brasileira de Estudos da Trans-Homocultura (Abeth), Conselho Federal de Psicologia, entre outros, apresentou nesta quinta-feira (16), em Brasília, uma proposta de política nacional sistêmica ao Ministério da Educação (MEC). O documento também foi entregue ao Ministério das Mulheres e à Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

“A censura e o silêncio sobre as questões de gênero e sexualidade deixam crianças, adolescentes e jovens expostos à violência e fomentam a perseguição a profissionais da educação. Por isso, apresentamos essa demanda de uma política que enfrente essas questões de forma estruturada e permanente”, afirma Bárbara Lopes, coordenadora do projeto Gênero e Educação da Ação Educativa.

Plano propõe ações para fortalecer políticas educacionais

Visando o estabelecimento de uma agenda de curto, médio e longo prazo nas políticas educacionais, a proposta reúne 12 eixos de ação, que abrangem a formação e proteção de profissionais da educação, a produção de materiais didáticos, protocolos de enfrentamento às violências e campanhas de comunicação e educativas voltadas à igualdade de gênero, diversidade sexual e educação integral em sexualidade.

Elaborado por Denise Carreira, professora da Faculdade de Educação da USP, o documento é fruto de um amplo processo de escuta realizado pelo Grupo de Trabalho Técnico de Enfrentamento ao Bullying, ao Preconceito e à Discriminação, instituído pela Secadi/MEC. Também incorpora deliberações das Conferências Nacionais de Educação, balanços de produções acadêmicas e relatórios de grupos que analisaram os recentes ataques às escolas.

“Pesquisas nacionais de opinião pública como ‘Educação, Valores e Direitos’ revelam que a população brasileira é majoritariamente favorável à educação integral em sexualidade e à abordagem da igualdade de gênero e diversidade sexual nas escolas, compreendendo que isso é decisivo para a proteção de crianças, adolescentes e jovens contra abusos sexuais e para a superação da violência contra meninas, mulheres e população LGBTQIA+. Neste documento, propomos uma política sistêmica que supere a abordagem residual que o problema tem recebido nas políticas governamentais em decorrência da atuação de grupos ultraconservadores que manipulam e promovem a desinformação e o pânico moral”, afirma a professora Denise Carreira.

Segundo as organizações envolvidas, o objetivo é fortalecer políticas públicas educacionais comprometidas com os direitos humanos e com uma educação livre de violências e desigualdades.

Proposta de Política Nacional de Educação para a Igualdade de Gênero, Diversidade Sexual e Educação Integral em Sexualidade, em perspectiva interseccional: rumo a uma política sistêmica e de Estado (2025)

Elaboração do documento: Denise Carreira (Faculdade de Educação da USP)
Grupo de Apoio à Relatoria (leituras críticas): Alexandre Bortolini (Abeth); Barbara Lopes (Ação Educativa); Benilda Brito (Nzinga/Rede de Ativistas do Fundo Malala); Clóvis Arantes (ABGLT); Dayanna Louise (Antra); Erivan Hilário dos Santos (especialista); Patrícia Baroni (Anped); e Raquel Guzzo (Conselho Federal de Psicologia).

Acesse o documento aqui.

Sobre a Ação Educativa

Fundada em 1994, a Ação Educativa é uma associação civil sem fins lucrativos que atua nos campos da educação, da cultura, da juventude, da tecnologia e do meio ambiente na perspectiva dos direitos humanos.

Para tanto, realiza atividades de formação e apoio a grupos de educadoras/es, jovens e agentes culturais. Integra campanhas e outras ações coletivas que visam à garantia desses direitos. Desenvolve pesquisas e metodologias participativas com foco na construção de políticas públicas sintonizadas com as necessidades e interesses da população.

É sua missão a defesa de direitos educativos, culturais e das juventudes, tendo em vista a promoção da democracia, da justiça social e da sustentabilidade socioambiental no Brasil. Conheça mais em: https://acaoeducativa.org.br/.

Informações para a Imprensa – Agência Pauta Social

Adriana Souza Silva (11) 98264-2364 | adriana@agenciapautasocial.com.br
Mayara Martins (11) 95982- 8675 | mayara@agenciapautasocial.com.br

Ação Educativa lança curso gratuito sobre ultraconservadorismo e educação em 2025

Iniciativa promoverá seis encontros gratuitos em São Paulo para refletir sobre ofensivas autoritárias no campo da educação

Ação Educativa abre inscrições para o curso “Gênero e Educação 2025: Mapeando o fenômeno ultraconservador”, que será realizado presencialmente em sua sede, em São Paulo, entre os dias 20 de outubro e 5 de novembro. Gratuita e com 40 vagas disponíveis, a formação busca aprofundar o debate sobre o avanço do ultraconservadorismo e seus diferentes “tentáculos”, como o anticomunismo, a criminalização de movimentos sociais, a violência estatal, a censura e as ofensivas antigênero.

Com aulas ministradas às segundas e quartas-feiras, das 19h às 21h30, o curso contará com educadoras convidadas e abordará temas como a relação entre ultraconservadorismo e neoliberalismo, o papel das plataformas digitais na difusão da extrema-direita e as possibilidades de resistência e construção de contra-narrativas no campo da educação.

Compreender os impactos do fenômeno ultraconservador na educação exige situá-lo no cenário político atual. Como organização da sociedade civil dedicada à formação de professores e educadores, a Ação Educativa propõe este curso para ampliar o olhar sobre o tema, explorando diferentes dimensões desse fenômeno. A iniciativa parte da compreensão de que a complexidade do ultraconservadorismo afeta a educação de maneira direta e indireta”, afirma Bárbara Lopes, coordenadora de Gênero e Educação da Ação Educativa.

Como funciona o fenômeno ultraconservador?

O curso busca oferecer ferramentas críticas para compreender como o ultraconservadorismo se enraizou no Brasil e no mundo, impactando a democracia, os direitos humanos e a própria educação. “Nosso objetivo é fortalecer as iniciativas de resistência e ampliar a participação popular nos debates públicos”, completa Bárbara.

A iniciativa é realizada pelo Centro de Formação e pelo projeto Gênero e Educação, ambos da Ação Educativa e terá como última aula uma reflexão coletiva sobre propostas e caminhos possíveis para a educação em tempos de crescimento de setores autoritários.

As inscrições são gratuitas e, caso o número de interessados(as) ultrapasse as vagas disponíveis, haverá processo seletivo que priorize a participação de pessoas negras, indígenas e LGBTQIAPN+, além de considerar a motivação apresentada no formulário de inscrição.

Inscreva-se


Encontro 1

Ultraconservadorismo no contexto político atual: diferentes desdobramentos

20/10, 19h às 21h30. Iniciaremos o curso com uma introdução sobre o caráter multifacetado do ultraconservadorismo, relacionando esse fenômeno com o avanço do autoritarismo e com a ampliação das desigualdades sociais, raciais e de gênero.

Com Chirley Pankará e Jacqueline Moraes Teixeira

Chirley Pankará: Pedagoga, mestra em Educação pela PUC-SP e doutora em Antropologia Social pela USP. Nascida em Pernambuco, migrou para São Paulo aos 25 anos em busca de oportunidades. Atuou por oito anos como gestora dos Centros de Educação e Cultura Indígena (CECIs) e foi coordenadora-geral de Promoção a Políticas Culturais no Ministério dos Povos Indígenas. Foi a primeira codeputada estadual pela Bancada Ativista (PSOL/SP) e também é escritora e contadora de memórias. Atualmente faz parte da assessoria política da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA)

Jacqueline Moraes Teixeira: Professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Doutora em Antropologia Social pela USP, onde também obteve o título de mestre. Possui graduação em Ciências Sociais e em Teologia. É pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, realizando pesquisas na área de gênero, raça, sexualidade e religião. É também coordenadora do CRESPO - Cultura, Religião, Sujeitos e Políticas.

Encontro 2

Ultraconservadorismo, criminalização de movimentos sociais e violência de Estado

22/10, 19h às 21h30. De que forma o ultraconservadorismo se alimenta do autoritarismo – como se define seus alvos? No segundo encontro, daremos sequência à análise desse fenômeno e sua relação com a intensificação de processos de criminalização de movimentos sociais e da violência do Estado.

Com Ana Silva Rosa e Luana Pommé

Ana Silva Rosa: Doutora em ciência política pelo instituto de estudos sociais e políticos (iesp-uerj) e coordenadora do centro de análise da liberdade e do autoritarismo (LAUT).

Luana Pommé: Pedagoga, mestre em educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e especialista em educação, trabalho e movimentos sociais pela Escola Nacional Florestan Fernandes (FIOCRUZ/ENFF). Membro da coordenação nacional do Setor de Educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST).

Encontro 3

Ultraconservadorismo e articulação anticomunista internacional

27/10, 19h às 21h30. O discurso anticomunista está intrinsecamente entrelaçado ao ultraconservadorismo em suas diferentes faces. Para compreender essa ligação, o terceiro encontro irá aprofundar sobre a formação da Liga Anticomunista Internacional e sua atuação no Brasil

Com Rodolfo Costa

Rodolfo Costa: Bacharel em Direito, mestre e doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Pesquisador-visitante na Universidade de Columbia (Fulbright). Licenciado em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Pesquisador da Comissão Nacional da Verdade. Professor de História na PUC-SP e na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo

Encontro 4

A extrema-direita na era das plataformas

29/10, 19h às 21h30. O viés político das big tech tem se tornado cada vez mais perceptível na propagação do autoritarismo. O encontro discutirá como essa infraestrutura opera no contexto político atual e quais são seus impactos no cotidiano.

Com Juliane Cintra

Juliane Cintra: Coordenadora de Projetos Especiais da Ação Educativa, é Mestra em Direitos Humanos pela Faculdade de Direito da USP. Integra a Diretoria Executiva da Abong. Possui experiência na área de Comunicação, com ênfase em Comunicação Popular, Relações Étnico-Raciais, Gênero e Direitos Humanos.

Encontro 5

Ofensivas antigênero: a hidra de muitas cabeças

3/11, 19h às 21h30. No penúltimo encontro, vamos analisar como a narrativa falaciosa da “ideologia de gênero” sustenta as estratégias e articulações transnacionais do ultraconservadorismo

Com Sonia Corrêa

Sonia Corrêa: É formada em arquitetura e tem uma pós-graduação em antropologia. Com Richard Parker, coordena o Observatório de Sexualidade e Política, sediado na Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS. Entre 2018 e 2020, coordenou dois ciclos de pesquisa sobre políticas antigênero na América Latina.

Encontro 6

Educação para liberdade: debatendo gênero e construindo resistência

5/11, 19h às 21h30. A partir das aulas anteriores, o último encontro finaliza o curso buscando refletir os desafios atuais de gênero na educação e mapear estratégias de resistências como possibilidades para ações coletivas.

Com Dayanna Louise

Dayanna Louise: Professora da rede pública de Pernambuco, Secretária de Educação da ANTRA e Doutoranda em Educação, atualmente coordena a Unidade de Educação para as Relações de Gênero e Sexualidades na Secretaria de Educação de Pernambuco.


Serviço

Curso: Gênero e Educação 2025: Mapeando o fenômeno ultraconservador
Período: 20/10, 22/10, 27/10, 29/10, 03/11 e 05/11 (segundas e quartas), das 19h às 21h30
Local: Ação Educativa – Rua General Jardim, 660, Vila Buarque, São Paulo/SP
Formato: presencial
Vagas: 40

Cultura e educação se unem para promover direitos humanos: ONG Ação Educativa lança 4ª edição do Edital Igualdade de Gênero na Educação Básica

Com foco em práticas pedagógicas inovadoras e interseccionais, a iniciativa busca fortalecer o enfrentamento às desigualdades de gênero, raça e diversidade sexual nas escolas brasileiras

Imagem de matéria "Cultura e educação se unem para promover direitos humanos: ONG Ação Educativa lança 4ª edição do Edital Igualdade de Gênero na Educação Básica" do site Gênero e Educação. Um grupo de vogue se apresenta animadamente

A Ação Educativa, em parceria com uma ampla rede de organizações e com apoio do Fundo Malala, lança a quarta edição do edital “Igualdade de Gênero nas Escolas: Fortalecendo novas narrativas a partir da cultura”, com inscrições abertas a partir de 28 de abril de 2025. O objetivo é selecionar e valorizar relatos de experiências, planos de atividades, planos de aula e sequências didáticas que promovam a igualdade de gênero na educação básica, em instituições públicas e privadas de ensino.  

A iniciativa busca responder aos crescentes desafios enfrentados por educadoras e educadores que atuam com temas de gênero, raça e diversidade sexual no ambiente escolar, especialmente diante de tentativas de censura, intimidação e disseminação de desinformação por parte de movimentos ultraconservadores.   

“Queremos valorizar a atuação de educadoras, arte-educadoras, artistas e ativistas que têm buscado diferentes formas de promover reflexões sobre as desigualdades sociais, de gênero e de raça”, explica Bárbara Lopes, coordenadora do projeto Gênero e Educação da Ação Educativa. “Acreditamos que a cultura abre um olhar novo para a nossa realidade, ajuda a questionar aspectos que ficam invisibilizados e a imaginar possibilidades de vida em comum.”      

A cultura como resposta à censura e à intolerância

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2023), o Brasil registrou mais de 2.000 feminicídios nos últimos dois anos, além de uma escalada alarmante de violência contra pessoas LGBTQIAPN+. No campo da educação, estudos do coletivo Professores contra o Escola Sem Partido (PCESP) e da Frente Nacional Escola Sem Mordaça apontam para o aumento de iniciativas legislativas que tentam restringir o debate de gênero nas escolas, em desrespeito à Constituição Federal e a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), que reafirmam o direito à abordagem de gênero e sexualidade no ambiente escolar.       

Nesse contexto, o edital representa uma forma concreta de resistência, mobilizando saberes e experiências que unem a arte, a cultura popular e a pedagogia como caminhos para o enfrentamento das desigualdades. Serão especialmente valorizadas propostas que adotem uma abordagem interseccional, articulando gênero, raça, diversidade sexual e questões como saúde mental, racismo ambiental, intolerância religiosa, entre outros temas.

O que será selecionado?

Educadoras(es), coletivos, movimentos sociais, arte-educadoras, universidades e demais interessadas(os) poderão inscrever até duas propostas, que podem ser implementadas em escolas, creches ou outros espaços educativos. As propostas aprovadas integrarão um Banco Público de Planos de Aula (disponível no site www.generoeeducacao.org.br) e as dez mais criativas e engajadoras receberão declaração de reconhecimento público, certificado e um vale-livros no valor de até R$ 600 da Livraria Africanidades.

“A consistência, diversidade e criatividade das propostas pedagógicas que compõem nosso banco mostram o quanto nossas comunidades educativas estão comprometidas com a justiça social”, pontua Bárbara Lopes. “As políticas educacionais precisam estar à altura dessas comunidades, com medidas de proteção à liberdade de ensinar e de aprender e de valorização docente.”

Cultura como ferramenta de transformação social

O edital também visa estimular o uso pedagógico da cultura como ferramenta de transformação social, conforme reforça Bárbara: “O trabalho com obras culturais, quando feito com intencionalidade pedagógica, é muito poderoso para o aprendizado e para a transformação social. Esperamos que o edital inspire novas práticas e crie redes entre quem atua na ponta, de forma criativa e comprometida.”

Além do fortalecimento do campo educacional, o projeto se propõe a combater estereótipos e promover uma educação inclusiva, diversa e plural, em consonância com os marcos legais e os princípios constitucionais da liberdade de cátedra, da pluralidade pedagógica e da promoção dos direitos humanos.

ACESSE O DOCUMENTO DO EDITAL COMPLETO

Inscrições: Entre os dias 28 de abril e 13 de junho

Mais informações e inscrições: https://bit.ly/edital-igualdade-genero2025

Reconhecimento: 10 propostas com maior destaque receberão certificado, vale-livros e reconhecimento público


Sobre a Ação Educativa

Fundada em 1994, a Ação Educativa é uma associação civil sem fins lucrativos que atua nos campos da educação, da cultura, da juventude, da tecnologia e do meio ambiente na perspectiva dos direitos humanos.  

Para tanto, realiza atividades de formação e apoio a grupos de educadoras/es, jovens e agentes culturais. Integra campanhas e outras ações coletivas que visam à garantia desses direitos. Desenvolve pesquisas e metodologias participativas com foco na construção de políticas públicas sintonizadas com as necessidades e interesses da população. 

É sua missão a defesa de direitos educativos, culturais e das juventudes, tendo em vista a promoção da democracia, da justiça social e da sustentabilidade socioambiental no Brasil.

Conheça mais em: https://acaoeducativa.org.br/.

INFORMAÇÕES PARA A IMPRENSA – AGÊNCIA PAUTA SOCIAL

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Rafaela Eid (65) 99802-1610| rafaela@agenciapautasocial.com.br

Do esporte a ancestralidade: Banco de Planos ganha novas propostas focadas na igualdade de gênero nas escolas

Com a inclusão de novos planos e relatos, o Banco de Planos do site Gênero e Educação já conta com 190 propostas pedagógicas, fortalecendo o direito das comunidades escolares abordarem gênero e sexualidade.

Do esporte a ancestralidade: Banco de Planos ganha novas propostas focadas na igualdade de gênero nas escolas

O projeto Gênero e Educação da Ação Educativa atualizou seu banco de planos, disponibilizando novas propostas pedagógicas em seu site, e convida as comunidades escolares a conhecerem os trabalhos dos educadores selecionados.

Em 2023, o projeto Gênero e Educação lançou a terceira edição do edital, com o tema: “Enfrentando o sexismo, racismo e a LGBTQIAfobia na escola”. Naquele ano, como parte das ações do ciclo comemorativo promovido pela Ação Educativa, pelos 20 anos da alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional pela Lei 10.639, a edição teve como objetivo selecionar propostas que dialogassem com a interseccionalidade e o combate às desigualdades de gênero e raça em espaços educacionais.


Sobre o Edital Igualdade de Gênero

A primeira edição do edital aconteceu em 2020, convidando integrantes de comunidades escolares, movimentos sociais e organizações da sociedade civil a participar. O edital recebeu mais de 270 inscrições de diversas partes do país em sua estreia.

Em uma cerimônia de reconhecimento público, o ativista e educador paquistanês Ziauddin Yousafzai – pai da ganhadora do Prêmio Nobel da Paz Malala Yousafzai – participou do evento e parabenizou os participantes. Demonstrando-se inspirado pela iniciativa, afirmou que a igualdade de gênero é um elemento fundamental na educação de estudantes e que sua abordagem protege meninas da violência.

“Como para como pai e professor, quero dizer que a igualdade de gênero é o valor mais importante que precisamos transmitir aos nossos filhos por meio da educação. Costumo dizer que, qualquer sistema educacional que não transmita o valor da igualdade aos nossos filhos, significa que há algo de errado com a qualidade da educação” afirmou o educador.


Novas propostas no Banco de Planos

Após análise da equipe do projeto, novas propostas foram recentemente adicionadas ao Banco de Planos Igualdade de Gênero, disponível gratuitamente no site. As iniciativas incluem desde planos de aula até relatos de experiências, abordando diferentes perspectivas e contextos educacionais.

Do esporte à ancestralidade, em diferentes espaços e contextos, os temas das propostas estabelecem a dimensão de gênero como um campo frutífero para o diálogo, a troca de experiências e a construção de relações e afetos.

As propostas abordam desafios como as desigualdades de gênero e raça na tecnologia e no futebol, além de incentivarem e apresentarem caminhos para discutir temas como racismo e ancestralidade não somente nas disciplinas de humanas, mas também nas aulas de biologia.

Título da propostaAutoria
Trabalhar em redes e teias: Coletivo ERER+T. Angel
Desconstruindo estereótipos: Diálogos sobre igualdade de gênero na escolaJaqueline Batista Cordeiro e Henrique Fernando Peres
Ancestralidade para além dos genesRavenna Horana Alves da Silva
Girls Evolution: Promoção da cultura esportiva feminina negraMarielson Nascimento Alves
Mulheres nas áreas de Ciências e TecnologiaJanaina Martins de oliveira
Galinha Pintadinha e os estigmas sociais: Uma reflexão críticaCarla Santos Pinheiro
Mas só tem curso de menino? Promovendo reflexões de gênero em aulas de inglêsLeonardo da Silva

Vem aí o Edital Igualdade de Gênero 2025

Em abril, a Ação Educativa lançará publicamente a quarta edição do Edital Igualdade de Gênero na Educação Básica, convidando comunidades escolares, estudantes, profissionais da educação, pesquisadores, arte-educadores, movimentos sociais, coletivos juvenis, artísticos e literários, além de organizações da sociedade civil, a inscreverem suas propostas. Mais informações estão disponíveis no site generoeeducacao.org.br.

Dúvidas e informações:
generoeeducacao@acaoeducativa.org.br

Os impactos do ajuste fiscal na Educação

Congresso aprovou proposta do governo federal autorizando que recursos possam ser retirados do Fundeb

Os impactos do ajuste fiscal na Educação

Às vésperas do recesso parlamentar de 2024, o Governo Federal conseguiu aprovar a PEC do Ajuste Fiscal (54/2024), que estabelece limites de gastos para o governo nos próximos anos. O texto aprovado afeta significativamente a Educação – e poderia afetar ainda mais, não fossem os protestos durante a tramitação da PEC. A principal alteração tem a ver com a destinação dos recursos do Fundo de Manutenção da Educação Básica (Fundeb), que agora poderá destinar parte de seus recursos exclusivamente para a Educação Integral. 

O que é o Fundeb

O Fundeb é o principal mecanismo de financiamento da educação básica pública brasileira, e é uma contribuição obrigatória de municípios, estados e União. Sua versão atual foi aprovada e constitucionalizada em 2020, após cinco anos de tramitação e debate. 

O Fundo custeia principalmente o pagamento das profissionais do setor e a infraestrutura das escolas e demais recursos que assegurem a qualidade da educação. A grande alteração aprovada em 2020 foi o aumento gradual da complementação da União. Isto é, do repasse de recursos do Governo Federal para os estados e municípios, que possuem menor capacidade de arrecadação de impostos. A estimativa é que em 2025 essa complementação seja de cerca de 56 bilhões de reais. 

Com mais recursos (ou “maior complementação”) da União, aumentou-se o montante a ser investido na educação básica, bem como seu potencial de corrigir desigualdades. Isso porque o ente com mais recursos (a União) passa a contribuir mais do que os que têm menos (estados e municípios), com base em diferentes mecanismos para essa complementação, inclusive um que considera as desigualdades educacionais, o VAAR. 

O que mudou? 

No fim de 2024, o governo federal apresentou ao Congresso uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para contenção de gastos obrigatórios, conhecida como a PEC do Ajuste Fiscal. Essa PEC faz parte das medidas de austeridade fiscal da gestão, que incluem o Arcabouço Fiscal. Aprovada em 2024, as alterações já estão em vigor. 

A Educação foi incluída nesse pacote com a flexibilização no uso de recursos do Fundeb: em 2025, até 10% da complementação da União poderá ser usada para o fomento à manutenção de matrículas em tempo integral. Isso significa que o governo federal vai poder usar recursos do Fundeb, que é uma despesa obrigatória em Manutenção e Desenvolvimento do Ensino (MDE), para investir em educação integral – ao invés de prever recursos específicos para um programa próprio da modalidade. A proposta original apresentada pelo governo propunha o dobro: que até 20% dos recursos da complementação pudessem ser destinados para a Educação Integral, uma economia que o governo estimou em quase 5 bilhões de reais

A vice-presidenta da Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca), Nalu Farenzena, explica que o valor que a União vai acrescentar ao Fundeb não muda, mas sim as regras de como ele pode ser utilizado. “O valor da complementação não diminui, mas é como se fosse criado mais um mecanismo, uma modalidade de complementação, além das que já temos (VAAF, VAAT e VAAR). É uma autorização para usar o dinheiro de outra maneira, e nesse sentido altera as regras do Fundeb”, explica. 

A versão aprovada também amenizou a flexibilização ao determinar que o limite de 10% vale internamente para cada mecanismo de complementação. Ou seja: não é possível tirar de um único mecanismo (dos 3 existentes) todo o valor que se deseja remanejar para a educação integral. Seria uma forma de assegurar que nenhum dos três critérios possa ser particularmente desidratado. 

A proposta do Executivo foi alvo de severas críticas de várias vozes e entidades da Educação, como a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e a Fineduca, que divulgaram notas contrárias à proposta do Executivo. 

A Campanha chamou o texto aprovado de “vitória parcial” por conseguir reduzir a flexibilização de 20 para 10% da complementação da União – e por conseguir conter uma outra emenda surgida durante a tramitação: a permissão de estados e municípios usarem recursos do Fundeb para alimentação escolar, o que não está previsto nas regras do fundo. “A importante vitória impediu um precedente terrível de colocar o Pnae para disputar recursos da Educação”, diz a nota da entidade, que afirma que a mudança aprovada já é suficiente para enfraquecer a capacidade do Fundeb de reduzir desigualdades. 

O que essa mudança significa? 

Com as alterações sofridas na tramitação, a nova regra não vai economizar tanto como o Executivo pretendia inicialmente, mas ainda terá impactos no financiamento da educação básica. Nalu Farenzena, vice-presidenta da Fineduca, explica que, na prática, um recurso da casa de 6 bilhões de reais será retirado da Educação. “A decisão foi manter o programa de escola em tempo integral, mas deixando de alocar recursos específicos e sim usando o do Fundeb, o que é criar uma quarta modalidade de complementação cujos critérios não foram acordados nos 5 anos em que a proposta do Fundeb foi debatida no Congresso”. 

A preocupação em relação à nova regra é potencializada porque o novo Fundeb ainda está em fase de implementação. Segundo o que foi aprovado em 2020, o aumento da complementação de recursos da União cresceria gradualmente até 2026, quando chegaria a 23%. Ou seja: as regras já foram alteradas antes mesmo do Fundo estar plenamente implementado. “Nós batalhamos muito pelo aumento da contribuição do governo federal para estados e municípios, por mais recursos e não por menos. E aí essa medida anularia praticamente todo o percentual conquistado na aprovação do Fundeb”, critica Cleo Manhas, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), que enfatiza a gravidade da proposta original de flexibilizar até 20% da complementação. Ela destaca que mesmo com o aumento gradual de recursos, o Fundeb vem operando num limite em relação ao montante necessário para a educação de qualidade, o que seria “apostar na precarização”. 

O Professor de Direito e Políticas Educacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Salomão Ximenes, na época da apresentação da proposta ao Congresso, enfatizou que “por mais meritório que possa ser o dito programa [de Educação Integral], não elimina o fato de que estarão desviando 20% [depois 10%] do Fundeb em plena etapa de consolidação, (…) sem avaliação de resultados e de impacto, sem dialogar com Estados e Municípios que sairão prejudicados e impondo um improvável retrocesso no financiamento da educação pública em relação ao conquistado durante o governo Bolsonaro”, disse. 

Como a fala de Salomão indica – e movimentos sociais e entidades da Educação concordam -, o problema não é assegurar recursos para a educação integral e sim a manobra para que isso seja feito via Fundeb e não com programas próprios para este fim. A nota técnica da Fineduca lembra que o Fundeb já tem mecanismos que valorizam a educação integral, como os fatores de ponderação, que ainda poderiam ser aprimorados se fosse esse o objetivo. A assessora política do INESC, Cleo Manhas, reforça ainda que mesmo o ganho para educação integral é extremamente limitado se o resto da educação básica continua subfinanciada. “Não adianta dar uma poupança para estudantes [com o programa Pé de Meia] e não melhorar a escola que estão obrigados a estudar e que continua sem condições, com docentes em contratos temporários. Não adianta dizer que vai cumprir a educação em tempo integral dessa maneira tão precarizada. Educação em tempo integral exige escolas com muito mais infraestrutura, não é apenas colocar uma placa, é preciso ter uma escola atraente, com várias atividades, e não é isso que vemos”. 

Cleo critica ainda a falta de estudos sobre os impactos de uma alteração desse porte: “Como estados e municípios vão fazer uma política de educação em tempo integral se não foi feito nenhum estudo de impacto? A proposição não veio acompanhada dos cálculos, da descrição dos objetivos e indicadores afetados, por exemplo, bem como de medidas de compensação para esse corte”. Por isso, entidades como a Fineduca têm afirmado que as novas regras do Fundeb alteram o papel do fundo de combater as desigualdades educacionais. Em nota, a Associação afirma que “o MEC contribui com o corte de gastos demandado pelo mercado financeiro, a pretexto da estabilidade fiscal do país, mas às custas da redução do potencial equalizador do Fundeb”. 

Na mesma linha, a CNTE destacou que o texto aprovado pode comprometer a manutenção e investimentos das políticas em andamento, especialmente o pagamento da folha de pessoal da educação na esfera municipal – cerca de 70% do montante do Fundeb é destinado à valorização de profissionais da Educação. Já a Undime ressaltou que a alteração pode reduzir a autonomia dos entes federados, uma vez que parte da complementação poderá ficar “carimbada” para um uso específico, e que essa imposição desconsidera as especificidades dos municípios. 

Por fim, há ainda dois pontos que preocupam sobre os impactos do ajuste fiscal na Educação: que a nova regra possa de alguma maneira descaracterizar o Fundeb; e a falta de tempo e diálogo com a sociedade em sua proposição. Para Nalu Farenzena, vice-presidenta da Fineduca, a nova redação do Fundeb pode descaracterizar os critérios de redistribuição do Fundeb, pactuados ao longo de anos de debate público. “A questão que se coloca aqui é o precedente que foi aberto, da exigência de que os recursos do Fundeb devam ser direcionados para isto ou aquilo. Durante o processo de tramitação de 2015 a 2020, uma das emendas aprovadas dizia que uma parte dos recursos deve ser aplicada na educação infantil – o que foi, portanto, uma prioridade amplamente discutida. Fora a grande prioridade do Fundeb, que é aplicar 70% dos recursos em remuneração de profissionais. Então colocar agora mais uma prioridade e sem discussão é uma interferência, inclusive sobre a autonomia dos entes federativos, e um precedente”, alerta Nalu. “A sociedade brasileira não teve a oportunidade de discutir essa prioridade nem em que termos ela se daria”. 

Nalu reconhece vários movimentos positivos no financiamento educacional desde o início da atual gestão de Lula, mas pondera suas limitações frente a um cenário mais generalizado de austeridade fiscal com fortes impactos em áreas sociais. “O Brasil não está aproveitando a oportunidade de levar adiante a discussão da implementação do Custo Aluno-Qualidade de educação básica. Isto é, de passarmos a realizar o planejamento da área da educação pensando nos recursos que são necessários para assegurar educação de qualidade, o que levaria inclusive ao cumprimento das metas do Plano Nacional de Educação. Como realizar todas as metas se não aumentamos o nível do recurso?”, questiona. 

A assessora política do INESC, Cleo Manhas, também é enfática sobre os efeitos das políticas de austeridade na educação e no enfrentamento de desigualdades: “Saúde e educação têm grandes orçamentos, mas dado o tamanho do público-alvo é fácil de ver que é um orçamento muito incipiente. E dessa forma podemos chegar em um ponto inviável para políticas sociais, especialmente porque temos ainda um passivo a ser resolvido que vem desde a pandemia. O arcabouço fiscal está caminhando para uma política recessiva tanto quanto o Teto de Gastos, e com o agravante de que um governo de centro-esquerda é muito mais cobrado do que governos de direita”, pondera. “ O Ministério da Fazenda devia ser um Ministério “meio” e não um Ministério “fim”, mas a economia virou um fim. Estamos reféns desse discurso econômico”. 

Na América Latina, ofensivas antigênero também miram as escolas: educação sexual é um dos principais alvos

Educação é área central nas ofensivas contra gênero, sexualidade e democracia

Na América Latina, ofensivas antigênero também miram as escolas: educação sexual é um dos principais alvos

A tramitação do atual Plano Nacional de Educação (PNE), em 2013, inaugurou uma nova fase nas ofensivas antigênero no Brasil. As forças ultraconservadoras conseguiram com que todas as menções ao gênero fossem suprimidas do texto que norteia as políticas educacionais do país, o que fez aumentar a censura e perseguição nas escolas, só revertidas com muita mobilização. Mas ofensivas como essa não se deram apenas no Brasil. Ao contrário, fazem parte de um contexto mais amplo de ataques que continuam em curso na América Latina. 

Essas investidas assumem diferentes formas e estão conectadas com ataques à democracia e à educação de forma mais ampla. Em países como Nicarágua e Venezuela, que vivem um cenário generalizado de enfraquecimento democrático, os desmontes na educação vão além do gênero. A Argentina também caminha rapidamente para essa direção, com ataques ferozes em políticas já consolidadas. Esse país, assim como o Chile, é um bom exemplo de como as políticas antigênero estão também relacionadas a um pensamento neoliberal, que tem como horizonte a redução do Estado na educação. 

“Os países onde percebemos maiores problemas de liberdade acadêmica são aqueles onde há maior erosão democrática. Essa correlação é possível, o que não quer dizer que o problema não exista nos demais países”, resume Camila Croso, diretora da Coalizão pela Liberdade Acadêmica nas Américas (CAFA, na sigla em inglês). A CAFA documentou 409 ataques a estudantes, docentes ou instituições de ensino em 66 países entre 2022 e 2023. Na América Latina, os destaques negativos são Nicarágua e Venezuela, cujos regimes vêm reduzindo os espaços cívicos, chegando a fechar universidades. “São países onde de fato há um sequestro, uma perda total da autonomia em todas as suas dimensões – financeira, administrativa e pedagógica”, explica Camila.

Em relação a gênero, a diretora da CAFA pontua que os ataques vêm tanto via censura temática (interdição ou sanções por falar do assunto) como via assédio, inclusive sexual, e têm profundos impactos para as denunciantes. “Se as mulheres se posicionam, se mobilizam para defender as vítimas ou se são elas mesmas vítimas, são revitimizadas. E passam a sofrer uma perseguição tão grande que impacta a liberdade acadêmica, pois passam a ser marginalizadas naquele ambiente”, descreve a diretora, enfatizando que esses casos independem do estado geral da democracia. “Isso é o patriarcado instalado em qualquer sistema, sistemas democráticos ou não democráticos”. 

A Argentina tem dado exemplos de ataques e desmontes no campo educacional que também afetam questões de gênero. No último mês, o presidente Javier Milei conseguiu vetar o reajuste no orçamento das universidades públicas, mesmo com protestos massivos nas ruas. Além disso, políticas consolidadas, como a lei de educação sexual integral de 2006, estão sob ataque. “O momento da Argentina lembra muito a era Bolsonaro no Brasil: desfinanciamento radical, desmonte absoluto da educação, da ciência, da pesquisa. Agora não há mais Ministério da Educação e sim Ministério do Capital Humano, o que já diz tudo. É um desmonte do sistema educacional”, alerta Camila Croso.

Essa também é a opinião de Graciela Morgade, doutora em Educação e especialista em educação sexual. Mas as medidas do presidente contra o gênero são igualmente graves. “Na Argentina, as ofensivas antigênero também abarcam o campo da educação, mas não de uma maneira tão visível – como foi, por exemplo, o fim do Ministério das Mulheres. É menos visível porque o tema central [da educação] no debate público é o financiamento, mas o programa de Educação Sexual Integral (ESI) também está sendo atacado”, diz Graciela.

Na Argentina, a lei de educação sexual integral (ESI) é de 2006, sendo desde então obrigatório que o sistema educacional oferte esses conhecimentos a educandas e educandos. Segundo Graciela, da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires (UBA), a ESI, embora seja uma política consolidada, sempre teve problemas de implementação. Mas agora sofre uma ameaça de outra natureza. Os novos responsáveis pela área no governo são pessoas ligadas a setores religiosos ultraconservadores, que agora agem para descaracterizar essa lei de referência regional. Em outubro, por exemplo, o Ministério do Capital Humano contratou uma ONG chilena que promove a abstinência sexual como método contraceptivo para dar uma oficina a docentes, gestores e profissionais da educação que implementam a ESI em Buenos Aires. A oficina foi dada na sede da Secretaria (ex Ministério) de Educação. 

“Também está se adotando um discurso muito perigoso de que a educação sexual deve deixar de ser integral para focar somente na prevenção de gravidez e das ISTs e, por outro lado, um discurso relacionado a emoções, no sentido de controlar, esconder e reprimir ‘emoções negativas’”, complementa a professora da UBA. Mas movimentos de defesa da lei e da educação sexual integral seguem ativos e vigilantes para frear os retrocessos, como o Movimiento Federal X Más ESI, um coletivo que enxerga a ESI como um “projeto de justiça e de igualdade para a melhora da qualidade de vida de todas as pessoas”. “Estamos conectados em todo o país e temos o firme propósito de resistir e promover a formação em ESI nas universidades, sindicatos, etc. Vamos multiplicar a resistência”, diz Graciela. 

Educação: alvo prioritário, mas parte de contexto antigênero mais amplo

É consenso entre pesquisadoras e pesquisadores do tema que os ataques às pautas de gênero, sexualidade e diversidade sexual na América Latina podem não se limitar à educação, mas têm nela uma prioridade. Alguns dos maiores e mais influentes movimentos da região nos últimos anos tinham esse foco, como o Escola Sem Partido, no Brasil, e o Con Mis Hijos No Te Metas (Não mexa com meus filhos), que começou no Peru mas atua em vários países. E esses movimentos obtiveram várias vitórias. Por exemplo, em 2017 o Ministério da Educação do Paraguai aprovou uma resolução proibindo materiais que debatessem gênero na escola, acionando a ameaça da “ideologia de gênero”. Um ano depois, inaugurou-se uma campanha com o mesmo objetivo na Argentina, logo após o Congresso do país discutir mudanças na lei do aborto.

Para saber mais sobre políticas antigênero na América Latina, conheça o projeto Gênero e política na América Latina.

Para saber mais sobre os casos de Peru e Paraguai, acesse o estudo “Efeito das ações e estratégias antigênero no Paraguai e no Peru” (em espanhol).

Esses ataques vão além de seus contextos nacionais, já que as principais vozes por trás de ofensivas contra o gênero e a diversidade sexual estão em constante diálogo e articulação. Isso quando não se tratam dos mesmos atores – caso, por exemplo, de setores religiosos ultraconservadores católicos e/ou evangélicos, relevantes em vários países. As pesquisadoras Juliana Martínez, Gabriela Ardila Biela e Valentina Gómez recentemente publicaram uma investigação mostrando como os grupos “restritivos de gênero” baseados na fé estão utilizando a infância e o discurso da proteção infantil para gerar pânico moral e mobilizá-lo contra os direitos humanos, especialmente os relacionados à justiça de gênero. Elas alertam também que, ao mobilizarem principalmente o setor educacional e utilizando uma linguagem de direitos humanos, essas ofensivas se expandem para públicos não religiosos. A educação sexual integral (ESI), por exemplo, é apresentada como uma “ameaça para a integridade e bem estar das famílias, da infância e da adolescência”. 

No Peru, o movimento Con Mis Hijos no Te Metas surgiu depois da aprovação de um currículo de ESI com perspectiva de gênero e de direitos humanos. Ao longo dos anos, embora tenha perdido várias batalhas legais para impedir a implementação desse currículo, o movimento conseguiu preparar terreno para que o gênero fosse visto como ameaça. “[Esses grupos] ganharam um amplo terreno cultural que alcançou objetivos importantes: promoveu a ideia de uma ameaça do currículo à autoridade dos pais, posicionou o debate como uma questão entre pessoas preocupadas com as crianças e com um Estado excessivo, o que ajudou a ampliar a base de apoio para pessoas que não são necessariamente religiosas. (…) O triunfo mais importante foi a instalação no imaginário público da palavra ‘gênero’ como um termo perigoso que, em vez de buscar a equidade, traz consigo riscos para as crianças e para a sociedade em geral”, diz o artigo. Na visão das pesquisadoras, esse ganho no imaginário público foi fundamental para que o Peru não tenha, hoje, aprovado leis como as do casamento igualitário ou de adoção por casais homossexuais. 

Ataques à educação sexual

São vários os países na América Latina onde há ou houve ataques às políticas de educação sexual. Além dos já mencionados Peru e Argentina, o Ministério da Educação do Paraguai publicou, em 2017, a Resolução 29.664, que proíbe materiais que difundam a “ideologia de gênero” nas escolas e compromete-se a revisar os materiais existentes. 

Em 2024, uma nova resolução nesse país sobre o tema está chocando o mundo por sua abordagem a gênero, sexualidade e direitos humanos. Em setembro de 2024, o Ministério da Educação lançou um currículo de educação sexual a ser implementado nas escolas. Intitulado “12 Ciências da Educação em Sexualidade e Afetividade”, o documento, entre outras coisas: defende a abstinência sexual, não faz nenhuma menção à comunidade LGBTQIA+ e à identidade de gênero, defende ideias como as de que a masturbação leva à frustração e isolamento e que camisinhas não são confiáveis, além de perpetuar estereótipos de gênero, dizendo que o cérebro de meninas e meninos é diferente. Isso em um país que registra, há anos, algumas das maiores taxas de gravidez na adolescência da América do Sul. 

Mas, como alerta a advogada e feminista Mirta Moragas, este novo currículo é só a ponta do iceberg de um longo processo de ataques ao gênero no Paraguai. Em 2017, a paradigmática Resolução 29.664 foi aprovada num contexto pré-eleitoral. “É interessante que ela proíbe materiais, mas sem dizer quais são e sem revisá-los. Na época, fiz uma solicitação de acesso a informações públicas para ter essas respostas e a conclusão é que não modificaram de fato nenhum material”, comenta Mirta, enfatizando o caráter ideológico e eleitoreiro desse documento, que ainda segue em vigor no Paraguai apesar de inúmeras recomendações de órgãos internacionais pela sua revogação. “Tudo isso faz parte da manipulação das questões de gênero pela facção majoritária do grupo que está no poder há décadas no Paraguai”, acrescenta. 

A resolução de 2017 “apenas” proibia a temática na escola, sem propor nada novo. Como o Paraguai não tinha e continuou a não ter um currículo ou política de educação sexual, isso gerou um certo limbo legal que permitia que organizações comprometidas com os direitos humanos e com a igualdade de gênero atuassem nas escolas. É nesse contexto que se insere o material aprovado em 2024, também na forma de resolução do Ministério da Educação, para tapar essa lacuna. “O que eles estão fazendo é promover uma alternativa à educação sexual abrangente. A partir dessa resolução conseguem proibir qualquer intervenção de organizações da sociedade civil que trabalhem com foco nos direitos. É uma ferramenta que vai se aperfeiçoando na repressão”, avalia Mirta Moragas, advogada especializada em gênero e direitos humanos. 

Mirta enfatiza que a resolução não é de fato implementada, mas isso não significa que não tenha tido efeitos concretos. “O principal problema dessa resolução é que ela criou um efeito paralisante nos professores. Não importa que nenhum material foi modificado, o que o corpo docente entendeu é que não pode falar de gênero”, diz. “O que me preocupa, além do efeito de censura e perseguição gerado, é que na prática os jovens seguem sem nenhuma informação”. E, segundo a advogada, não há perspectiva de mudança a curto prazo. 

“Igualmente preocupante é que há uma cooptação total de todo o Estado por parte de uma facção do partido do governo, que é uma facção muito antigênero. E essas agendas estão sendo manipuladas para os interesses dos grupos políticos de plantão, ficando muito difícil ter uma conversa séria”, lamenta. 

Famílias, liberdade: ataques ao gênero por uma perspectiva neoliberal

Em outro país da região, no Chile, também há entraves para a implementação de uma política de educação sexual integral baseada em evidências e com perspectiva de direitos humanos. Lá, os medos acionados para vetar essa política em nível nacional estão relacionados a valores neoliberais entranhados na Constituição de 1980: a “liberdade” individual e das famílias decidirem sobre a educação de seus filhos. 

Como descreve a pesquisadora Maria Teresa Rojas em uma investigação recente sobre a emergência dos atores antigênero no debate público da educação chilena, a Carta Magna do país dá o respaldo legal ao conceito neoliberal de “liberdade”. “Em virtude da proteção Constitucional que sustenta a liberdade de ensino, os grupos antigênero empreendem ações de intervenção no sistema escolar, criam redes de associações e defendem a objeção de consciência como parte do direito das famílias a se oporem às políticas educativas”, diz. Teresa, que é doutora em Educação e acadêmica da Universidade Alberto Hurtado, chama a atenção que a Constituição chilena – elaborada durante a ditadura de Augusto Pinochet – protege o direito da família a decidir [sobre a educação], e não o direito da criança a uma boa educação.

No país andino, as escolas estão organizadas dentro de um princípio amplo de liberdade de educação. O sistema educacional compreende tanto escolas públicas como privadas, inclusive religiosas – setor que tem sido protagonista nas recentes investidas conservadoras na educação chilena. A privatização do ensino também é crucial para entender as ofensivas, pois muitas das escolas subvencionadas ou que recebem vouchers do Estado – e que acabaram se consolidando como atores relevantes no debate – são as que se opõem às agendas de gênero e educação sexual. 

A educação, no Chile, tornou-se um campo de batalha ideológica em relação às questões de gênero e sexualidade já nos anos 1990, mas, como no Brasil, essas batalhas se acirraram na última década. Desde 2021, o Chile chegou a votar duas propostas de textos para uma nova Constituição – sendo que a primeira estabelecia que a educação incorporasse permanentemente a perspectiva de gênero e que a população tivesse acesso à educação sexual -, mas ambas foram rejeitadas pela população em plebiscito.

Teresa avalia que no Chile o que se vê é uma mistura entre neoliberalismo econômico e conservadorismo moral de origem religiosa, muito bem sucedida em penetrar no imaginário a ponto de ser entendida como um traço cultural do país, ainda que a sociedade chilena esteja menos religiosa nos últimos anos. “Esse grupo religioso, organizado em rede e politicamente, tornou-se visível para a sociedade chilena em 2017, antes disso parecia algo anedótico e marginal”, avalia. Teresa se refere a um período em que circulou no país um ônibus laranja de uma organização ultraconservadora espanhola, que usava a hashtag #ConMisHijosNoTeMetas – movimento que hoje tem grande influência na política do país. À época, o Chile discutia a reforma em sua lei do aborto e uma nova lei sobre identidade de gênero. Desde então, esses atores ganharam mais espaço na política do país. Tanto é que, para Teresa, o Chile vive o ressurgimento de um discurso conservador sobre a educação, liderado por atores conservadores de extrema-direita e grupos evangélicos que criticam o avanço do debate sobre gênero, sexualidade e diversidade nas escolas.

Essas investidas contra o gênero e a educação sexual se operacionalizam basicamente pela defesa radical do direito das famílias decidirem o tipo de educação sexual que seus filhos vão receber, pela oposição entre Estado e família e por deixar em segundo plano discussões como a de violência de gênero. E são enquadradas em uma linguagem de direitos (“direito a decidir”, “liberdade”, etc), o que aumenta seu alcance. “Por exemplo, não é que não exista homofobia, mas não acho que a sociedade chilena seja contra os homossexuais na escola. O que é muito bem sucedido é mobilizar o discurso para que seja sobre como o Estado não tem direito de fazer com seus filhos algo que você não pode controlar”, avalia Teresa Rojas. “Isso tem muita adesão no Chile”.

Resistências múltiplas: estudantes, feministas, juventudes 

Nenhuma dessas ofensivas, no entanto, se dá sem resistências. No Chile, Argentina,  Paraguai ou qualquer outro país da região, os grupos que atuam por uma educação que aprofunda desigualdades também acumulam muitas derrotas. Não fossem grupos feministas, de estudantes, coletivos juvenis ou de profissionais da educação, o cenário seria muito pior. “A mobilização dos estudantes é de tirar o chapéu, inclusive na defesa das professoras perseguidas”, ressalta a diretora da CAFA, Camila Croso. 

Além disso, observatórios e grupos como a Articulação Contra o Conservadorismo na Educação, no Brasil, que conseguiu várias vitórias via Judiciário, seguem vigilantes. Assim como os movimentos feministas, que vão às ruas, denunciam violações e promovem políticas inclusivas em seus contextos. “No Chile, há vários coletivos de professoras feministas que se organizaram em redes e que têm um certo ativismo pedagógico, liderando a conversa sobre educação sexual abrangente. Também há diretoras e professoras feministas muito preocupadas com essas questões nas escolas buscando recursos, convidando para palestras, denunciando”, elenca Teresa Rojas. Além desses movimentos de base, ela destaca lideranças políticas locais progressistas como atores-chave na resistência. “É muito importante quando o município é progressista e há uma administração aberta, que se interessa por essas questões e constrói uma agenda crítica que denuncia os movimentos antigênero”, acrescenta. A pesquisadora também reforça o papel dos estudantes no contexto chileno, enfatizando que pautas de gênero e sexualidade são demandadas pelos próprios jovens. 

Essa é uma conclusão similar às que chegaram as pesquisadoras Juliana Martínez, Gabriela Ardila Biela e Valentina Gómez ao analisar pesquisas no contexto colombiano – e que conversam com dados obtidos no Brasil. Também os pais, mães e responsáveis pelos jovens em idade escolar têm atitudes positivas em relação à educação sexual – desde que não estejam imersos em um contexto de pânicos morais. Ou seja, sem “estímulos” negativos e desinformação. “Esses dados apontam para a importância de continuar mobilizando recursos e estratégias de comunicação não reativas e a longo prazo”, concluem. 

O caso paraguaio também mostra a importância da conjuntura e das alianças estratégicas. Como explicou a advogada feminista Mirta Moragas, o novo currículo em educação sexual aprovado no país é tão absurdo e evidentemente prejudicial que vem aglutinando diferentes setores para questioná-lo e ao governo. Inclusive porque os mesmos grupos que o aprovaram caminham para aprovar medidas que restringem o espaço cívico – por exemplo, criminalizando organizações da sociedade civil. “A vergonha internacional foi e está sendo muito importante. E agora há organizações de direitos humanos, feministas, mas também organizações ambientalistas, de direitos indígenas. Porque o Paraguai está discutindo uma lei anti-ONGs cuja argumentação é sustentada por um discurso antigênero. Agora outros campos começam a perceber que o discurso antigênero não é somente contra as feministas ou o movimento LGBT. Isso é positivo porque tem ajudado a unir um pouco mais a sociedade civil e a construir solidariedade entre os movimentos”, finaliza.


Nana Soares é jornalista pela ECA-USP e mestre em Gênero e Desenvolvimento pelo Instituto de Estudos do Desenvolvimento (IDS – University of Sussex), na Inglaterra

Sociedade civil promove seminário sobre pesquisa que aborda gênero nas políticas educacionais

A pesquisa propõe recomendações para a igualdade de gênero nas políticas educacionais do Brasil. Seminário dos resultados preliminares acontece em novembro.

Questões relacionadas a gênero tem estado no centro das atenções da sociedade nos últimos anos: por um lado, com o crescimento e visibilidade de ativismos feministas e LGBTQIA+, em particular de pessoas trans; por outro lado, com a disseminação do pânico moral e da censura por grupos ultraconservadores. Como esse contexto tem afetado a educação e como as políticas educacionais podem contribuir para a promoção da igualdade de gênero, raça e sexualidade?

Buscando contribuir com esse debate, A Ação Educativa, Geledés – Instituto da Mulher Negra, Fundação Carlos Chagas, Faculdade de Educação da USP (FEUSP) e Professores contra o Escola Sem Partido desenvolveram coletivamente uma pesquisa sobre gênero nas políticas educacionais. Os resultados preliminares serão apresentados em seminário público no Centro MariAntonia da Universidade de São Paulo, no dia 11 de novembro. O estudo conta com apoio do Fundo Malala.

A pesquisa inclui um balanço de produções teóricas acadêmicas e da sociedade civil, um mapeamento de iniciativas legislativas e uma análise de dados quantitativos sobre as desigualdades que atingem o campo da educação. A partir disso, a pesquisa irá construir recomendações para a promoção da igualdade de gênero e raça nas políticas educacionais e no debate com a sociedade civil.

O seminário tem por objetivo apresentar resultados preliminares desses levantamentos, ampliando as análises a partir do debate com educadoras/es, pesquisadoras/es, estudantes e demais interessados. Além disso, o encontro busca promover reflexões sobre os desafios e possibilidades para políticas educacionais comprometidas com a promoção da igualdade de gênero, raça e sexualidade.

Desafios e a descontinuidade de políticas para a igualdade de gênero

As entidades observaram que o Brasil nunca teve um programa integral de promoção da igualdade de gênero e sexualidade nas políticas educacionais, apesar de todos os avanços conquistados pela luta dos movimento negro, feminista e LGBTQIA+. 

Historicamente, a agenda enfrenta uma grande oposição de setores religiosos e conservadores, e adesão tímida de atores políticos do campo progressista. Segundo a coordenadora do projeto Gênero e Educação, da Ação Educativa, Bárbara Lopes, um dos efeitos mais nefastos da perseguição às agendas de gênero é a disseminação da autocensura entre profissionais da educação. “A estridência dos grupos ultraconservadores cria uma percepção de que a população é muito refratária a pautas de gênero. Mas há pesquisas anteriores, realizadas pela Ação Educativa e Cenpec, que mostraram um grande apoio ao papel da escola na promoção da igualdade”, afirmou.

Analisando o fenômeno da censura, Renata Aquino, do coletivo Professores Contra o Escola Sem Partido, reflete que é preciso fortalecer a resistência frente às novas dinâmicas da extrema-direita e do campo conservador. “O tipo de censura que nós, enquanto sociedade civil, começamos a enfrentar em 2014 e 2015, na tramitação do Plano Nacional de Educação, com o ápice dos projetos Escola Sem Partido, mudou de forma. Além de terem surgido outras estratégias no campo legislativo, a censura se capilarizou no chão da escola e, inclusive, em vezes no ensino superior. Então, a resistência precisa continuar”, diz a pesquisadora.

Além disso, os dados buscam reunir evidências para o encerramento de projetos e programas governamentais antigênero, para o combate dos seus impactos no enfrentamento do racismo e para a elaboração e implementação de normativas voltadas para a promoção da igualdade de gênero nas políticas educacionais. Para Suelaine Carneiro, coordenadora do programa de educação do Geledés – Instituto da Mulher Negra, a construção de um diagnóstico, visando a equidade de gênero e raça como forma de enfrentamento das desigualdades educacionais, é um passo fundamental para se pensar a qualidade na educação. 

A pesquisadora reflete sobre o descompromisso com a implementação do ensino da história e cultura afro-brasileira, somado à descontinuidade de processos focados na educação em gênero e à desvalorização docente. Além disso, Suelaine aponta a necessidade da reconstrução da concepção de cidadania e igualdade no espaço escolar e do combate às situações de vigilância e ataques à educação.

“Nós estamos vivendo um momento em que temos que reconstruir a concepção de educação como um dever do Estado, frente aos seis anos de desmonte que ainda impacta todo o sistema educacional brasileiro. É preciso olhar para os impactos da pandemia e para os desafios presentes no cotidiano escolar. A partir do momento em que as desigualdades educacionais são construídas a partir da diminuição do Estado e sua desobrigação, o diagnóstico se faz importante, pois expõe exatamente a violação do direito à educação e o quanto gênero e raça são fundamentais para construir uma educação emancipatória” afirma Carneiro.

Seminário recebe inscrições até o dia 10 de novembro

O seminário acontecerá em parceria com o Centro MariAntonia da USP no dia 11 de novembro, das 9h às 18h e apresentará os resultados preliminares da pesquisa. O evento contará com mesas e painéis de discussão sobre o fenômeno ultraconservador na educação com diferentes especialistas. Pesquisadores, educadores, estudantes, movimentos sociais e organizações da sociedade civil podem se inscrever via formulário (acesse aqui) para participar até um dia antes do evento (10/10). O seminário conta com certificado de participação.

Confira a programação

9h – Boas vindas e apresentação

9h30 – Mesa 1: Ultraconservadorismo: velhas e novas arenas de luta

A partir de diferentes perspectivas, o diálogo busca ampliar a leitura de contexto de ataques ao gênero, situando o fenômeno ultraconservador em sua ofensiva nas políticas educacionais. 

  • Raça e gênero: compreendendo o fenômeno ultraconservador na educação – Suelaine Carneiro (Geledés – Instituto da Mulher Negra)
  • Ataques legislativos – Renata Aquino (Professores Contra o Escola Sem Partido)
  • Produção acadêmica e da sociedade civil – Thais Gava (Fundação Carlos Chagas)

12h30 -Almoço
Participantes do evento podem sair para almoçar e retornar.

14h30 – Mesa 2: Desafios de gênero na educação

  • Desigualdade entre as mulheres: Gênero, raça e interseccionalidade – Bárbara Araújo (CAp-UERJ)
  • Identidade de gênero – Dayanna Louise (ANTRA)
  • Masculinidades – Alexandre Bortolini (ABETH)
  • Segregação nas carreiras – Liliane Bordignon (Fundação Carlos Chagas)

16h – Intervalo 

16h30 – Mesa 3: Anúncios e possibilidades 

  • Indique Gênero e Plano Nacional de Educação – Denise Carreira (FEUSP)
  • Escola, cultura e território – Jéssika Tenório (Ação Educativa)
  • Coletivos juvenis e comunicação comunitária  – Quinn (Poeta e Slammer)
  • Educação sexual na quebrada – Elânia Francisca (Espaço Puberê)

Serviço
Seminário da Pesquisa “Gênero e Políticas Educacionais”
Dia: 11/11 (segunda-feira)
Horário: das 9h às 18h
Local: Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antônia, 294. Vila Buarque – São Paulo–SP)
Inscrições: https://forms.gle/WSqLmdrL6w6ySpt56