Gênero e Políticas Educacionais: análises e agendas por uma educação libertadora e igualitária

A publicação analisa as disputas de gênero e os retrocessos nas políticas educacionais brasileiras, destacando desafios, resistências e caminhos para uma educação democrática, inclusiva e igualitária.


Desde pouco mais de uma década, a educação escolar no Brasil tem passado por um processo radical de transformação, articulado a mudanças políticas e sociais mais amplas, no Brasil e no mundo. 

A pedra fundamental desse período foi a aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE, Lei nº 13.005/2014), em 2014, que trouxe à cena pública um estridente movimento antigênero com capacidade de influenciar poderosamente a produção legislativa educacional e o cotidiano escolar, mas com efeitos que vão muito além da escola, justificando e amplificando situações de violência política e ameaçando a democracia. A arquitetura normativa da educação foi modificada também pela reforma do Ensino Médio e pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Podem ser mencionados, ainda, os impactos das políticas econômicas de austeridade (incluindo o Teto de Gastos, em 2016, e o Novo Arcabouço Fiscal, em 2023), do avanço das tecnologias digitais e da pandemia de covid-19. 

Para além da legislação nacional, o cenário educacional foi sendo transformado por disputas nos estados, municípios e dentro das escolas. Nas escolas, o cenário é altamente preocupante, com violações à liberdade de cátedra e ao direito de crianças e adolescentes a uma educação plural, além de ataques que visam à proibição e à criminalização de iniciativas e debates voltados à construção de uma educação inclusiva e comprometida com os direitos humanos. Essas ações se entrelaçam ao fenômeno da expansão da precarização do ensino: docentes lidam de forma isolada com os retrocessos e com a vigilância arbitrária sobre o ambiente escolar. 

Esse cenário aparece de modo ostensivo nsiva nos casos de invasão de escolas por deputados para constranger estudantes e profissionais, em situações de ameaças e violência física contra educadores e em demissões ilegais; mas permeia de forma mais ampla o dia a dia das unidades educacionais, com a disseminação do medo e da autocensura (ONVE, 2025). 

É justamente esse período conturbado, contraditório e de incertezas que esta publicação tenta decifrar. Ela reúne um conjunto de textos que abordam diferentes eixos da pesquisa Gênero e Políticas Educacionais, realizada entre 2023 e 2025 por meio de uma parceria entre Ação Educativa, Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), Fundação Carlos Chagas (FCC), Geledés – Instituto da Mulher Negra e Coletivo Professor@s contra o Escola sem Partido, com apoio do Fundo Malala. O início em 2023 é significativo: com a perspectiva da retomada dos espaços de participação social para a elaboração de políticas públicas, sentimos a necessidade de atualizar diagnósticos sobre as políticas educacionais e as agendas progressistas construídas nas últimas décadas, voltando especial atenção para meninas e jovens negras, indígenas, rurais, LGBTQIA+ e com deficiência. 

Dessa forma, a pesquisa foi desenvolvida com o objetivo de atualizar diagnósticos sobre as políticas educacionais e as agendas progressistas construídas nas últimas décadas. O desafio não é o de apenas reconstruir as insuficientes políticas anteriores, mas, aprendendo com essas experiências, construir um arcabouço normativo que dê conta da complexidade do enfrentamento às desigualdades educacionais – amplificadas pela pandemia de covid-19 –, com políticas estruturais e intersetoriais e com políticas específicas para grupos vulnerabilizados, em um contexto que segue marcado por conflitos na sociedade.

Vale ressaltar que este estudo se insere em uma trajetória iniciada em 2011 com a publicação do Informe Brasil – Gênero e Educação, produzido no marco da Campanha Educação Não Sexista e Antidiscriminatória, coordenada pelo Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem). O informe, pela Ação Educativa em colaboração com a Ecos – Comunicação e Sexualidade, o Centro de Referência às Vítimas de Violência (CNRVV), o Instituto Sedes Sapientiae e a Relatoria Nacional para o Direito Humano à Educação da Plataforma de Direitos Humanos – Dhesca Brasil, constituiu um primeiro trabalho sobre as políticas educacionais e os desafios da incorporação da equidade de gênero na educação, com análises que problematizam a narrativa de superação das desigualdades de gênero e apresentam um panorama dos desafios estruturais ainda presentes na educação brasileira.

O Informe Brasil – Gênero e Educação, atualizado em 2013, foi a base para o projeto Gênero e Educação, apoiado por meio de edital público da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), do governo federal, entre 2014 e 2016. Também constituído por um conjunto de organizações – Ação Educativa, Cladem, Ecos e Geledés –, o projeto realizou pesquisas e levantamentos, atividades de formação e de comunicação, articulação e incidência política. Os resultados foram condensados em artigos reunidos no livro Gênero e Educação: fortalecendo uma agenda para as políticas educacionais (2016), editado com a participação do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas. 

O projeto atravessou justamente o período em que a ofensiva antigênero ganhava momentum e eclodia. Com isso, contribuiu tanto para entender o cenário antecedente como para identificar os primeiros efeitos dessa onda. Foi possível, então, diagnosticar a fragilidade institucional da agenda da igualdade de gênero na educação, com a constatação de que havia poucos programas nomeando expressamente gênero nas secretarias de educação, realizando principalmente ações pontuais como palestras e cursos de pequena carga horária, e apenas um estado informando abordar gênero, raça e sexualidade de forma interseccional – segundo o mapeamento realizado antes da irrupção do discurso antigênero na tramitação do PNE em 2014. 

Ainda assim, a força dos movimentos sociais feministas, negros e LGBTQIA+ e a existência de uma política nacional que foi o Gênero e Diversidade na Escola (GDE) mostravam um campo de possibilidades, como a elaboração de Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação, Gênero e Diversidade Sexual, objeto da incidência política realizada pelo projeto. A articulação política desenvolvida nesse âmbito foi fundamental para a organização de um dossiê, possivelmente o primeiro, sobre as perseguições e ameaças contra escolas e profissionais da educação realizadas pelo movimento Escola sem Partido e outros grupos, documento entregue à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal (PFDC-MPF). 

O lançamento do livro Gênero e Educação: fortalecendo uma agenda para as políticas educacionais foi realizado em dezembro de 2016, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima, em São Paulo, como parte da programação da Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação (CONANE – Sudeste). A escolha do local foi uma estratégia de solidariedade para a escola, que havia sido alvo de uma tentativa de censura por parte de um vereador ao desenvolver uma semana dedicada às discussões sobre a igualdade de gênero.

Também não se deve minimizar o alcance do pânico moral em torno das agendas de gênero e sexualidade que emergiram na ofensiva à educação para o recrudescimento autoritário da política nacional. A confluência entre conservadorismo moral, populismo penal e individualismo neoliberal (que certamente se alimentam da histórica desigualdade, da insuficiência democrática e dos erros do campo progressista) esteve na onda de direita que levou ao golpe contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016 e culminou na “catástrofe perfeita”, como descreve Sonia Corrêa, da eleição de Jair Bolsonaro em 2018. 

Ao mesmo tempo, esse breve histórico teria uma lacuna fundamental sem fazer menção às resistências desse período. As reformas educacionais foram contestadas por ocupações estudantis que se espalharam pelo Brasil em 2015 e 2016, e as universidades viram multiplicar os coletivos feministas, negros e LGBTQIA+, que lutam por condições de acesso e permanência, denunciam violências e discriminações antes invisibilizadas e têm provocado transformações mais profundas nos currículos, nos temas de pesquisa e na vivência cotidiana do ensino. 

As organizações da sociedade civil também tiveram um papel crucial para analisar o contexto, barrar retrocessos e enfrentar diretamente o acirramento das desigualdades durante o governo Bolsonaro e a pandemia de covid-19. Uma amostra dessa atuação foi compilada no livro Gênero e Educação: ofensivas reacionárias, resistências democráticas e anúncios pelo direito humano à educação, lançado pela Ação Educativa no final de 2022, após a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais. Os textos abordam a produção de conhecimentos voltada à compreensão do fenômeno ultraconservador, como o mapeamento dos projetos legislativos de censura e ataque à laicidade (Aquino; Moura, 2022), que foi novamente atualizado e ampliado no presente volume; as etapas qualitativa e quantitativa da pesquisa Educação, Valores e Direitos (Barlach; Castanhedi, 2022; Ação Educativa; Cenpec; Cesop/Unicamp, 2022); e a introdução da ofensiva antigênero na gramática do Estado brasileiro. Outros artigos tratam das resistências no sistema de Justiça, no Congresso Nacional e nos territórios. 

Para produzir um retrato desse período, a pesquisa foi organizada em quatro eixos. O primeiro deles é um levantamento da produção acadêmica sobre gênero nas políticas educacionais, que atualiza o balanço produzido por Cláudia Vianna e Sandra Unbehaum (2016) para o período de 2000 a 2015. Naquele momento, destacavam-se estudos sobre avanços para a inclusão da agenda de gênero e sexualidade nas políticas públicas de educação, principalmente pelos governos Lula e Dilma no âmbito federal, ainda que de forma fragmentada e com muitos desafios. Já a análise de Thais Gava, Jéssica Germine e Bárbara Lopes, presente nesta publicação, revela um contexto marcado por disputas, tanto na construção das políticas quanto nas escolas, e também pela busca de compreender e enfrentar o discurso antigênero. 

Neste trabalho, buscamos também incorporar a produção de conhecimentos por organizações da sociedade civil, reconhecendo a capacidade desse setor de produzir pesquisas que combinam rigor e agilidade, de modo a informar suas ações para a transformação social. Esse ensaio revelou desafios metodológicos, considerando a ausência de repositórios centralizados e a heterogeneidade de formatos. Diante disso, optamos por um estudo de caso: a elaboração da pesquisa A educação de meninas negras em tempos de pandemia: o aprofundamento das desigualdades, realizada pelo Geledés – Instituto da Mulher Negra, e seu uso como instrumento de incidência política, como relata o texto de Érika Novais e Suelaine Carneiro.

A atualização do diagnóstico também se voltou para a análise quantitativa, a partir do Censo Escolar. Em uma primeira visada, mais panorâmica, chamaram a atenção os dados relativos à Educação Profissional Técnica de Nível Médio (EPTNM), cujas matrículas são compostas, em sua maioria, por mulheres negras. Há uma grande lacuna de estudos sobre as dimensões de gênero e raça nessa modalidade – que constantemente é apontada como um caminho que deveria ganhar prioridade, ainda que em detrimento do ensino superior, no investimento público. A análise realizada por Bárbara Lopes, Jéssica Germine, Liliane Bordignon e Thais Gava indica a manutenção, ao longo dos anos, da segregação por gênero nas carreiras técnicas: ainda que, em alguns cursos de maioria masculina, tenha havido um ligeiro aumento do número de mulheres, naqueles ligados aos cuidados, a participação de homens segue muito baixa. 

A história recente das políticas educacionais também pode ser contada por meio das proposições legislativas apresentadas em câmaras municipais, assembleias e no Congresso Nacional. O primeiro levantamento foi produzido por Fernanda Moura em 2016 e foi posteriormente atualizado pelo coletivo Professores contra o Escola sem Partido e pela Frente Nacional Escola sem Mordaça. Em 2022, juntamente com Renata Aquino, a pesquisadora publicou uma nova versão integrando o livro Gênero e Educação: ofensivas reacionárias, resistências democráticas e anúncios pelo direito humano à educação. O presente balanço, além de atualizar dados, ampliou o universo de casas legislativas pesquisadas, com o desenvolvimento de uma ferramenta que permitiu alcançar uma parcela significativa de câmaras municipais. Entre os muitos achados interessantes, cabe destacar o caráter inaugurador da tramitação do Plano Nacional de Educação em 2014, com poucas matérias o antecedendo. Isso expõe como o ultraconservadorismo legislativo em relação à educação é uma invenção histórica relativamente recente. O relatório também aponta que anos eleitorais são muito mais ativos nesse tipo de produção, evidenciando seu propósito de alavancar carreiras políticas. 

Por fim, este livro inclui a Proposta de Política Nacional de Educação para a Igualdade de Gênero, Diversidade Sexual e Educação Integral em Sexualidade, em perspectiva interseccional: rumo a uma política sistêmica e de Estado. Elaborado por Denise Carreira, com apoio de um grupo de apoio à relatoria, o documento é fruto da participação da sociedade civil e de pesquisadores no Grupo de Trabalho Técnico (GTT) de Enfrentamento ao Bullying, ao Preconceito e à Discriminação, instituído pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (Secadi/MEC). A proposta tem como base as contribuições ao GTT, a legislação e decisões judiciais, e deliberações das Conferências Nacionais de Educação, e está organizada em 12 eixos de ação, compreendendo o fortalecimento do marco normativo, a produção de informações, a formação inicial e continuada de profissionais da educação, protocolos de enfrentamento às violências, entre outros. Este material foi entregue a representantes do MEC e de outros ministérios, porém sem o comprometimento com sua efetivação ou sequer com o aprofundamento dos debates. Ainda assim, trata-se de uma agenda política com capacidade de orientar ações de incidência em prol da igualdade de gênero, de forma interseccional.

Rumos da democracia

Segundo Suelaine Carneiro, coordenadora de Educação e Pesquisa do Geledés – Instituto da Mulher Negra, a questão racial e de gênero tem se tornado campo de disputa em torno dos rumos da democracia brasileira. “Estando no centro dos interesses dos conservadores, a educação passa a não realizar tudo aquilo que é seu dever enquanto efetivação de cidadania, da democracia e, principalmente, da defesa de ensinar e aprender sobre igualdade de direitos”, afirmou a pesquisadora durante o Seminário de Gênero e Políticas Educacionais, que constituiu uma das etapas de realização da pesquisa, com a proposta não apenas de debater os primeiros achados, mas de criar um espaço de troca e reflexão sobre os desafios enfrentados e os caminhos para avançar. O evento promoveu um espaço fundamental de análise, evidenciando que o cenário atual não pode ser compreendido de forma fragmentada, buscando compreender o crescimento do ultraconservadorismo no Brasil e seus impactos por meio da articulação entre ofensivas legislativas, disputas culturais e a reorganização de discursos. 

A contribuição de Bárbara Araújo, professora adjunta do Instituto Fernando Rodrigues da Silveira da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CAp-UERJ), foi fundamental para reforçar que as disputas em torno da educação não podem ser compreendidas por meio de categorias isoladas: gênero, raça, classe e sexualidade constituem dimensões indissociáveis nas relações sociais. A formulação de políticas públicas exige o reconhecimento de que as desigualdades se produzem mutuamente e atravessam a experiência escolar.

O seminário reafirmou que a educação para o pleno desenvolvimento dos sujeitos e a construção de políticas públicas que visem à garantia dos direitos humanos não pode prescindir do debate sobre gênero. Essa perspectiva foi ressaltada pelas experiências compartilhadas no encontro. Elânia Francisca, psicóloga e fundadora do Espaço Puberê, um projeto que desenvolve diferentes iniciativas com adolescentes, estabelece que a promoção da educação em gênero e sexualidade deve se articular com a comunidade do território. Além disso, sua contribuição coloca em questão a ideia de que famílias são necessariamente um obstáculo à abordagem de gênero nas escolas, mostrando que existem caminhos para o seu envolvimento enquanto parceiras na construção de processos educativos que visem à ampliação da autonomia estudantil e à sua reflexão crítica.

A intervenção de Dayanna Louise, professora da rede estadual de Pernambuco e Secretária de Educação da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), destacou como a ofensiva antigênero e antitrans produz formas de exclusão escolar e violência contra corpos trans e travestis. Para a pesquisadora, não se pode perder de vista a importância das estratégias cotidianas de resistência, transformando experiências marcadas pela opressão em práticas de afirmação, aprendizagem e construção de outros futuros – o que reforça a necessidade de não apenas resistir aos retrocessos, mas também avançar na formulação de agendas propositivas que recolocam a educação como espaço de emancipação.

A partir da pesquisa Gênero e Políticas Educacionais: análises e agendas por uma educação libertadora e igualitária, nossos estudos seguem comprometidos com a defesa intransigente de que essa é uma luta crucial para a garantia do direito de educadores, para a promoção da inclusão, a valorização de identidades e a construção de um futuro em que todas as pessoas possam viver dignamente dentro da escola e para além dela – isso só será possível com políticas públicas voltadas para a igualdade de gênero, raça e sexualidade. 

No contexto da ofensiva antigênero, foi apontada a necessidade de reconhecer que determinados princípios – como a defesa dos direitos humanos, da igualdade racial e de gênero – não são passíveis de negociação, devendo orientar a construção de políticas públicas e práticas educativas. Ao mesmo tempo, emergiram críticas à postura de setores progressistas que, diante das ofensivas, têm adotado estratégias de recuo ou despriorização dessas agendas, por vezes responsabilizando movimentos sociais por derrotas políticas mais amplas.

As discussões também evidenciaram a importância de superar leituras reducionistas sobre desigualdade. Ao problematizar a noção de “política de identidade”, os debates reforçaram que as relações de classe, gênero e raça são indissociáveis das dinâmicas da vida. Essa perspectiva se torna ainda mais evidente quando analisamos dados educacionais: embora haja aparente paridade de gênero em matrículas no ensino técnico, essa igualdade se desfaz na distribuição entre cursos, revelando a persistência da segregação de mulheres em áreas historicamente desvalorizadas – com as mulheres negras sendo as mais impactadas pelas desigualdades no mercado de trabalho e sobrecarregadas no trabalho doméstico.

Ao mesmo tempo, como destacou Alexandre Bortolini, Secretário-Executivo (2026-2027) da Associação Brasileira de Estudos da Trans-Homocultura (ABETH), a análise interseccional também exige olhar para a exclusão escolar de meninos negros, grupo que concentra índices de repetência e evasão no sistema educacional brasileiro, mas que raramente aparece como sujeito específico das políticas públicas de promoção do direito à educação. 

Esta publicação, além de apresentar dados atualizados e análises sobre esse contexto, reafirma a importância de reconfigurar a representação da agenda de gênero no campo educacional, promovendo-a de maneira positiva, comprometida com os princípios democráticos e com a justiça social. Como evidenciado nas discussões do Seminário de Gênero e Políticas Educacionais, esse cenário não produz apenas silenciamento, mas também respostas criativas e coletivas. Denise Carreira destacou que, mesmo diante da ofensiva ultraconservadora, persistem experiências potentes construídas por escolas, territórios, movimentos sociais e articulações em rede, indicando que a disputa em torno da educação não se restringe ao campo da resistência defensiva, mas à valorização das experiências dos estudantes. 

Como argumentou Jéssika Tenório, pedagoga e analista de projetos da Ação Educativa, durante o seminário, experiências desenvolvidas em terreiros de candomblé, coletivos culturais e comunidades quilombolas revelam que os territórios periféricos e tradicionais também são espaços de elaboração de saberes, de formação política e de construção de pertencimento, ampliando os horizontes de uma educação comprometida com a igualdade racial, de gênero e com a valorização das diversidades. Em uma conjuntura marcada pela censura e pelo desmonte, Quinn, estudante, poeta e slammer, evidenciou a força da poesia marginal e os encontros de slam como instrumentos de expressão política, em que temas como racismo, transfobia e violência de gênero são elaborados por meio da palavra poética, além de reverberar o fortalecimento do protagonismo e da participação estudantil nas políticas públicas.

Consideramos que os dados levantados contribuem para as reflexões dos movimentos sociais, organizações da sociedade civil, pesquisadores, ativistas e profissionais que atuam a partir da agenda. Além disso, os dados também podem ser vistos como um chamado para que todas as pessoas se aprofundem nos desafios que cercam a agenda de gênero nas escolas. Nosso objetivo é que esta publicação seja um instrumento que contribua para ampliar o debate e fortalecer as políticas educacionais comprometidas com todas as comunidades escolares. 

Bárbara Lopes e Marcelle Matias


EmPalavras

Por Anny

Em Palavras,
Minha caneta te empala,
Eu sinto na minha pele,
O que sempre cês ri é o que nos fere,
Afinal, cês só acham graça quando não é de vocês a desgraça, 
E eu acho muito massa,
Uma massa de pessoas reunidas me olhar recitando,
Eu também acho mó paia,
Também tem um bando de ignorante que tá ouvindo mas não tá escutando,
Nosso protesto não tão enxergando,
Pra nossa dor não tão ligando,
E nossa derrota tão comemorando.

Me escuta, 
Tenta aprender mesmo sem viver a nossa luta,
Meu amor não te machuca,
Mas seu ódio me mata então não apoio tua conduta,
E desculpa,
Mas não é minha culpa eu ter nascido assim,
“Por quê cê não pode ser gay? Era mais facin”,
Eu até queria mas essa história não é sobre querer,
É sobre ser,
Não minta pra mim,
Fala que eu vou queimar no inferno,
Mas eu sei que o diabo veste terno,
E que se Deus existe ele me ama mesmo eu sendo travesti,
Perdi a fé nele faz uma cota,
Porque quem diz que a ele adora,
Me fez de chacota.

É foda,
A moral de vocês não é construída de um jeito ético,
Vocês até ama minhas poesia e me deseja sucesso,
Mas na rodinha dos parceiro vive chamando minhas parceira de traveco?
Vou fazer cês ter um treco,
Não meço minhas palavras pra dizer que a gente tá em todo lugar,
Muxe no México,
Travesti no Brasil,
E Two-Spirit  nos EUA,
Trump pode até tentar mas NUNCA vai nos apagar,
Então pode pá, 
É nois que tá,
Meu nome tá na mídia nos livro nas poesia é só pesquisar,
É só me comprar,
E não inverte o sentido que eu não to falando comprar no sentido sexual,
Eu tô rompendo seu estereótipo,
Não sou prostituta, sou sim, é artista marginal.

E a minha lírica é um pente cheio de bala,
É hoje que transfóbico sai furado,
Não pensa que isso é só ruim pro nosso lado,
Toda essa dor vai ser recíproca,
Vai ter sim chumbo trocado,
Vai ser simetricamente calculado,
Cada alvo que não vai fugir da ponta da minha caneta,
Tá pensando que eu tô falando só de transfóbico descarado e famoso?
Mas pode ser até você que tá escutando,
Pensa, mano, pensa!
Ceis às vezes são transfóbico e reconhecer nem tenta,
Pensa, mano, pensa!
E a sorte de vocês,
É que a gente quer mudança,
Não vingança,
A gente ainda mantém a esperança,
Mas essa desgraça cansa,
E nois vem trazendo a esperança pra que a gente possa em paz também existir,
O assunto é bem complexo por hoje não vou nem insistir,
O lado de vocês já tá pesado na balança,
O reitor da Unicamp já disse por mim:
“Eu prefiro incomodar do que não propor mudanças”,
E eu vou seguir incomodando, isso aqui não vai ter fim.

Anny é poeta, slammer e escritora independente. Autora do livreto “Mais do Mesmo” publicado pela editora Aula Viva. Realizou diversos trabalhos na cena do Slam e, atualmente, se dedica à escrita e à publicação de textos no Instagram (@a.anny_sz)


Sobre a pesquisa

A produção acadêmica sobre o gênero nas políticas educacionais do Brasil (2015-2022): afirmações e resistências
Thais Gava, Jéssica Germine e Bárbara Lopes

Monitorar e incidir: o impacto da pandemia de Covid-19 na educação de meninas negras
Erika Novais

Mapa das Matrículas Iniciais na Educação Profissional Técnica de Nível Médio no Brasil (2007-2020): diferenças de gênero nos cursos técnicos
Bárbara Lopes, Jéssica Germine, Liliane Bordignon e Thaís Gava

Mapeamento da produção legislativa antigênero no Brasil recente: as funções do parlamento na ecologia ultraconservadora
Renata Aquino e Fernanda Moura

Por uma agenda para as políticas educacionais: enfrentando a interdição e o silenciamento da agenda de gênero e sexualidade
Denise Carreira


Sobre a equipe da pesquisa

Bárbara Lopes
Jornalista e mestre em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC. Coordena o projeto Gênero e Educação da Ação Educativa. É autora do livro Semeadores da Utopia: A história do Cepis – Centro de Educação Popular do Instituto Sedes Sapientiae (editora Expressão Popular, 2013), coautora de Jovens e Direito à Educação: guia para uma formação política (Ação Educativa, 2016) e uma das organizadoras da coletânea Gênero e Educação: ofensivas reacionárias, resistências democráticas e anúncios pelo direito humano à educação (Ação Educativa, 2022).

Denise Carreira
Professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP). Educadora popular, é mestre e doutora em Educação pela USP, com pós-doutorado em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Foi coordenadora institucional da Ação Educativa, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e Relatora Nacional de Direitos Humanos da Plataforma DHESCA Brasil. Integra a coordenação do Grupo de Estudos de Educação de Jovens e Adultos e do Laboratório de Práticas de Formação Inicial e Continuada de Profissionais de Escolas Públicas da FEUSP.

Erika Novais
Filósofa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e educomunicadora pela Universidade de São Paulo. Desenvolve projetos em museus, centros culturais, escolas e no terceiro setor há mais de uma década. Atua em espaços de promoção da cidadania e dos direitos humanos. Integra a comunicação do Comitê Latino-Americano e do Caribe pela Defesa dos Direitos das Mulheres (CLADEM Brasil). Foi apoiadora da publicação da Pesquisa Gênero e Políticas Educacionais.

Fernanda Moura
Bacharel e licenciada em História e especialista em Gênero e Sexualidade pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mestra em Ensino de História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Pesquisadora do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es e professora efetiva da Secretaria de Educação de Petrópolis. Integra o Observatório da Laicidade na Educação, o coletivo Professores Contra o Escola Sem Partido e a coordenação colegiada da Articulação contra o Ultraconservadorismo na Educação.

Jéssica Germine
Jéssica Alves de Lima Germine é mestra em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC), especialista em Ciência Política pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e bacharela em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Paraná. Atualmente cursa o doutorado em Ciências Humanas e Sociais na UFABC. Integrante do Núcleo de Estudos de Gênero Esperança Garcia da UFABC e do Grupo de Estudos sobre Teoria da Reprodução Social (GE-TRS/UFES).

Liliane Bordignon
Doutora pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Pesquisadora no Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas. Professora Visitante no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Diferenciação Sociocultural da Faculdade de Educação da Unicamp.

Marcelle Matias
Graduanda em Licenciatura em Educomunicação pela Universidade de São Paulo. Analista de Projetos da Ação Educativa e integrante do projeto Gênero e Educação. Realizou pesquisas sobre televisão brasileira (2018) e violências digitais (2019) a partir do Programa Unificado de Bolsas para Estudantes da Graduação da Universidade de São Paulo (PRG-USP).

Renata Aquino
Professora de história e historiadora. Mestra em História social (PPGHS-FFP/UERJ). Doutoranda em Educação (PPGE-USP). Membra do coletivo Professores contra o escola sem partido. Pesquisadora no projeto de extensão Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE-UFF). 

Suelaine Carneiro
Socióloga, feminista, mestre em educação, coordenadora de Educação e Pesquisa de Geledés Instituto da Mulher Negra. Atua nos seguintes temas: feminismo, racismo, educação, educação das relações raciais. Autora de publicações sobre: gênero, raça e educação; violência racial; violência doméstica. É integrante da Rede de Ativistas pela Educação do Fundo Malala.

Thais Gava
Doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Atualmente trabalha como pesquisadora na Fundação Carlos Chagas e como professora no curso de Psicologia do Centro Universitário São Camilo. Desenvolve pesquisas que articulam gênero e sexualidade em diálogo com a educação. Sua trajetória combina produção acadêmica, consultoria e docência, com ênfase na análise crítica das políticas educacionais e nas disputas contemporâneas em torno das desigualdades de gênero, diversidade e dos direitos humanos.