Saberes Indígenas e Narrativas Orais
Estado: Amazonas (AM)
Etapa de Ensino: Ensino Médio
Modalidade: Educação Escolar Indígena, Educação Regular
Disciplina: História
Formato: Presencial
Maria do Rio Negro Cachinauá é educadora, graduanda em Pedagogia - UFAM, pesquisadora em políticas pós identitárias e ex-presidenta do Centro Acadêmico de Pedagogia. Atua com projetos de educação ambiental e de direitos humanos. Já mediou oficinas em escolas e comunidades, unindo arte, tecnologia e formação crítica. É representante discente no Conselho Universitário da UFAM - CONSUNI.
Objetivo
Valorizar a oralidade como forma legítima de produção e transmissão de saberes ancestrais indígenas, reconhecendo-a também como prática epistemológica e política, por meio da criação de podcasts educativos, articulando práticas de escuta ativa com reflexões críticas sobre gênero, diversidade sexual, identidade e território, a partir de narrativas de mestres, mestras, lideranças e produções indígenas contemporâneas. Ao compreender a oralidade como tecnologia ancestral de produção de conhecimento, a proposta também busca tensionar as hierarquias tradicionais do saber escolar, historicamente marcadas por perspectivas eurocêntricas, afirmando os povos indígenas como sujeitos produtores de teoria, memória e futuro.
Objetivos específicos:
- Incentivar a escuta respeitosa e o diálogo intercultural, reconhecendo sujeitos indígenas como produtores de conhecimento e não apenas como fontes de informação.
- Compreender a oralidade como tecnologia ancestral de preservação de memórias, saberes e formas de existência.
- Problematizar concepções ocidentais e binárias de gênero, ampliando o debate a partir de perspectivas indígenas plurais e situadas.
- Promover a equidade de gênero, garantindo a visibilidade de mulheres indígenas, masculinidades indígenas, pessoas LGBTQIA+ indígenas e diferentes gerações.
- Desenvolver habilidades de pesquisa, escuta, entrevista, roteiro e produção de áudio.
- Estimular a produção crítica de conteúdos educativos comprometidos com diversidade cultural, justiça social e justiça climática.
- Refletir sobre ética, consentimento e responsabilidade no uso de narrativas e saberes tradicionais.
- Compreender os limites éticos da pesquisa, reconhecendo que nem todo conhecimento pode ou deve ser registrado, divulgado ou traduzido fora de seu contexto.
Conteúdo
- Oralidade e saberes ancestrais indígenas;
- Cultura, memória e território;
- Gênero, diversidade sexual e identidades em contextos indígenas;
- Masculinidades indígenas e outras formas de existência de gênero;
- Entrevista, escuta ativa e narrativa;
- Produção de podcast (roteiro, gravação e edição);
- Ética na pesquisa e no uso de imagem e voz;
- Colonialidade do saber e epistemologias indígenas;
- Escuta como prática política e pedagógica;
- Produção de conhecimento a partir de narrativas orais.
Metodologia
A proposta será desenvolvida de forma participativa, interdisciplinar e crítica, tendo como eixo central a escuta como prática pedagógica e política, articulada à valorização das epistemologias indígenas e à problematização das relações de gênero.
A escuta, nesse contexto, será compreendida não como ato passivo, mas como prática de deslocamento das hierarquias tradicionais do conhecimento, reconhecendo sujeitos indígenas como produtores de teoria, memória e reflexão crítica.
ETAPA 1. Apresentação e escuta inicial
A etapa inicial será organizada como um momento de apresentação e escuta ampliada.
- Com participação indígena: Roda de escuta com convidados(as) indígenas (mulheres, homens, masculinidades indígenas e pessoas LGBTQIA+ indígenas), priorizando escuta respeitosa e reconhecimento como produtores de conhecimento.
- Sem participação presencial: Uso de perfis, entrevistas, documentários e registros audiovisuais. Destaque para o documentário sobre Majur Traytowu, liderança indígena trans do povo Boé-Bororo, primeira cacica trans do Brasil. Também inclui conteúdos sobre identidades Two-Spirit e pessoas indígenas não binárias.
ETAPA 2 – Discussão mediada sobre os conceitos:
- Gênero: construção social e cultural que organiza papéis e identidades.
- Identidade de gênero: forma como a pessoa se reconhece.
- Identidade fluida: experiência não fixa.
Esses conceitos serão tensionados a partir de perspectivas indígenas e decoloniais, reconhecendo sistemas próprios de compreensão do corpo e do gênero, com enfase nas masculinidades indígenas não hegemônicas, associadas ao cuidado, coletividade e território.
ETAPA 3 – Investigação e produção de conteúdo
Os(as) estudantes serão organizados em grupos e poderão desenvolver o trabalho por dois caminhos:
Entrevista direta
Realização de entrevistas com mestres, mestras ou lideranças indígenas, garantindo diversidade de gênero na escolha dos(as) participantes.
Nesse processo, será fundamental orientar os(as) estudantes sobre práticas de escuta ética, respeitosa e não extrativista, compreendendo que a entrevista não é apenas uma coleta de informações, mas um encontro entre sujeitos, atravessado por relações de confiança, respeito e responsabilidade.
Os(as) estudantes deverão solicitar consentimento livre, prévio e informado antes de qualquer gravação, explicando claramente os objetivos da atividade e o uso do material produzido. Também será importante reconhecer que determinadas narrativas, saberes ou experiências podem não ser compartilháveis, devendo ser respeitados os limites estabelecidos pelas pessoas entrevistadas.
Além disso, será incentivado que os grupos atentem para o contexto cultural, territorial e comunitário dos(as) participantes, evitando interpretações descontextualizadas ou generalizações sobre povos indígenas.
Pesquisa orientada
Na impossibilidade de entrevistas, os grupos irão pesquisar em:
- Livros e bibliotecas
- Plataformas digitais
- Redes sociais de lideranças indígenas
- Documentários e entrevistas
A pesquisa deverá ser realizada de forma crítica e responsável, com atenção à autoria, à origem das informações e ao contexto de produção dos conteúdos. Os(as) estudantes serão orientados(as) a priorizar fontes produzidas por pessoas indígenas ou instituições comprometidas com a valorização dos povos originários.
Também será incentivada a análise comparativa entre diferentes fontes, permitindo identificar convergências, divergências e possíveis distorções na forma como os povos indígenas e suas experiências de gênero são representados.
A investigação deverá contemplar, sempre que possível, a diversidade de experiências indígenas, incluindo mulheres, pessoas LGBTQIA+ indígenas, masculinidades indígenas e diferentes gerações, evitando uma visão homogênea ou estereotipada.
Por fim, os grupos deverão organizar as informações coletadas de forma ética e responsável, preparando-as para a construção do roteiro do podcast, garantindo fidelidade às narrativas, respeito às vozes envolvidas e compromisso com uma comunicação intercultural sensívele contextualizada.
ETAPA 4 – Ética eresponsabilidade
Nesta etapa, propõe-se trabalhar:
- Consentimento livre, prévio e informado;
- Respeito a saberes não registráveis;
- Reconhecimento de autoria coletiva;
- Não apropriação cultural;
- Compreensão de limites éticos da pesquisa.
ETAPA 5 – Produção dos podcasts
Nesta etapa, propõe-se a produção de episódios de podcast com duração entre 5 e 10 minutos, utilizando celulares e aplicativos simples, de modo a tornar a atividade acessível aos estudantes.
A proposta pode ser adaptada para outros formatos, como rádio escolar ou apresentação oral, conforme a realidade da instituição. Durante a produção, é importante orientar os alunos quanto ao respeito ao tempo de fala, ao uso adequado de pausas e ao cuidado com o contexto cultural abordado, garantindo uma comunicação clara e responsável.
Finalização
Socialização e escuta coletiva dos podcasts com reflexão crítica e troca de experiências.
Materiais necessários
Celulares com gravador;
fones de ouvido;
acesso à internet (opcional);
computador (opcional);
caderno e caneta;
caixa de som.
Duração
4 encontros de 1h30 (total: 6 horas)
Avaliação:
Participação e envolvimento;
Escuta respeitosa;
Consciência ética;
Compreensão crítica sobre gênero e cultura indígena;
Qualidade narrativa;
Capacidade de reconhecer limites éticos da pesquisa.
Referências culturais
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL (ISA). Vozes Indígenas. Disponível em: https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/vozes-indigenas. Acesso em: 20 mar. 2026.
DOCUMENTÁRIO sobre Majur Traytowu (cacica trans indígena). Disponível em: https://m.youtube.com/watch?v=Yh4GAYyINkk. Acesso em: 20 mar. 2026. REVISTA MARIE CLAIRE. Primeira cacica trans do Brasil, Majur Traytowu fala. Disponível em: https://revistamarieclaire.globo.com/retratos/noticia/2023/06/primeira-cacica-trans-do-brasil-majur-traytowu-fala-nao-serei-a-ultima-minha-vida-e-existencia-sao-resistencia-dep.ghtml. Acesso em: 20 mar. 2026.
BRASIL DE DIREITOS. Primeira cacica trans Majur só enfrenta preconceito quando sai da aldeia. Disponível em: https://www.brasildedireitos.org.br/atualidades/primeira-cacica-trans-majur-so-enfrenta-preconceito-quando-sai-da-aldeia/. Acesso em: 20 mar. 2026.
ARCO. Identidade de gênero Dois-Espíritos. Disponível em: https://www.ongarco.org/post/identidade-de-g%C3%AAnero-dois-esp%C3%ADritos-uma-vis%C3%A3o-sobre-a-diversidade-e-a-riqueza-cultural-ind%C3%ADgena. Acesso em: 20 mar. 2026.
Referências Bibliográficas
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL (ISA). Disponível em: https://www.socioambiental.org/.Acesso em: 2025.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
CUNHA, Manuela Carneiro da. Histórias Indígenas Brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2002.
LUGONES, María. Colonialidade de gênero.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade.
VERGUEIRO, Viviane. Por uma vivência trans na educação.
BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena. Brasília: MEC, 2006.
Materiais jornalísticos e documentais sobre Majur Traytowu.
Produções acadêmicas e audiovisuais sobre identidades Two-Spirit.
Observação
A proposta busca articular oralidade, tecnologia e justiça social, promovendo uma educação comprometida com a diversidade cultural, a equidade de gênero e o reconhecimento das epistemologias indígenas. Ao priorizar a escuta como prática política, o projeto desloca hierarquias tradicionais do conhecimento e propõe uma prática pedagógica ética, crítica e transformadora.
