Casa de Carolina

Estado: São Paulo (SP)

Etapa de Ensino: Ensino Fundamental I

Modalidade: Educação Regular

Disciplina: Artes, Língua Portuguesa

Formato: Presencial

Lu e Rosinha são professoras que se encontraram em 2023 e, desde o início, reconheceram-se nos gestos, na escuta e na força dos seus fazeres pedagógicos. Em 2024, uniram seus caminhos no projeto Casa de Carolina – Reconstruindo o Quarto de despejo de Carolina Maria de Jesus, movidas pela potência da palavra como instrumento de memória, denúncia e transformação. Inspiradas pela escrita corajosa de Carolina, costuraram juntas não só uma proposta educativa, mas também uma amizade firme, afetiva e cheia de troca. Dessa caminhada nasceu ainda o Projeto Vexoá – nós sabemos, uma nova travessia… mas essa é outra história.

Sobre a experiência

O projeto Casa de Carolina integrou arte, literatura e sustentabilidade para promover a educação crítica e inclusiva. Inspirado na vida e obra de Carolina Maria de Jesus, os estudantes do Fundamental II atuaram como mediadores, conduzindo atividades com crianças do Fundamental I. Através da leitura de Quarto de despejo, produção de diários pessoais e visitas à feira local, os alunos refletiram sobre desigualdades sociais e culturais. A culminância foi a construção e exposição da Casa de Carolina, utilizando materiais reciclados, como papelão e tecidos doados, simbolizando a realidade da escritora e promovendo a sustentabilidade. Este projeto reforçou o protagonismo juvenil e a valorização da memória e identidade periférica.

Atores envolvidos

Os atores envolvidos foram crianças do Ensino Fundamental I do Projeto de Apoio Pedagógico (PAP) e adolescentes dos projetos Wakanda na escola (iniciativa antirracista) e CFE – Consciência feminina na escola (coletivo feminista), ambos da EMEF. As professoras coordenaram e mediaram a construção do espaço e os debates, em parceria com os estudantes.

Relato de experiência

O projeto Casa de Carolina foi desenvolvido ao longo do ano letivo com estudantes do Ensino Fundamental I e II da EMEF localizada no Grajaú, território marcado por desigualdades históricas, mas também por intensa produção cultural e mobilização social. A ação surgiu a partir da colaboração entre duas educadoras da unidade: uma professora de Arte e outra responsável pelo Projeto de Apoio Pedagógico, voltado ao atendimento de estudantes com dificuldades de aprendizagem.

Em fevereiro de 2024, ambas visitaram o sítio onde Carolina Maria de Jesus viveu, em Parelheiros — município vizinho ao Grajaú — e dialogaram com sua filha, Vera Eunice de Jesus Lima, professora da rede municipal. A vivência foi fundamental para estabelecer uma conexão afetiva com a história da autora e motivou a construção de um projeto interdisciplinar e afetivo que valorizasse a cultura periférica, a ancestralidade negra e o protagonismo estudantil.

A primeira etapa envolveu a formação de estudantes do Fundamental II integrantes dos grupos Wakanda na escola e Consciência feminina na escola como mediadores. Esses estudantes foram responsáveis por apoiar, de forma sensível e criativa, as crianças atendidas pelo PAP. A leitura mediada de trechos da obra Quarto de Despejo gerou rodas de conversa sobre desigualdade, fome e moradia, fortalecendo a escuta, oralidade e consciência crítica dos estudantes.

Uma visita pedagógica à feira do bairro permitiu aos estudantes vivenciarem, na prática, conteúdos de matemática, organização financeira, alimentação saudável e cooperação. Organizados em grupos e acompanhados pelos mediadores, os estudantes gerenciaram um orçamento simbólico para comprar frutas e verduras. Após a visita, prepararam coletivamente saladas, reforçando os vínculos, a empatia e a valorização da cultura alimentar local.

Inspiradas na escrita de Carolina, as crianças produziram seus próprios Diários de estudante, superando inseguranças e registrando sentimentos, reflexões e memórias com liberdade e criatividade. As professoras incentivaram a expressão pessoal e artística, utilizando materiais diversos, HQs e biografias para inspirar os estudantes. Além das produções individuais, textos coletivos ampliaram o vocabulário e a coesão textual.

A culminância foi a construção da Casa de Carolina – Reconstruindo o quarto de despejo, idealizada no espaço do PAP. A casa foi construída com papelão, tecidos doados e objetos recicláveis, valorizando práticas sustentáveis e evocando a trajetória de Carolina como catadora. Móveis foram emprestados por famílias, e peças artesanais, como uma toalha de crochê, foram confeccionadas pelas estudantes. A exposição foi pensada para homenagear Carolina com dignidade e potência, desconstruindo estereótipos e ressaltando sua humanidade, criatividade e luta.

Frases da autora foram espalhadas pela casa em utensílios e paredes. Espelhos, bonecas quebradas e pequenos sapatinhos remetiam a episódios marcantes de sua obra. Os visitantes, para entrar, precisavam se abaixar — gesto simbólico de reverência às mulheres negras. Do lado de fora, os diários dos estudantes foram pendurados em varais, como nas paisagens periféricas descritas por Carolina.

A exposição integrou as ações do Novembro Negro e da Mostra Cultural da escola, recebendo familiares, educadores, feirantes, ativistas e representantes de órgãos públicos. As crianças do PAP assumiram o protagonismo como monitoras, apresentando os elementos do espaço.

Na etapa final, realizamos uma roda de conversa com todos os envolvidos, para avaliação coletiva. O projeto foi encerrado com a desmontagem simbólica da casa, em um gesto de respeito ao percurso vivido. A Casa de Carolina consolidou-se como um espaço de escuta, autoria, pertencimento e transformação, reafirmando a escola como território de resistência, memória e liberdade.

Referência cultural

Livro Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus.

O livro revela o cotidiano duro das favelas, abordando fome, racismo e desigualdade. Sua narrativa é um grito de resistência que denuncia injustiças, dando voz às periferias e afirmando a dignidade de mulheres negras e pobres. Carolina é fundamental por tornar visível essa realidade invisibilizada, inspirando lutas por reconhecimento, igualdade, justiça social e valorização da cultura periférica.

A referência cultural de Quarto de Despejo, obra de Carolina Maria de Jesus, foi inserida de forma central e transversal em todas as etapas do projeto. Desde a apresentação e leitura da obra, passando pelas atividades de produção textual, análises críticas, visitas e culminando na construção da Casa de Carolina, a narrativa da escritora guiou todo o processo educativo. O livro proporcionou um espaço de diálogo sobre as realidades das periferias, as desigualdades sociais e raciais, e as experiências específicas das mulheres negras e pobres.

Por meio do estudo do texto e das vivências propostas, os estudantes puderam refletir sobre as múltiplas opressões que atravessam a vida de Carolina — como o racismo, a pobreza e o machismo —, reconhecendo as dificuldades enfrentadas e a força da resistência feminina. A produção dos Diários de Estudantes, que registraram percepções, sentimentos e aprendizagens, estimulou a autoria e a expressão, fortalecendo o protagonismo juvenil e a consciência crítica.

A montagem da Casa de Carolina contribuiu para tornar visível a potência estética e política da obra, criando um ambiente que valorizou a ancestralidade, a humanidade e a alegria da escritora. Elementos simbólicos, como frases extraídas dos livros, objetos do cotidiano e referências à estética negra, convidaram à reflexão sobre identidade, autoestima e resistência. A experiência gerou um espaço de escuta e reverência às trajetórias das mulheres negras, promovendo debates essenciais sobre gênero, raça e justiça social na educação básica.

Assim, a referência cultural de Carolina Maria de Jesus não só ampliou o repertório sociocultural dos estudantes, como também fortaleceu sua consciência social e compromisso com a igualdade, fazendo da literatura um instrumento de transformação. Essa vivência foi fundamental para a construção da identidade e do senso crítico dos estudantes, incentivando o respeito à diversidade e o engajamento na luta contra as desigualdades.

 

Estratégias adotadas

Para planejar e executar a experiência, adotou-se uma abordagem interdisciplinar envolvendo professoras das áreas de arte e apoio pedagógico. O projeto teve como ponto de partida a visita das docentes ao sítio onde Carolina Maria de Jesus viveu, situado próximo ao território do Grajaú — uma região periférica e de resistência que acolhe a escola. Considerando a realidade socioeconômica local optou-se por estratégias acessíveis, como o uso de materiais recicláveis, a integração entre projetos já existentes e a articulação entre diferentes ciclos escolares.

Foram organizados grupos de estudantes de diversas idades para atividades de leitura, produção textual, debates, saraus e a construção da Casa de Carolina. A proposta valorizou o protagonismo juvenil, a cultura periférica e o fortalecimento da identidade negra, incentivando também a leitura crítica e a reflexão sobre desigualdades sociais, gênero e raça. O livro Quarto de despejo e a montagem da exposição tiveram papel simbólico, literário e político, estimulando ações formativas simples, mas de grande impacto. A escuta ativa dos estudantes e a colaboração entre as docentes foram essenciais para a adaptação contínua das atividades, criando um ambiente inclusivo e de diálogo intergeracional.

Dificuldades encontradas

Durante a experiência, enfrentamos desafios significativos, especialmente na gestão do tempo para realizar todas as etapas do projeto, conciliando as atividades propostas com as demandas escolares regulares. A construção da Casa de Carolina  exigiu dedicação extra, o que demandou planejamento cuidadoso para integrar o projeto à rotina dos estudantes e professores. Outro desafio importante foi a impossibilidade de realizar a visita à praça onde está a escultura de Carolina Maria de Jesus. Além das limitações de tempo e da carga de trabalho das professoras, questões financeiras também dificultaram a realização dessa atividade externa, comprometendo a ampliação do contato dos estudantes com o patrimônio cultural local. Reconhecemos essa ausência como uma limitação, mas também como um ponto de aprendizado que abrirá caminho para o planejamento de futuras ações mais completas e envolventes. Para superar os obstáculos, adotamos flexibilidade no cronograma, diálogo constante entre a equipe e mobilização dos recursos disponíveis, buscando manter o foco no objetivo principal e valorizar os processos, fortalecendo o compromisso com a aprendizagem significativa e o protagonismo dos estudantes.

Principais aprendizagens

As pessoas envolvidas aprenderam a valorizar a trajetória de Carolina Maria de Jesus como símbolo de resistência, autoria e protagonismo feminino, reconhecendo as múltiplas opressões enfrentadas pelas mulheres negras das periferias urbanas. Os estudantes ampliaram suas habilidades de leitura crítica, escrita e trabalho coletivo, vivenciando a importância do diálogo intergeracional, da oralidade e da construção compartilhada de saberes. A proposta também favoreceu a escuta ativa e o fortalecimento da identidade, da autoestima e do pertencimento. As professoras enfrentaram desafios na gestão do tempo e na conciliação do projeto com outras demandas escolares, especialmente diante da sobrecarga de trabalho e da ausência de recursos financeiros, uma vez que são trabalhadoras da própria rede. A não realização da visita à escultura de Carolina, embora sentida, revelou a necessidade de buscar apoio institucional, recursos externos e parcerias com coletivos culturais e comunitários. Como possibilidade futura, destaca-se ampliar as tentativas para envolvimento das famílias e realizar ações de maior integração territorial, potencializando os vínculos afetivos e culturais com a história de mulheres da comunidade e com a potência do território do Grajaú.

Referências bibliográficas

AÇÃO EDUCATIVA (org.). Indicadores da qualidade na educação: relações raciais na escola. São Paulo: Ação Educativa, 2013. Disponível em: https://acaoeducativa.org.br/relacoesraciais/wp-content/uploads/2013/12/Indicadores_RR_vf.pdf. Acesso em: 21 mar. 2026.

GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra. Educação antirracista. São Paulo: Geledés, [s.d.]. Disponível em: https://www.geledes.org.br/tag/educacao-antirracista/. Acesso em: 21 mar. 2026.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014.

JESUS, Carolina Maria de. OLIVEIRA, Triscila. FERREIRA, Venessa. Quarto de despejo: diário de uma favelada em HQ. São Paulo: Ática, 2024.

JESUS, Carolina Maria de. Vedete da favela. [Música]. [S.l.: s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ip5sz3WOoAA. Acesso em: 14 jun. 2024.

SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Educação. Currículo da cidade: educação antirracista – orientações pedagógicas: povos afro-brasileiros. São Paulo: SME, 2022.

 

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