Empoderar: vivências de protagonismo na comunidade almense
Estado: Goiás (GO)
Etapa de Ensino: Ensino Médio
Modalidade: Educação Regular
Disciplina: Língua Portuguesa
Formato: Presencial
Sou fruto do chão da escola pública goiana, professora apaixonada pela educação, escritora de Imagens de cárcere e de encarcerados na voz de estudantes de graduação: uma análise discursiva (2021), pesquisadora das práticas discursivas acerca das relações de gênero, ativista pelos direitos humanos, especialmente na luta contra à violência contra a mulher. Letróloga, Pedagoga e Licenciada em Artes Visuais. Mestre em Língua e Interculturalidade (UEG) e Doutoranda em Letras e Linguística (UFG).
Sobre a experiência
Este relato de experiência trata-se de uma pesquisa participativa pelo viés da educação popular com a criação de um grupo de protagonismo intitulado EMP♀DER (AR). O grupo foi incluído nas ações do Projeto Político Pedagógico do Colégio Estadual Dr. Abner Araújo Pacini, em Almas, no Tocantins e propõe a realização de atividades com estudantes interessados das turmas do Ensino Médio a respeito da violência contra mulheres e a necessidade do letramento de gênero. A motivação surgiu após a realização de oficinas feministas com mulheres encarceradas e a compreensão das violências vivenciadas naquele espaço, bem como relatos estudantis de casos de abusos em suas residências.
Atores envolvidos
- Pesquisadora e professora Gabriela Magalhães (Doutoranda em Letras e Linguística) da Universidade Federal de Goiás.
- Integrantes do Grupo Empoderar (Liz, Estéfane, Evelyn, Diêmily e Lailson).
- Estudantes do Colégio Estadual Dr. Abner Araújo Pacini e comunidade da cidade de Almas, Tocantins.
Locais de palestra: Escola Estadual Deoclides Muniz, Colégio Agropecuário de Almas, Escola Profa. Elizangela Cardoso, Colégio João D’Abreu, Escola Estadual Cel Abilio Wolney e Projeto Mulheres Mil (IFTO).
Relato de experiência
Realizei uma pesquisa participativa fruto do meu projeto de doutorado intitulado EMP♀DER (AR): Gênero numa pesquisa participativa no Ensino Médio. O projeto previu a realização de uma etnografia sobre práticas de ensino colaborativas sobre gênero mediadas pelo grupo EMP♀DER (AR), como forma de identificar e caracterizar o impacto do grupo na formação crítico-social dos cinco estudantes de Ensino Médio do Colégio Estadual Dr. Abner Araújo Pacini, na cidade de Almas, no estado do Tocantins, bem como no restante da comunidade escolar.
A experiência ocorreu de janeiro de 2024 até junho de 2025. Essa ação contou com a realização de:
- Roda de conversa em duas escolas sobre temas como violência, empoderamento, equidade de gênero.
- Formações (palestras, trabalhos coletivos, painéis, saraus em relação à violência contra mulheres).
- Oficinas pedagógicas (leitura de livros, escrita de poemas, discussões sobre gênero, violências, machismo e diversidade sexual).
- Momentos de colaboração formativa do grupo.
Minhas motivações eram romper com os desafios de ensinar gênero em uma escola do interior tocantinense, conscientizando os estudantes com repertório linguístico para emancipação social e política. Além disso, promover praxiologias acadêmicas através de uma inciativa de iniciação científica no Ensino Médio e demonstrar a importância de utilizar os espaços da escola ações/projetos, especialmente o grupo de protagonismo com caráter social que possa propiciar a popularização dos saberes científicos ressaltando as temáticas contemporâneas e mudanças de arranjos sociais. A proposta visou também combater os vários tipos de violência, sobretudo cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 4 (“assegurar a educação inclusiva e equitativa de aprendizagem ao longo da vida para todos”) e 5 (Igualdade de Gênero até 2030).
Estratégias adotadas
Os caminhos para o planejamento e a execução da experiência partiram do meu projeto de pesquisa de doutorado e do cronograma com a etapa exploratória do local onde ocorreriam as ações. Paralelamente, fui aprovada no concurso da Secretaria de Educação do Estado do Tocantins como professora de Língua Portuguesa do município de Almas e, por não conhecer a comunidade, iniciei com a leitura do Projeto Político-Pedagógico do Colégio Estadual Dr. Abner Araújo Pacini, a fim de compreender sua identidade e concepções. Nesse processo, identifiquei a ausência de projetos voltados ao combate à violência contra a mulher.
A partir disso, pesquisei a rede de ensino tocantinense e encontrei a Semana Escolar de Combate à Violência contra as Mulheres, o que possibilitou a realização de ações de conscientização sobre o feminicídio. Assim, os passos da experiência envolveram a formação geral da escola, o convite para participação no grupo, oficinas semanais voltadas à emancipação crítico-social dos participantes e, posteriormente, formações pedagógicas ministradas pelos próprios integrantes à comunidade escolar sobre os conhecimentos construídos.
Referência cultural
A Prateleira do Amor: sobre mulheres, homens e relações, de Valeska Zanello. A obra aborda a importância do letramento de gênero para perceber como as raízes do machismo perpassam a cultura brasileira. Além disso, possui um capítulo intitulado Cultura da objetificação (sexual), violências contra as mulheres e dispositivos de gênero que nos convida a identificar vivências violentas naturalizadas socialmente.
Comecei a acompanhar o trabalho da professora Valeska Zanello nas redes sociais e, após a leitura de suas obras e a visualização de palestras, compreendi a relevância de levar esse debate para o contexto escolar. Essa referência contribuiu para o debate de gênero na comunidade educacional, por apresentar, de forma didática, exemplos do cotidiano com os quais os participantes se identificaram, como situações de homofobia, diferenças de comportamento entre meninos e meninas resultantes de reforços sociais e tecnologias de gênero, além de discussões sobre a pedagogia do amor romântico em contos de fadas e a objetificação das mulheres em músicas sertanejas.
Realização de oficinas com jogos pedagógicos:
- Emancipação: jogo de baralho cooperativo, criado por Valeska Zanello, que possibilita identificar e nomear violências de gênero em diferentes situações.
- Memorelas: jogo da memória que apresenta biografias e curiosidades de mulheres inspiradoras.
- No caminho do Feminismo: jogo que problematiza mitos e verdades sobre a história da luta feminista, enfrentando estereótipos e preconceitos.
Um livro de bolso baseado em outra publicação chamada Saúde mental, gênero e dispositivos, que apresenta indicações de vídeos, artigos, além de ilustrações de exemplos cotidianos.
Dificuldades encontradas
Os desafios enfrentados ao longo da experiência envolveram machismo e preconceito. A ação ocorreu em uma cidade do interior do Tocantins, com forte presença religiosa e conservadora, o que gerou resistência à atuação de uma professora feminista comprometida com a conscientização social.
Após quatro meses na escola, fui ameaçada por um estudante e seu responsável, o que resultou na minha remoção para outra instituição, sob a alegação de que eu não era uma profissional qualificada e de que abordava temas associados à “ideologia de gênero”. Diante disso, compreendi a necessidade de conhecer e me aprofundar na comunidade, suas necessidades, saberes e cultura local.
Nesse contexto, busquei apoio no CREAS e na Secretaria da Mulher, além de desenvolver ações multiculturais, como o Agosto Lilás, realizadas de forma interdisciplinar com a equipe de Linguagens, envolvendo Educação Física, Artes e outras áreas, e com a participação da comunidade, especialmente dos responsáveis.
Principais aprendizagens
Essa experiência provocou a equidade no espaço escolar; ou seja, mais diálogo, escuta e acolhimento dos estudantes, especialmente a ter mais debates sobre gênero, conscientização a respeito dos vários tipos de violência, como identificar e denunciar.
Além disso, o incentivo a leitura de livros sobre mulheres (literatura negra e indígena) a promoção do protagonismo juvenil e a conscientização social sobre qualquer tipo de preconceito e o incentivo a iniciação científica na Educação Básica. Em suma, acredito que os estudantes adquiram consciência sobre a importância do combate às violações dos direitos humanos, compreenderam os desafios enfrentados pelas mulheres e possibilitaram a oportunidade de serem agentes de mudança em sua comunidade colaborando para uma educação libertadora, consciente e livre de preconceitos. Eu gostaria de ter desenvolvido mais oficinas em outras escolas da região (mais a falta de recursos foi um dos impedimentos).
Referências bibliográficas
AUSTIN, John Langshaw. Quando dizer é fazer: palavras e ação. Tradução de Danilo Marcondes de Sousa Filho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues (Org.). Pesquisa participante. São Paulo: Brasiliense, 2001.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues; BORGES, Maristela Corrêa. A pesquisa participante: um momento da educação popular. Revista de Educação Popular, v. 6, n. 1, p. 51-62, jan./dez. 2007.
BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha.
BRASIL. Presidência da República. Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Instrumentos Internacionais de Direitos das Mulheres. Brasília: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2006b. 260p. (Série Documentos)
BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Mapa da Violência, Caderno Complementar 1: Homicídios de Mulheres no Brasil. 2012. Disponível em: <https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-portemas/politicas-para-mulheres/arquivo/assuntos/violencia/pesquisas-e-publicacoes>. Acesso em: agosto de 2023.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.
BRASIL. Lei nº 14.986, de 25 de setembro de 2024, (Lei da Inclusão das Perspectivas Femininas nos Currículos Escolares).
DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. Introdução: a disciplina e a prática da pesquisa qualitativa. In: DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. (org.). O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 15-41.
DINIZ, Debora. Reflexões sobre o ato de educar: educação e humanização. Revista Educação Pública, 2014.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: FBSP, 2024.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
MOITA LOPES, Luiz Paulo da. Contextos institucionais em Linguística Aplicada: novos rumos. Intercâmbio, v. 5, p. 3-14, 1996.
PENNYCOOK, Alastair. A linguística aplicada dos anos 90: em defesa de uma abordagem crítica. In: SIGNORINI, Inês; CAVALCANTI, Marilda do Couto (org.). Linguística Aplicada e transdisciplinaridade. Campinas: Mercado de Letras, 1998. p. 23-49.
PINTO, Joana Plaza. Ler e escrever sobre corpos: metodologia feminista para letramento de jovens. Cadernos de Pesquisa, v. 41, p. 538-558, 2011.
PORTELLA, Ana Paula; GOUVEIA, Taciana. Introdução: feminismo, educação e gênero. In: ______. Ideias e dinâmicas para trabalhar com gênero. Recife: SOS Corpo – Gênero e Cidadania, 1999.
SILVA, Paula de Almeida. Gênero, raça, classe e letramento: a resistência de jovens mulheres por meio da fala e da escrita. 2018. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2018.
STROMQUIST, Nelly P. Women’s empowerment and education: linking knowledge to transformative action. European Journal of Education, v. 50, n. 3, p. 307-324, 2015.
TOCANTINS. Documento Curricular do Território do Tocantins – DCT/TO, etapa Ensino Médio, instituído pela Resolução CEE nº 108 de 21 de junho de 2022.
TOCANTINS. Documento Orientador Técnico Complementar. Etapa Ensino Médio, 2023.
TOCANTINS. Quero Integral. Ensino Médio Integral. Disponível em: https://querointegral.org/to/. Acesso em 04 de nov de 2024.
