Inglês para transformação: identidade, interseccionalidade e cidadania na EJA
Estado: São Paulo (SP)
Etapa de Ensino: Ensino Fundamental II
Modalidade: Educação de Jovens e Adultos
Disciplina: Inglês
Formato: Presencial
[Não enviada].
Sobre a experiência
Este relato de prática apresenta uma sequência didática de Inglês na Educação de Jovens e Adultos (EJA), ancorada na Linguística aplicada crítica e no Multiletramento engajado e na Pedagogia engajada. A proposta articulou temas como identidade, interseccionalidade, documentos oficiais e cidadania, explorando as “identidades sociais de raça, gênero, sexualidade e classe” (FERREIRA, 2015). Por meio de atividades dialógicas, uso de Inteligência Artificial e análise crítica de textos curtos e vídeos, os estudantes ampliaram o repertório linguístico e refletiram sobre desigualdades sociais. A prática reafirma o ensino de inglês como ferramenta de transformação, mobilização social e reconhecimento identitário.
Atores envolvidos
Professora, estudantes e comunidades escolar.
Relato de experiência
Este relato de prática apresenta uma experiência pedagógica desenvolvida nas aulas de Língua Inglesa na Educação de Jovens e Adultos (EJA), último ano do Ensino Fundamental Anos Finais, no primeiro semestre de 2025 nos cursos noturnos de uma instituição privada de ensino em São Paulo. A proposta nasce da compreensão de que o ensino de Inglês na EJA não pode se restringir ao ensino gramatical descontextualizado, precisa dialogar diretamente com as realidades sociais, culturais e identitárias vividas pelos estudantes.
A justificativa para essa abordagem fundamenta-se na concepção de linguagem como prática social (RAJAGOPALAN, 2003), que postula que ensinar inglês é também intervir criticamente na realidade. Inspirada na Pedagogia engajada de bell hooks (2020) e nas reflexões de Liberali (2012) sobre Multiletramento engajado, a sequência didática foi construída para ampliar as possibilidades de participação cidadã dos estudantes, promovendo uma aprendizagem que integra linguagem, identidade, direitos e justiça social.
O contexto sociocultural da turma é marcado por grande diversidade, com estudantes negros, brancos, mulheres cis e trans, pessoas LGBTQIAPN+, trabalhadoras e trabalhadores etc. As reflexões de Ferreira (2015) sobre as “identidades sociais de raça, gênero, sexualidade e classe” direcionaram a escolha dos temas, que foram trabalhados de maneira interseccional.
A sequência iniciou-se com a construção de uma comunidade, a partir de bell hooks. Nessa atividade, o educador se coloca como parte da comunidade, ensinamos-aprendemos juntos. Nos ouvimos, nos acolhemos, trazemos nossas expectativas e vivências. Em seguida, cantamos We are family da Sister Sledge (1979), somos uma comunidade, somos nós.
Na sequência, discutimos identidades e fizemos a leitura de passaportes, articulando o conteúdo linguístico com a discussão sobre o direito ao nome social e os desafios enfrentados por pessoas trans e não-binárias em processos burocráticos, tanto no Brasil quanto em países de língua inglesa. Seguindo uma metodologia dialógica e participativa, os estudantes foram convidados a refletir sobre suas próprias trajetórias e os marcadores sociais que as atravessam. Aqui, discutimos os nossos nomes e a identidade que eles carregam, afirmando que nome não se traduz, soletramos nossa identidade.
Durante as aulas em que discutiamos os temas descritos, aprendíamos vocabulários em inglês, de forma situada com o contexto, ex: a sigla LGBTQIAPN+, vocabulário voltado às identidades de gênero, ex: transgerder woman, cis gender woman etc.
Na etapa seguinte, ampliou-se o escopo cultural da aula com uma análise crítica das múltiplas realidades para aquisição do documento, desigualdades étnico-raciais, de gênero e de classe entre o Norte e o Sul do país. Também foram introduzidos cinco países de língua inglesa, oficial (Estados Unidos da América, Reino Unido, Austrália, Índia e África do Sul) para permitir uma análise comparativa das diferentes formas de uso do inglês e das realidades sociais desses contextos nesses processos.
A interseccionalidade, conceito central da sequência, foi explorada através de atividades como a Privilege Race, promovendo um espaço de escuta, reconhecimento de privilégios e reflexão sobre desigualdades. Essa abordagem contribuiu para que os estudantes compreendessem as encruzilhadas sociais nas quais suas identidades estão inseridas.
Além disso, a Inteligência Artificial foi incorporada como ferramenta pedagógica para ampliar o acesso à compreensão de textos em inglês. Aplicativos de tradução, leitura assistida e recursos multimodais foram utilizados para apoiar o entendimento de conceitos como identidade e interseccionalidade, a partir de textos autênticos em inglês. Também houve discussões sobre autores como Kimberlé Crenshaw e Carla Akotirene, contextualizando o conceito de interseccionalidade tanto nos EUA quanto no Brasil.
A prática culminou na produção coletiva de materiais digitais com orientações para a obtenção de passaporte, troca de nome social, vistos, respeito às identidades e valorização das diferenças. O objetivo foi democratizar o acesso à informação e fortalecer a cidadania linguística e social da comunidade.
A abordagem interdisciplinar adotada rompeu com a concepção tradicional do ensino de língua estrangeira, que se restringe ao ensino descontextualizado de gramática e vocabulário. As práticas desenvolvidas evidenciam que a aprendizagem do inglês pode – e deve – dialogar com os saberes prévios, as vivências, os desejos e as necessidades concretas dos estudantes e da sociedade promovendo sua agência e o desenvolvimento de uma perspectiva crítica sobre o mundo.
Estratégias adotadas
- Organização de comunidade.
- Levantamento de referencial teórico.
- Consideração da diversidade da turma.
- Escolha temática.
- Uso de metodologias participativas.
Referências culturais
- Música e vídeo We are family, de Sister Sledge (1979). A música fala sobre a irmandade e a importância de estar junto. Dança com a turma.
- TEDx The urgency of intersectionality, de Kimberly Crenshaw (2016). A escritora discute o termo interseccionality. No vídeo, ela cita alguns nomes de homens negros e a maioria da audiência os conhece em detrimento das mulheres negras. Então, a autora discute como as opressões operam na vida das pessoas dependendo do local social que estão.
- Vídeo do Canal da Gabriella Lohan. A apresentadora, uma mulher trans, explica como é o processo atual para pessoas trans que queiram trocar seus nomes e os locais onde precisam ir.
- Trecho da entrevista com Carla Akotirene no programa Espelho, de Lázaro Ramos. A escritora explica no qual a escritora explica a interseccionalidade como uma encruzilhada analítica de experiências diferentes dependendo da sua identidade social de raça, gênero e classe.
- Vídeo da Privilege running, corrida na qual as pessoas caminham de acordo com características que são apontadas pelo mediador. A corrida ilustra como características socialmente construídas têm um papel fundante nas experiências de raça, gênero, classe etc. e determinam experiências sociais distintas.
Dificuldades encontradas
O ensino da Língua Inglesa na EJA apresenta desafios significativos, sendo o primeiro deles a percepção negativa que muitas estudantes têm sobre sua própria capacidade de aprendizagem. Por conta do preconceito linguístico ainda muito presente em nossa sociedade, muitas verbalizam frases como: “Se eu não sei nem o português, como vou aprender inglês?”
Diante desse cenário, a atividade inicial de construção de uma comunidade de aprendizagem torna-se fundamental. Esse momento é dedicado à escuta ativa, ao acolhimento e ao fortalecimento dos vínculos entre professora e estudantes.
Outro desafio enfrentado é a limitação de carga horária semanal destinada à disciplina de Língua Estrangeira Moderna. Essa realidade exige da educadora um planejamento cuidadoso.
Por fim, destaca-se a necessidade de lidar com a ansiedade – tanto da professora quanto das estudantes. É comum que haja uma expectativa irreal de que, ao final das aulas, todas estarão fluentes no idioma. Por isso, é importante reforçar constantemente o objetivo do ensino de inglês na EJA: proporcionar um espaço de construção de conhecimentos significativos, conectados às realidades sociais, culturais e identitárias das alunas e alunos, ampliando suas possibilidades de leitura crítica e atuação no mundo.
Principais aprendizagens
Além de ampliar o repertório linguístico, a sequência didática possibilitou reflexões profundas acerca das desigualdades sociais e dos múltiplos marcadores que atravessam a constituição das identidades, tanto no Brasil quanto em outros contextos internacionais. A incorporação de tecnologias digitais e ferramentas de Inteligência Artificial não apenas potencializou a aprendizagem, como também contribuiu para superar barreiras de acesso à informação, ampliar a mobilidade social dos estudantes e facilitar a comunicação nas redes sociais e outros locais.
Em suma, esta prática reafirma a relevância de uma educação para jovens e adultos que seja inclusiva, situada, politicamente engajada e linguisticamente significativa.
Ensinar inglês, nesse contexto, equivale a fomentar a formação de sujeitos críticos, conscientes de seu papel como agentes de transformação em suas comunidades e no mundo.
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