Beleza sob uma perspectiva crítica e afrocentrada: efetivando a Lei 11.645/2008

Estado: Minas Gerais (MG)

Etapa de Ensino: Ensino Fundamental I

Modalidade: Educação Regular

Disciplina: Filosofia

Formato: Presencial

Dyeinne Fernandes é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGPsi), na linha de Processos Psicossociais em Saúde e Educação. É graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Possui experiência em docência como professora substituta no Colégio de Aplicação Escola de Educação Básica da Universidade Federal de Uberlândia (CAp ESEBA-UFU). Além disso, realiza atendimentos de psicoterapia e orientação profissional e de carreira na clínica particular.

Objetivos


  • Discutir os padrões de beleza a partir de uma perspectiva crítica e afrocentrada, promovendo a valorização da diversidade estética.

  • Refletir com os alunos, a partir do curta-metragem “Hair Love”, sobre a identidade afro-brasileira.

  • Apresentar as diferentes texturas de cabelo e ajudá-los a reconhecer qual é o seu tipo de cabelo.

  • Valorizar a estética negra e os diferentes cortes de cabelo.

Conteúdo


  • O belo: padrões de beleza humana e suas implicações sociais.

  • Autoimagem.

  • Autoestima

  • Questões étnico-raciais.


Curta-Metragem Hair Love escrito, produzido e dirigido pelo norte-americano Matthew A. Cherry (2019).



O curta Hair Love narra a história de Zuri, uma menina que quer estar linda para um momento muito especial: a visita à sua mãe, que está internada no hospital. Para isso, ela precisa lidar com o desafio de arrumar seu cabelo, que parece ter vida própria. Seu pai aceita a missão e, juntos, eles buscam inspirações, vivendo momentos de afeto e diversão. O filme valoriza a estética negra e a presença paterna, contribuindo para a construção de uma identidade negra forte e representativa.

  1. Desconstrução de padrões de beleza eurocêntricos


O curta-metragem tem como protagonista uma menina negra, contrastando com as representações que costumamos ver na grande mídia. A estética negra é retratada de forma positiva: o cabelo é descrito como um lutador, forte e destemido.

Nesse contexto, o(a) educador(a) pode estimular os estudantes a refletirem sobre como gostam de usar seus cabelos e sobre as referências de beleza que os inspiram, promovendo, especialmente, um olhar mais atento à estética capilar associada a pessoas pardas e negras. Na educação básica, esse debate contribui para que meninas e meninos não brancos reconheçam a pluralidade de belezas e se libertem de estigmas relacionados à textura natural de seus cabelos.

  1. Afirmação da identidade e do pertencimento


Ao abordar a beleza natural no ambiente escolar, realiza-se um trabalho preventivo e fundamental para a construção de uma identidade étnico-racial positiva. Apresentar diferentes referências estéticas e valorizar a beleza afro-brasileira contribui para o fortalecimento da autoestima de meninas e meninos negros e não brancos, ao mesmo tempo que ensina todas as crianças a reconhecer, valorizar e respeitar a diversidade.

  1. Incorporação de práticas pedagógicas antirracistas


A partir da discussão do curta-metragem Hair Love, professores podem desenvolver atividades que valorizem a cultura afro-brasileira e africana, contribuindo para o cumprimento da Lei nº 11.645/2008, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana.

  1. Discussão sobre liberdade e Direitos Humanos


A ideia de que o cabelo também é uma forma de expressão e de que a liberdade estética é um direito humano ajuda a promover, na escola, o respeito às escolhas pessoais. Esse debate estimula a compreensão sobre a diversidade e o direito à diferença, aspectos fundamentais para a promoção de uma educação antirracista.

Metodologia

Semana 1:

Exibição do curta Hair Love (2019) ou contação da história, que também foi publicada em livro com o nome Amor de Cabelo (2020).

Após a apresentação da obra, realize uma roda de conversa:

  • O que você entendeu da história de Zuri?

  • Por que ela queria se arrumar para encontrar a mãe?

  • Como é o seu cabelo? Às vezes você sente que ele tem vida própria?

  • Como é para você arrumar o seu cabelo?

  • Qual estratégia a personagem adota para se arrumar e encontrar a mãe? E você, onde encontra inspirações de beleza?


A animação retrata a situação de forma engraçada e positiva, com muito afeto e cuidado. É importante, para a proposta, que a educadora ou educador estude sobre letramento racial, reveja preconceitos e estereótipos de gênero e esteja sensível a como essas questões surgem (BRASIL, 2004; GADSON e LEWIS, 2022; FRANCESCHI e SANTOS, 2022).

Para Dias e Eugênia (2024, p. 36), “ajustar-se a um padrão de beleza imposto e negar sua própria beleza é uma forma muito eficiente de construir uma autoimagem negativa e conflitante com seus próprios corpos”, e essa questão não depende da textura do cabelo do indivíduo.

Semana 2:

Apresentar a diversidade de tipos de cabelos. Retomar os tópicos abordados na última aula, sintetizando a diferença que fez na vida da personagem conhecer outras formas de usar seu cabelo para se sentir bonita e confiante.

Introduzir, a partir da obra, a identidade afro-brasileira e as questões étnico-raciais, destacando que essa diversidade ocorre porque o Brasil é formado por diferentes grupos étnico-raciais, descendentes de africanos, europeus, asiáticos e povos indígenas. Cada um desses grupos possui características distintas, como a cor da pele, o cabelo, o idioma, entre outros aspectos.

Para facilitar a compreensão das crianças, preparar projeções de imagens apresentando os quatro tipos de cabelos:

  1. Cabelos lisos

  2. Cabelos ondulados

  3. Cabelos cacheados

  4. Cabelos crespos


Cada tipo de cabelo é subdividido em três formas de textura: A, B e C, de acordo com a curvatura do fio (ANJOS, 2017).

Apresentar as características de cada tipo de cabelo e ilustrar com representações de celebridades conhecidas pelas crianças.

Como atividade, incentive as crianças a descobrirem qual é o seu tipo de cabelo. Ressalte que a beleza está na diversidade de cabelos, texturas e formas. Sugestões de perguntas orientadoras:

  • Como seria o mundo se todas as pessoas fossem iguais? O que seria legal e o que seria chato?

  • Por que é importante que cada pessoa seja diferente?

  • O que você mais gosta nas diferenças entre as pessoas?


Semana 3:

Explorar padrões de beleza não brancos.

Faça uma busca dos cortes de cabelo mais populares entre meninos e meninas com cabelo cacheado e crespo. Ter referência para cortar o cabelo é sempre um desafio para quem não tem cabelo liso ou ondulado, e isso pode ser compreendido como reflexo do racismo estrutural, que sistematicamente reforça os padrões de beleza da branquitude. Nesse momento, também é possível inserir símbolos da cultura negra, como o pente garfo e as tranças estilo nagô, usadas tanto por homens quanto por mulheres (FERREIRA, 2024).

Para finalizar esse conteúdo, proponha que as crianças criem personagens usando a estética afro-brasileira e pintem as personagens. Pesquise desenhos de diferentes corpos e penteados com cabelo natural, faça cópias e distribua para que as crianças possam visualizar e explorar a estética afro-brasileira. A ideia é que elas pintem o corpo, escolham o cabelo que mais gostaram, recortem e montem a personagem.

Evite apresentar imagens com cabelos do tipo 1 e 2. Embora essas sejam possibilidades, esta proposta busca valorizar a liberdade estética e a construção de uma aceitação natural dos cabelos cacheados e crespos para crianças não brancas, além de permitir que crianças brancas admirem outras belezas.

Por fim, realize uma exposição dos personagens criados pelas crianças, para que todos possam apreciar as produções.

Recursos Necessários


  • Estudar sobre letramento racial.

  • Aparelho para reprodução de vídeo ou exemplar do livro Amor de Cabelo.

  • Preparar apresentação dos tipos de cabelos, características e exemplos.

  • Buscar os cortes de cabelo mais populares de cabelo cacheado e crespo.

  • Fazer cópias de corpos e penteados com cabelo natural dos tipos 3 e 4.

  • Giz ou lápis de cor com diferentes tons de pele.

  • Cola e tesoura.

Duração Prevista

3 semanas (encontros de 1h).

Processo Avaliativo

A avaliação da proposta pode ser realizada por meio da participação oral em sala de aula, durante a roda de conversa e nos momentos de partilha, assim como pelo envolvimento com a produção da atividade solicitada e pelo produto final apresentado.

Observações

Essa proposta foi realizada, no ano de 2024, com turmas do 2º ano do Ensino Fundamental. Os alunos se mostraram bastante engajados durante a roda de conversa, especialmente pela oportunidade de falar sobre um tema presente em seu cotidiano. Também participaram ativamente da atividade de identificação do seu tipo de cabelo e demonstraram grande interesse quando foram apresentados os cortes de cabelo, principalmente os meninos, devido às referências que envolviam jogadores de futebol.

Referências Bibliográficas

BRASIL. Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. Brasília: MEC/SEPPIR, 2004.

BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena". Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 145, n. 48, p. 1, 11 mar. 2008.

CHERRY, M. A. Amor de cabelo. Rio de Janeiro: Galerinha, 2020.

DE ALENCAR, M. G.. As leis 10.639/2003 e 11.645/2008 na prática educacional do ensino básico brasileiro. CIET: EnPED, São Carlos, jun. 2018. Disponível em:  https://cietenped.ufscar.br/submissao/index.php/2018/article/view/826. Acesso em: 20 mar. 2026..

DIAS, L. O.; EUGÊNIA, S. F. Por entre cores e texturas: transição capilar como uma questão de liberdade estética, identidade racial e direitos humanos. In: Direitos humanos em perspectiva antirracista. Cegraf UFG, 2024. p. 25-56

FERREIRA, C. Trança nagô é tendência para o Carnaval; conheça outros 5 modelos. CNN Brasil, São Paulo, 2 fev. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/lifestyle/tranca-nago-e-tendencia-para-o-carnaval-conheca-outros-5-modelos/. Acesso em: 20 mar. 2026.

FRANCESCHI, N. C. S.; SANTOS, D. K. Efeitos dos padrões estéticos da branquitude e do racismo nas experiências de mulheres negras. Nova Perspectiva Sistêmica, v. 31, n. 72, p. 82-99, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.38034/nps.v31i72.663. Acesso em: 20 mar. 2026.

GADSON, C. A.; LEWIS, J. A. Devalued, overdisciplined, and stereotyped: an exploration of gendered racial microaggressions among black adolescent girls. Journal of counseling Psychology, v. 69, n. 1, p. 14-26, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1037/cou0000571. Acesso em: 20 mar. 2026.

MARINA SALVUCCI LIRA. Amor ao cabelo. Youtube, 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-4htxN0lAQ4. Acesso em 20 mar. 2026.

SONY PICTURES ANIMATION. Hair Love. Youtube, 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kNw8V_Fkw28&t=35s. Acesso em: 20 mar. 2026.

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