Sexualidade, Identidade e Inclusão: Uma Prática de Extensão nas Escolas

Estado: Minas Gerais (MG)

Etapa de Ensino: Ensino Fundamental II

Modalidade: Educação Regular

Disciplina: Biologia, História

Formato: Presencial

Professora do Departamento de Biofísica e Fisiologia da UFJF. É ex-coordenadora do projeto de extensão Fisiodivulgando, no qual atuou na oficina de “Educação em Sexualidades”. Até 2024, atuou como coordenadora do Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual (NGDS), vinculado à Superintendência de Inclusão, Políticas Afirmativas e Diversidade (SIPAD).

Resumo da experiência

O projeto de extensão Fisiodivulgando vem desenvolvendo, em diversos espaços educacionais, uma oficina de Educação em Sexualidades voltada para estudantes do ensino fundamental e médio.

 

Nela, os alunos participam de uma dinâmica em estações rotativas, onde são discutidos diversos temas, como aspectos histológicos, anatômicos e fisiológicos do sistema reprodutor, infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), métodos anticoncepcionais, pobreza menstrual, além de tópicos relacionados à identidade de gênero e orientação sexual.

 

O principal objetivo da oficina é promover uma educação integral em sexualidade, em consonância com as orientações da UNESCO. Buscamos não apenas abordar os aspectos biológicos da sexualidade, mas também valorizar a diversidade e combater a LGBTQIA+fobia. A estação descrita aqui aborda conceitos básicos sobre identidade de gênero e orientação sexual, pela contação de histórias e do uso de imagens que representam pessoas pertencentes à comunidade LGBTQIA+.

Atores envolvidos?

  • Os atores envolvidos são:
  • Docente de fisiologia do ensino superior;
  • Alunos de graduação de diversos cursos, como ciências biológicas, farmácia, fisioterapia e enfermagem, que atuam como monitores;
  • Turmas de alunos do ensino fundamental II ou ensino médio;
  • Professor de ciências e/ou biologia no ensino fundamental

Sobre a experiência

Esta experiência teve início como uma atividade organizada para a 75ª Reunião Anual da SBPC, quando a UFPR recebeu a visita de diversas escolas ao seu campus.

 

Dado o sucesso obtido na ocasião, a atividade passou a ser replicada em escolas, por meio do projeto de extensão Fisioldivulgando. A oficina é composta por estações temáticas, oferecendo aos estudantes 10-15 minutos de interação com conteúdos diversos. Algumas estações abordam aspectos anatômicos e histológicos do sistema reprodutor, outras tratam de métodos contraceptivos, infecções sexualmente transmissíveis, pobreza menstrual e, por fim, há a estação discutida neste relato, que trata de identidade de gênero e orientação sexual. Todas as estações utilizam atividades pedagógicas lúdicas, com jogos e dinâmicas.

 

Optamos por ir além do perfil tradicional da educação sexual, que costuma se restringir aos aspectos corporais e biológicos. Assim, integramos também questões de cunho social, como a pobreza menstrual, os papéis de gênero e a influência da cultura sobre a forma como percebemos o corpo e a sexualidade.

 

Desde a concepção dos materiais utilizados, evitamos os termos “sistema reprodutor feminino” ou “masculino”, adotando expressões como “sistema reprodutor XX e XY” e “pessoas com pênis” e “pessoas com vagina”, buscando uma abordagem mais inclusiva.
Nesta estação iniciamos com uma conversa sobre os papéis de gênero e os elementos culturais que os compõem.

 

A atividade é centrada na contação de histórias, feita em grupos de cinco alunos. A primeira imagem apresentada é de um chá de bebê atual, com as cores rosa e azul. A maioria dos adolescentes reconhece imediatamente o contexto da imagem, o que abre espaço para uma discussão crítica. Em seguida, mostramos duas pinturas: um menino vestindo rosa e uma menina com roupas azuis, para ilustrar como as normas de gênero variam de acordo com a época, a classe social e a cultura.

 

Também apresentamos imagens de nobres franceses, de um samurai japonês e de um faraó egípcio, com o objetivo de questionar estereótipos relacionados a cabelo comprido, maquiagem, laços e salto alto — elementos que nem sempre foram associados ao feminino.

 

A conversa prossegue com a exibição de uma fotografia do século XIX de We-Wha, uma indígena norte-americana identificada como “dois-espíritos”. A partir dessa foto, indagamos: quem seriam os “dois espíritos” em nossa sociedade? Esse é o ponto de partida para discutir como pessoas LGBTQIA+ sempre existiram em todas as culturas e povos ao redor do mundo, sendo acolhidas e valorizadas em diversas sociedades.

 

Na sequência, mostramos fotos da cantora Ludmilla e do ator Paulo Gustavo, ambos pessoas conhecidas com famílias homoafetivas. Apresentamos os conceitos de orientação sexual, explicando os termos homossexual, heterossexual, gay, lésbica e bissexual.

 

 

Uma das histórias apresentadas é a da atleta sul-africana Caster Semenya, corredora recordista olímpica que enfrentou polêmicas ao ser identificada como uma pessoa intersexo. Essa história introduz o conceito de intersexualidade e promove a reflexão de que pessoas LGBTQIA+ não escolhem ser quem são — assim como ninguém escolhe as próprias características ao nascer.

 

 

 

Finalizamos a atividade com uma conversa sobre os impactos do preconceito vivido por essas pessoas e sobre a importância da empatia, do respeito e da valorização da diversidade em nossa sociedade.

Estratégias adotadas

Usamos recursos visuais, fotos, imagens, a contação de histórias e a dialogicidade. As histórias colorem a vida e nos aproximam de realidades mesmo que a primeira vista muito distantes das nossas. É uma ferramenta poderosa, que prende a atenção e ensina pela emoção.

Sobre a referência cultural

  • Quadros: “Young Boy with Whip”(tradução: Menino com chicote), c. 1840, autor anônimo, Museu de Arte de Honolulu, EUA. “Retrato de uma menina vestida de azul”, 1641, Johannes C. Verspronck, Rijksmuseum, Holanda. Fotografia: “We-Wha in Female Native Dress with Squash Blossom Necklace”, 1884-1897, John Hillers, Amon Carter Museum of American Art, EUA.

 

As pinturas mostram retratos de crianças, provavelmente de famílias abastadas, vestidas com suas melhores roupas, talvez com função figurativa ou comemorativa. Já a fotografia de um indígena norte-americano do século XIX, feita em um tempo em que retratos eram raros e caros, provavelmente buscava registrar algo considerado “exótico”, refletindo uma visão colonizadora ainda presente na forma como certas identidades são representadas. A descrição da foto na coleção do museu evidencia isso: “We-Wha em traje nativo feminino com colar de flor de abóbora”.

 

As pinturas são retratos de duas crianças — um menino e uma menina — realizados há alguns séculos, que demonstram como, até o início do século XX, o rosa era considerado uma cor viril, pois seu corante era mais caro e tradicionalmente reservado aos meninos. Já o azul, por sua associação ao manto da Virgem Maria, era utilizado para vestir meninas. Essa lógica de cores foi invertida ao longo do tempo por motivos comerciais. Os adolescentes costumam se surpreender ao perceber que se trata de uma norma social construída historicamente — e não de uma verdade “natural” ou imutável.

A fotografia, também bastante antiga, é de uma pessoa notória dois espíritos da tribo Zuni, e é utilizada como ponto de partida para refletir sobre o fato de que pessoas da comunidade LGBTQIA+ sempre existiram. A imagem ajuda a dar rosto à história e estimula a imaginação dos alunos, reforçando a ideia de que a diversidade de identidades e expressões de gênero faz parte da humanidade desde seus primórdios.

Dificuldades encontradas:

A maior dificuldade enfrentada pelo grupo de extensão foi o receio quanto à reação dos alunos, de seus responsáveis e da própria escola, considerando o atual contexto de pânico moral e disseminação de fake news sobre a educação integral em sexualidade. No entanto, a oficina sempre foi muito bem avaliada pelos estudantes e nunca houve qualquer incidente.

 

Fora algumas piadas e brincadeiras esperadas em turmas de adolescentes, a contação de histórias ocorre sem problemas. Apenas uma vez, um aluno evangélico se manifestou contra a chamada “ideologia de gênero”, mas a docente respondeu com base na legislação vigente, lembrando que a homofobia é crime e que a educação sexual é reconhecida como um direito humano por diversas organizações e tratados internacionais.

Principais aprendizagens

Acredito que o primeiro e mais valioso aprendizado para mim, enquanto integrante de um grupo de extensão, foi vencer o medo diante do pânico moral e perceber que é possível construir, com firmeza e afeto, uma educação popular e libertadora. Todas as nossas visitas tem sido em escolas públicas. Mesmo em um estado historicamente conservador do Sul, nossa atuação tem sido bem-sucedida, fortalecendo a confiança de todos os envolvidos no processo.

 

Outro aprendizado importante veio do próprio grupo — formado por docentes e estudantes de graduação — que, assim como os alunos das oficinas, passou a compreender melhor os significados da sigla LGBTQIA+ e a refletir, muitas vezes pela primeira vez, sobre a importância da linguagem inclusiva e dos papéis de gênero. Ao longo do caminho, erros acontecem, pois o binarismo biológico ainda está profundamente arraigado. Mas, como diria o saudoso Chico Science: “um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar.”

Referências Bibliográficas

BRASIL. Caderno LGBTQIA+ Cidadania, vol. 1: Promoção e defesa dos direitos das pessoas LGBTQIA+. Brasília: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/lgbt/campanhas-lgbtqia/lgbtqia-cidadania/publicacoes/cardeno_lgbtqia-cidadania_vol-1_-promocao-e-defesa-dos-direitos-das-pessoas-lgbtqia.pdf. Acesso em: 1 jun. 2024.

 

CÉSAR, M. R. A.; DUARTE, A. Educação sexual e “ideologia de gênero”: a construção do pânico moral. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 33, n. 66, p. 141–158, 2017. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/pdf/er/v33n66/0104-4060-er-33-66-141.pdf. Acesso em: 7 jul. 2024.

 

GRUPO DIGNIDADE. Manual de educação LGBTI+. Curitiba: Grupo Dignidade, 2023. Disponível em: https://cedoc.grupodignidade.org.br/enciclopedia-lgbti/02-manual-de-educacao-lgbti/. Acesso em: 20 jul. 2024.

 

HILLERS, John K. We-Wha in female native dress with squash blossom necklace. Amon Carter Museum of American Art. Disponível em: https://www.cartermuseum.org/collection/we-wha-female-native-dress-squash-blossom-necklace-p19672265. Acesso em: 10 jun. 2025.

 

LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da sexualidade. In: LOURO, Guacira Lopes (org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 4. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. p. 33.

 

PRUDEN, Harlan; EDMO, Se-ah-dom. Two-Spirit People: Sex, Gender & Sexuality in Historic and Contemporary Native America. National Congress of American Indians, 2016. Disponível em: https://archive.ncai.org/policy-research-center/initiatives/Pruden-Edmo_TwoSpiritPeople.pdf. Acesso em: 11 jun. 2025.

 

SOCIOLOCUS. Dois espíritos: gênero em algumas sociedades indígenas americanas. Sociolocus, 22 out. 2017. Disponível em: https://sociolocus2.wordpress.com/2017/10/22/dois-espiritos-genero-em-algumas-sociedades-indigenas-americanas/. Acesso em: 13 jun. 2025.

 

UNESCO. Orientações técnicas internacionais sobre educação em sexualidade: uma abordagem baseada em evidências. Paris: UNESCO, 2018. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/in/documentViewer.xhtml?v=2.1.196&id=p::usmarcdef_0000369308&file=/in/rest/annotationSVC/DownloadWatermarkedAttachment/attach_import_c8f60111-c183-4084-8a5c-fd097b5e5369%3F_%3D369308por.pdf. Acesso em: 19 jul. 2024.

 

UNKNOWN ARTIST. Young boy with whip, ca. 1840. Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:American_School,_Young_Boy_with_Whip,_ca._1840.jpg. Acesso em: 12 jun. 2025.

 

VERSPRONCK, Yohannes C. Portret van een meisje in het blauw, 1641. Rijksmuseum, Amsterdam. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Girl_in_a_Blue_Dress#/media/File:Portret_van_een_meisje_in_het_blauw_Rijksmuseum_SK-A-3064.jpeg. Acesso em: 12 jun. 2025.

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