Cartografias da (r)existência
Estado: Mato Grosso (MT)
Etapa de Ensino: Ensino Médio
Modalidade: Educação Regular
Disciplina: Artes, Sociologia
Formato: Presencial
Doutoranda em Estudos de Cultura Contemporânea (UFMT), pesquisa (r)existências femininas na vida cotidiana a partir de epistemologias feministas, cartografia e autoetnografia. Mestre em Educação, pedagoga e socióloga, atua na formação docente, na gestão de projetos educativos e culturais, com ênfase em gênero, cultura e produção de saberes situados.
Objetivos
- Promover a reflexão crítica sobre as normas de gênero a partir da experiência sensível com o corpo e o território, utilizando práticas cênicas e cartográficas como linguagens pedagógicas interdisciplinares entre a Sociologia e as Artes.
- Estimular a escuta de vivências e narrativas corporais que revelam desigualdades e (r)existências de gênero no cotidiano;
- Desenvolver a capacidade de análise sociológica dos marcadores de gênero, raça e classe presentes nas relações escolares e territoriais;
- Utilizar práticas de sensibilização, performance e cartografia afetiva como dispositivos para expressão, criação e ressignificação dos corpos na escola;
- Incentivar a produção coletiva de cenas, registros e partilhas que visibilizem experiências silenciadas ou normatizadas pelas estruturas escolares.
Conteúdo
- Gênero, corpo e território como categorias de análise sociológica.
- Normas e violências de gênero no espaço escolar e comunitário.
- Performance e cartografia como formas de expressão e investigação social.
Referência cultural:
O Caminho das mulheres: cartografias da (r)existência, de Aline Velozo.
Pesquisa de doutorado em desenvolvimento na UFMT que articula performance situada, cartografia afetiva e epistemologias feministas para escutar e visibilizar gestos de resistência de mulheres em territórios urbanos.
A pesquisa O Caminho das mulheres: cartografias da (r)existência investiga gestos micropolíticos de mulheres que tensionam normas de gênero na vida cotidiana. A partir de performances situadas, cartografias afetivas e escutas sensíveis, a pesquisa propõe visibilizar narrativas que emergem do corpo como território de memória, criação e resistência, com o objetivo de produzir outras formas de saber e existir nos espaços urbanos e educativos.
A pesquisa está inserida na metodologia como eixo estruturante da proposta, orientando tanto o percurso pedagógico quanto os dispositivos de escuta, criação e análise. Trata-se de uma pesquisa situada que articula corpo, território e gênero a partir da vivência com mulheres em contextos urbanos e educativos, por meio de práticas como a cartografia afetiva, a autoetnografia e a performance situada. Esses procedimentos metodológicos são adaptados à educação básica para favorecer experiências sensíveis de leitura e expressão das normas de gênero que atravessam o cotidiano escolar.
Na prática, a pesquisa contribui para o debate de gênero ao deslocar o foco das abordagens normativas para uma pedagogia que parte da escuta dos corpos e dos territórios. Ao propor a criação de mapas afetivos e cenas performativas baseadas nas vivências das estudantes, o corpo passa a ser reconhecido como lugar legítimo de saber. As estudantes são convidadas a refletir sobre como o gênero atua nas suas trajetórias — nos caminhos que percorrem, nos silêncios que enfrentam, nos espaços que ocupam ou evitam.
A experiência acumulada pela pesquisa mostra que quando a escola se abre à escuta das narrativas corporais e territoriais das alunas, cria-se um campo fértil para questionar desigualdades, elaborar vivências de dor e afirmar estratégias de (r)existência. A presença dessa referência cultural na metodologia oferece à educação básica ferramentas críticas, criativas e éticas para abordar o gênero de forma situada, respeitosa e implicada com a realidade das estudantes.
Metodologia
A cada encontro, os conteúdos serão abordados por meio de rodas de conversa, vivências cênicas, atividades de cartografia afetiva e produção colaborativa de cenas performativas. O percurso metodológico se inspira em abordagens feministas da educação e nas contribuições da cartografia enquanto método de pesquisa e intervenção pedagógica (Kastrup, 2009; Rolnik, 2006), priorizando a escuta dos afetos, a atenção aos territórios e a criação coletiva.
Etapas da atividade:
Roda de escuta e sensibilização corporal
O primeiro encontro será dedicado à criação de um ambiente seguro e horizontal, com acolhida das estudantes e apresentação do percurso. Serão propostas práticas de respiração, alongamento e escaneamento corporal, seguidas de uma roda de conversa sobre as sensações que habitam o corpo no cotidiano escolar e comunitário.
A mediação será feita com perguntas abertas e silenciosas, que convidem à escuta interna:
- Onde meu corpo é silenciado?
- Quais espaços eu evito ocupar?
- Onde me sinto inteira?
Cartografia corpo-território
No segundo encontro, será realizada uma atividade de cartografia afetiva. Cada estudante receberá uma folha com o contorno de um corpo e será convidada a marcar, com cores e palavras, os territórios do corpo que carregam memórias, tensões, violências e potências. A seguir, serão desenhados os trajetos que percorrem cotidianamente — da casa à escola, da escola ao bairro — mapeando onde se sentem vistas, julgadas, protegidas ou invisibilizadas.
Criação de cenas performativas
No terceiro e quarto encontros, o grupo será conduzido à criação de pequenas cenas corporais, baseadas nas cartografias construídas. As estudantes serão estimuladas a expressar gestos, posturas ou ações que traduzam suas experiências com as normas de gênero e os modos de resistir a elas. A mediação será feita com atenção ao desejo, ao cuidado com a exposição e ao reconhecimento do corpo como linguagem legítima.
Partilha e intervenção pedagógica
No último encontro, será realizada uma roda de partilha aberta à comunidade escolar. As estudantes poderão apresentar suas criações (cenas, textos, desenhos ou registros visuais) e convidar professoras/es, colegas e familiares para uma conversa sobre gênero, território e escola. A culminância poderá incluir uma pequena exposição, performance coletiva ou varal de narrativas visuais.
Ao longo de toda a sequência, o papel da/do educadora/or será o de mediador/a sensível e observador/a atento/a aos atravessamentos subjetivos, respeitando os ritmos do grupo e promovendo uma escuta ativa.
Será necessário refletir previamente sobre os seguintes pontos:
- Como acolher narrativas de dor sem reproduzir exposição?
- Como criar espaços seguros para expressão do corpo sem imposições estéticas ou disciplinares?
- Como articular o conteúdo sociológico à experiência concreta das estudantes, respeitando suas referências culturais e territoriais?
A metodologia proposta reconhece que o corpo é também texto e território, e que práticas artísticas situadas podem funcionar como dispositivo pedagógico para ler, narrar e transformar as experiências de gênero vividas pelas/os estudantes. Essa abordagem não tem por objetivo oferecer respostas, mas criar espaços de invenção coletiva e de ampliação da consciência crítica.
Recursos Necessários
- Papel A3 ou cartolinas (1 por estudante).
- Canetas coloridas, lápis de cor e giz pastel.
- Impressão do contorno de um corpo humano em folha A4.
- Aparelho de som ou caixa amplificadora.
- Músicas instrumentais para sensibilização corporal.
- Celular ou câmera para registros fotográficos (1 por grupo).
- Cadeiras organizadas em círculo.
Duração Prevista
A proposta pode ser desenvolvida ao longo de 1 a 2 semanas, conforme a organização do calendário escolar.
Processo Avaliativo
Referências Bibliográficas
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 25. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2019.
GONZÁLEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: GONZÁLEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
KASTRUP, Virgínia. O método da cartografia e os quatro planos da experiência. In: PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; ESCÓSSIA, Liliana. Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009.
ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.
SCOTT, Joan W. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 16, n. 2, p. 71–99, jul./dez. 1990. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/educacaoerealidade/article/view/71721. Acesso em: 31 maio 2025.
