Ações afirmativas na abordagem sobre gênero na Educação Infantil

Estado: Acre (AC)

Etapa de Ensino: Educação Infantil - Creche

Modalidade: Educação Regular

Disciplina:

Formato: Presencial

Sou Sheila Claro, turismóloga, historiadora, pedagoga, pós-graduada em docência e graduanda em Geografia. Desde 2017, atuo na rede municipal de São Paulo como professora de Educação Infantil. Ao longo dos anos, aprimoro minhas práticas pedagógicas, acreditando que a escuta ativa, a observação dos interesses das crianças e minha formação multidisciplinar possibilitam uma abordagem diversificada, promovendo um ambiente de aprendizagem acolhedor, valorizando pesquisa e exploração.

Sobre a experiência

O trabalho foi realizado com uma turma de Mini Grupo 2, composta por 18 crianças de 3 a 4 anos, e teve seu início ao perceber ações impeditivas de gênero em brincadeiras, exploração de materiais e escolha de cores. Por meio da escuta ativa, foram selecionadas vivências envolvendo múltiplas materialidades e recursos como: musicalização, vídeos, animações, brincadeiras, interações, entrevistas e literatura. Ampliações foram permitidas através de observações diante da pergunta: “Professora, quem pilota o avião é Deus?” Que nos permitiu aumentar nossos campos de investigações com recursos de vídeos sobre a atuação de homens e mulheres em diferentes profissões. Com a visita pedagógica à uma companhia aérea, pudemos apresentar para as crianças uma tripulação totalmente feminina e romper com estereótipos de gênero desmistificando a existência exclusiva de pilotos homens, contribuindo assim, para uma educação mais igualitária, inclusiva e respeitosa. Elas demonstraram que meninos podem usar rosa, cozinhar e brincar de boneca, e que meninas podem usar azul, dirigir e até pilotar um avião.

Atores envolvidos

Contamos com o envolvimento da comunidade escolar: desde a gestão que atuou na viabilização do transporte para o deslocamento das crianças até o aeroporto, a coordenadora pedagógica que acompanhou e contribuiu em suas devolutivas pareceres importantes para ampliação das propostas. As famílias que acompanharam as ações desenvolvidas compartilhando suas impressões e colaborando com as ampliações, além de demais profissionais do CEI que auxiliaram participando e permitindo a realização das ações.

Relato da experiência

Como professora responsável por este estudo, levantei questionamentos essenciais: Como o gênero se manifesta no CEI? Como os impedimentos e preconceitos de gênero impostos às crianças impactam suas experimentações? E, crucialmente, como abordar o gênero na educação infantil para desmistificar imposições do mundo adulto sobre corpos tão pequenos? A pesquisa considerou como ponto de partida para a tomada de decisões pedagógicas: o que se adequava à turma e os materiais disponíveis.

A metodologia empregada utilizou diversas estratégias para promover a equidade de gênero e a desconstrução de estereótipos.

Musicalização

A música foi um canal fundamental para a oferta de experiências. Canções e vídeos que rompem com estereótipos foram disponibilizados por meio de diversas plataformas. O destaque foi dado a obras como A Hora do Blec, com as músicas Qual o jeito Blec e Macarrão do papai, que apresentam a mulher no papel de provedora e o pai no cuidado doméstico.

A seleção de obras literárias com protagonistas femininas fortes, como Eu não sou todo mundo (Soraia Lima e Elder Galvão), A banda das meninas (Emília Nuñes), Pode pegar (Janaína Tokitaka), Eu os outros e todos nós (Jonas Ribeiro e Bill Borges) e Coisa de menina (Pri Ferreira), foi crucial para reforçar feitos femininos em prol de uma sociedade mais equitativa.

O vídeo Diário de Mika – Brinquedo de menino, que aborda a restrição da personagem Mika em brincar com carrinhos, foi utilizado como ponto de partida para levantar questionamentos com a turma. Perguntas como “Quem pode brincar de carrinho?” e “Vocês já viram mulher dirigir? Por que mulheres podem dirigir carros grandes e não podem brincar de carrinho?” foram provocadoras, ampliando a discussão e demonstrando a equidade de oportunidades entre meninos e meninas.

Representação visual e brincadeiras

A apresentação de imagens reais e a exposição de fotos de adultos e das próprias crianças nas paredes do CEI foram importantes para que elas se identificassem e refletissem sobre o que estava exposto, associando e relembrando das propostas. A demonstração de imagens de pessoas reais foi fundamental para a representação de ambos os gêneros usando azul ou rosa.

O futebol, por exemplo, foi utilizado como um caminho para naturalizar a brincadeira, convidando meninos e meninas a brincarem juntos. A desmistificação de esportes e profissões tradicionalmente associados a um único gênero, teve como objetivo permitir que os meninos conhecessem, experimentassem e sonhassem com esses lugares.

As brincadeiras foram projetadas para permitir que as crianças brincassem juntas sem restrições, seja com fantasias, bonecos, bonecas ou carrinhos, reforçando a importância do brincar em grupo para a aquisição de novos conhecimentos.

Acesso livre a materialidades e contextos de brincadeira

Foi essencial permitir que meninos e meninas tivessem acesso às materialidades sem restrições ou rótulos de “brinquedos de meninos” e “brinquedos de meninas”. A oferta de um dia específico para brincar com bonecos/super-heróis e a disponibilização exclusiva desses brinquedos, bem como a oferta de contextos com bonecas ou carrinhos no acolhimento matinal, e contextos com cozinha, panelas e talheres para a exploração conjunta de meninos e meninas, foram ações que visaram o brincar em conjunto, evitando distinções nas propostas que separam as crianças por gênero.

Visitas pedagógicas

As visitas pedagógicas foram consideradas um meio eficaz para proporcionar diferentes experimentações educacionais e ampliar aprendizados. Nessas visitas, o professor teve a oportunidade de realizar apontamentos relevantes para as crianças, como a observação de profissionais femininos em áreas que, eventualmente, não possuíam representação.

Estratégias adotadas

Para trabalhar o tema, foi preciso ouvir as crianças, pesquisar e estudar o que acontecia ao nosso redor e perceber sobre quais influências estávamos. Assim, trouxemos diversos temas para ampliação do repertório crítico das crianças e quebra de estereótipos.

Foram pensadas em propostas que propositadamente não necessitassem de muitos materiais, evitando inviabilidade de realização por indisponibilidade de recursos ou materialidades. Um dos caminhos, foi observar elementos do cotidiano, como perceber o pelo uso de camisas de times de futebol e o momento da realização da Copa do Mundo a preferência das crianças. Quando uma delas apontou que seu pai tinha o álbum de figurinhas da copa, lembrei que o time da Coreia do Sul estava representado nas figurinhas com o uniforme cor de rosa, permitindo contribuir com uma proposta para observarmos o álbum e dando ênfase ao uniforme desta seleção em específico.

Outra ampliação foi criar uma figurinha com a imagem das crianças com a camisa da seleção brasileira e permitir por meio de papel adesivo, que as crianças colassem suas fotos na página de nosso álbum: A seleção mista do CEI e levasse uma cópia para casa. Se ver com a camisa, apontou ser importante para as crianças indo de encontro com o vídeo da narração de um jogo de futebol feminino.

Referência cultural

  • Literatura: leitura de livros e rodas de conversa.
  • Artes visuais: recurso midiático: vídeos musicais, desenhos animados.
  • Artes cênicas: brincadeiras com o uso de fantasias.
  • Cultura popular: álbum de figurinha (Coreia do Sul) com uniforme rosa, criação de figurinha da turma.
  • Música: A hora do Blec.

Referente à animação Diário de Mika, após a apresentação do vídeo Brinquedo de menino, foi exibido o desenho acompanhado de uma música cujo refrão dizia: “menino ou menina, sou criança e nada mais”. A canção reforçava a ideia de que todas as crianças podem brincar com qualquer tipo de brinquedo, independentemente de gênero.

Essas ações iniciais refletiram diretamente na forma como as crianças passaram a observar, receber e explorar os brinquedos apresentados. Em uma proposta de brincar de boneca com materialidades não habituais, como o uso da própria cama de dormir, percebeu-se que as crianças reproduziam ações de cuidado que vivenciam ou observam nos adultos.

Em uma das situações, uma criança apontou para a cama e disse: “olha, professora, coloquei meu filho para dormir”, evidenciando a incorporação dessas práticas no brincar. Assim, as diferentes ações desenvolvidas contribuíram para uma mudança no olhar das crianças sobre as materialidades, possibilitando que meninos e meninas vivenciassem, de forma compartilhada, práticas de cuidado.

Além disso, as músicas associadas aos vídeos e desenhos animados tiveram papel importante nesse processo, pois permitiram que as crianças, de maneira lúdica, reconhecessem essas ações e as relacionassem com situações presentes em seu cotidiano familiar.

Dificuldades encontradas

  • Atuar de modo que as famílias compreendessem a importância de trabalhar o tema e os impactos das falas no cotidiano das crianças, especialmente das meninas, que por vezes eram impedidas de brincar.
  • Alcançar as famílias para que entendessem que a proposta não possuía viés político, considerando que as escolas vinham sendo, há anos, alvo de falsas acusações associadas às chamadas “questões de gênero”. Muitas vezes, tais percepções não eram confrontadas com o que de fato era vivenciado e compartilhado na comunidade escolar, seja nos murais do CEI, nas conversas com as crianças ou nos eventos destinados às famílias. Cabe destacar que esse processo ocorreu em um período eleitoral acirrado, o que tornou a abordagem ainda mais sensível e desafiadora.
  • Insuficiência da abordagem do tema em rodas de conversa pontuais; necessidade de desenvolver ações diversificadas, pensadas e planejadas de forma integral, para um trabalho mais consistente com as crianças.

Principais aprendizagens

  • Abordar a temática de gênero por meio de diferentes metodologias, como contos, brincadeiras, exposições, vídeos, entrevistas e visitas pedagógicas, ampliando as experiências das crianças no CEI.
  • Propor ações diversificadas que possibilitaram mudanças significativas no grupo, evidenciadas quando as crianças passaram a reconhecer mulheres conduzindo motos, ônibus e ocupando espaços antes considerados masculinos.
  • Observar, nas explorações com fantasias, a construção de um novo olhar entre as crianças, como no caso do menino que utilizou vestido de princesa e foi acolhido pelo grupo, indicando o rompimento de preconceitos de gênero.
  • Promover o desenvolvimento do olhar crítico das crianças sobre as ações trabalhadas na escola e compartilhadas com as famílias, contribuindo para a redução de falas impeditivas no ambiente familiar.
  • Fortalecer o vínculo entre a comunidade educativa, a partir da divulgação das experiências por diferentes canais de comunicação, inclusive no espaço escolar, ampliando o acompanhamento das famílias.

Referências bibliográficas

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TOKITAKA, Janaína. Pode pegar! São Paulo: Boitatá, 2017.

 

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