Feminismo e agroecologia na Educação Integral: para a sustentabilidade da vida
Estado: São Paulo (SP)
Etapa de Ensino: Ensino Fundamental I
Modalidade: Educação Regular
Disciplina: Biologia, Língua Portuguesa
Formato: Presencial
Especialista em Gênero, desenvolvimento e políticas públicas: práticas educacionais (Fundaj), pedagoga (Singularidades) e internacionalista (PUC/SP). Foi bolsista na Universidade de Hubei (China). Possui experiência na Missão Brasileira junto à ONU nos EUA, para um período de capacitação acadêmica. Atuou na formação de coordenadores das redes estaduais de ensino. Atua como professora de Educação Básica na rede de Mogi das Cruzes, e compõe o grupo de Pesquisa em Educação Integral (GPEI/PUC-SP).
Sobre a experiência
O Projeto Pedagógico Transdisciplinar (PPT) parte de duas motivações essenciais: a exploração do sistema capitalista heteropatriarcal, da reprodução social e da natureza que afeta, majoritariamente, as condições de vida de mulheres e meninas; e por entender que a escola ao não considerar as relações de gênero e de sustentabilidade, acaba reproduzindo esse modelo de exploração dos corpos e terras. Apoiando-se no conceito de sustentabilidade da vida (Carrasco, 2018), junto às crianças dos 5º anos do fundamental e suas famílias, objetivou-se decodificar e transformar práticas hegemônicas com vistas a construir fissuras/rompimentos nos sistemas de exploração das mulheres/meninas e da Natureza, referenciadas(os) por práticas e estudos feministas decoloniais e agroecológicas, especialmente o manejo da horta escolar e leituras literárias para as infâncias com as temáticas feminista, relações de gênero, meio ambiente e racismo, costuradas aos círculos de cultura com a comunidade.
Atores envolvidos
As crianças dos 5º anos do fundamental, suas famílias, e algumas outras pessoas da comunidade convidadas pelas crianças, como cozinheiras, secretária escolar, crianças de outras turmas, agentes escolares e outras docentes.
Relato da experiência
O projeto foi realizado ao longo do primeiro semestre letivo de 2025 em uma escola pública de Educação Básica, primeira escola do município construída e pensada para uma Educação Integral em Tempo Integral, com docentes também em tempo integral com a turma. Localizada em uma região periférica de Mogi das Cruzes (SP), circunscrita por três rios, além de ser morada da Área de Proteção Ambiental Serra do Itapeti. Trata-se, contudo, de um território que possui pouca vegetação, muito embora o município apresente 62,2% de domicílios urbanos em vias públicas com arborização (IBGE, 2010).
Conforme pesquisa realizada pela escola, durante o mês de maio de 2025, a comunidade é composta por famílias majoritariamente da classe E e, quando perguntadas sobre haver diálogo em casa com a criança sobre respeito, descobriu que: 75% afirmaram conversar constantemente sobre a importância de respeitar o outro, porém esse número vai caindo, 64% responderam o mesmo sobre bullying, 54% racismo, 35% sobre machismo, e apenas 17% sobre LGBTfobia, o que indica que as famílias estão abertas ao respeito, mas não compreendem a necessidade do diálogo sobre as diversidades e formas de opressão estruturais necessárias para a formação para o respeito das crianças. Por outro lado, quando feito o recorte sobre esses mesmos indicadores apenas com crianças abrangidas pelo projeto, apesar de também haver uma queda, nota-se que há maior abertura das famílias para o diálogo sobre todos, entre 10 e 13% a mais racismo (63%), machismo (47%) e LGBTfobia (30%), enquanto os demais se mantiveram próximos do quadro geral da escola, com uma diferença de cerca de 5% (respeito 80% e bullying 70%) . Podendo indicar que o trabalho realizado com as crianças e suas famílias desse grupo ao longo dos meses anteriores pode ter propiciado maior abertura delas para conversas a respeito. Vale ressaltar que o grupo em questão é composto majoritariamente por crianças negras e de maioria meninas.
No início de fevereiro, minha turma de 5º ano, cerca de 20 crianças entre 10 e 11 anos e eu iniciamos o projeto. Um percurso de 10 ações marcadas pelos movimentos de ampliar o olhar e os diálogos e, posteriormente, mergulhar nos temas sistematicamente. As ações como o manejo da horta, principalmente, tornaram-se pano de fundo para a (auto)observação e transformação das relações de gênero entre as crianças:
- 1ª Sustentabilidade da vida
- Roda de conversa com as crianças a fim de entender sua compreensão prévia de Sustentabilidade da Vida.
- 2ª Do livro à terra
- Roda de conversa tendo como disparador a leitura compartilhada do livro Nina e a Sua Turma Numa História de Minhocas (2019).
- 3ª Leitura do nosso mundo chamado quintal da escola
- Visitas ao espaço escolar destinado à horta para diagnóstico/reconhecimento e manejo da horta.
- 4ª Diário da Natureza
- Caderno com capa produzida pelas crianças utilizando elementos da natureza, para o registro individual de todo o processo.
- 5ª I Rodas de Saberes
- Roda de conversa para seleção de temas geradores e coleta de saberes com pessoas da comunidade, convidadas pelas crianças, conversando principalmente sobre sustentabilidade.
- 6ª II Roda de Saberes
Apenas convidadas mulheres e meninas consideradas “incríveis” pelas crianças, gerou investigações específicas sobre machismo e feminismo. - 7ª Pegadas das nossas vozes e eco das nossas ações
Produção coletiva de objetivos e indicadores a respeito de onde queríamos chegar. Esta etapa se deu neste momento, pois, em meados de abril, começaram a reconhecer e ter propriedade para nomear situações e posturas machistas; - 8ª Descodificação
Produção de lista de temas levantados nas Rodas de Saberes, aprofundando de forma transdisciplinar, em grupos de interesse; - 9ª Círculos de cultura
Rodas de conversa sobre as pesquisas e leituras, para trocas de suas descobertas. - 10ª Literatura e Biografias
Alimentar a alma para nutrir a ação: foram realizadas leituras compartilhadas intercaladas com as ações de pesquisa e manejo da horta.
Estratégias adotadas
Buscou-se uma ação com e não sobre ou para a comunidade escolar, um projeto pedagógico decolonial, portanto, uma co-investigação dentro de processos comunitários (CURIEL, 2020), a fim de emergir a partir do processo as contradições sócio-ambientais do território, acima expostas. Assim, apesar de, como docente, ter traçado um plano de projeto “para”, ele só foi tangível no processo “com”, o contexto exposto, por exemplo, fez parte das investigações das crianças e seus familiares.
Outro critério para o planejamento foi desenhar junto com as crianças indicadores sobre seus processos, tendo em vista que buscavam a igualdade de gênero entre elas. Isso foi possível pela construção que antecedeu essa etapa e por outras atividades que apoiassem o desenvolvimento da autonomia delas, possibilitando a nomeação de guardiãs e guardiões desses indicadores, crianças que ficaram responsáveis por observar determinados indicadores, ao longo do dia, e, ao fim, registrá-lo no painel. As discussões em torno dos registros também geravam insumo para novos questionamentos, apoiados por leituras literárias a respeito de gênero e meio ambiente e biográficas de mulheres e meninas.
Referências culturais
Livro Nina e a sua turma numa história de minhocas, escrito por Adriane Lipert Bittencourt, com ilustrações de Osmar Valim Oliveira Junior e coordenação editorial do Centro Ecológico Ipê (2019).
O livro literário para as infâncias apresenta na narrativa o drama da personagem Anelídea que precisa se retirar de sua casa com seus familiares em busca de outro lugar onde não haja agrotóxicos, pois onde moravam era abaixo de uma monocultura, ilustrando bem o quanto o mono, a padronização ou busca por ele, tanto nas plantações, como nas pessoas em suas formas de ser e estar no mundo, podem ser prejudiciais para toda a Natureza, da qual também fazemos parte.
Na leitura mediada por mim foi dada grande ênfase nas diversidades: das cores das folhas das plantas, dos troncos e das pessoas, ressaltando a importância da diversidade como um todo. A esse respeito lhes questionava sobre qual dos cultivos, milharal ou de agrofloresta, estava sendo prejudicial às minhocas e às pessoas; fazendo o paralelo com a diversidade etnico-racial das crianças personagens da história e, depois, com elas mesmas.
Com frequência, nas rodas de partilha das pesquisas, ressaltava o quanto a voz, o conhecimento apresentado pelas meninas, que antes ficavam em silêncio ou, até mesmo, eram silenciadas pelas interrupções e agitações dos meninos, era relevante para a circulação de ideias diversas, soluções diversas para nosso problemas coletivos, em especial com o manejo da horta ou uso de alguma fonte de pesquisa.
Porém, vale colocar que o livro mencionado foi apenas o ponto inicial, ao longo das nossas trocas, como mencionado na ação 10ª, as conversas e pesquisas foram regadas com outras leituras que tratavam diretamente das questões de gênero e outros marcadores da diferença, evidenciando a diferença como natural e rico, em contraposição à construção social feita para manipulação da diferença para criação de desigualdades. Outras leituras:
- A pele que eu tenho (bell hooks, 2022)
- Coisa de menina ou coisa de menino? (Pri Ferrari, 2018)
- Não derrame o leite! (Stephen Davies, 2015)
- 101 Mulheres incríveis que mudaram o mundo (Julia Adams, 2021)
- Diálogos feministas antirracistas (e nada fáceis) com as crianças (Bianca Santana, 2023)
- Estranhas criaturas (Cristobal León, 2019)
- 50 Mulheres para se inspirar (Alice Ramos, 2021)
- As mulheres e os homens (Equipo Plantel, 2016)
Dificuldades encontradas
Em alguns momentos percebi a resistência dos meninos, trazendo ideias como “meninas também poderiam ser boas nos jogos, mas elas acabam só perdendo”, como se fosse algo nato das meninas, eles faziam paralelos com outras falas que traziam de casa como “tinha que ser mulher” ao se referirem a acidentes de trânsito. A estratégia que utilizei foi instigá-las a pesquisar, trazer dados, como quem dirige mais, quem se envolve em mais acidentes de trânsito, que é incentivado a praticar mais esportes, quem passa de fato mais horas e quantas horas a mais praticando esportes.
Principais aprendizagens
Além das próprias habilidades do currículo, como: associar o conceito de cidadania à conquista de direitos no tocante ao respeito às minorias sociais, diversidade étnico-racial, cultural e religiosa, ao trabalho, à dignidade humana, equanimidade com relação aos gêneros etc; identificar o conceito de fonte histórica primária e secundária; entender a distribuição desigual da renda como um dos fatores responsáveis pela existência de desigualdades sociais; selecionar argumentos que justifiquem a importância da cobertura vegetal; assumir uma atitude de questionamento frente às mensagens que transmitem os meios de comunicação social e a publicidade, manifestando especial sensibilidade pelas que supõem uma discriminação social, sexual e/ou racial. Também pudemos compreender as desigualdades expressas em seus cotidianos, reconhecendo situações semelhantes de machismo/sexismos e racismo com mais facilidade em seus contextos, ao longo do processo e a questionar e reivindicar por relações mais justas e igualitárias. No que diz respeito às famílias, desataram algumas amarras sexistas invisíveis nos núcleos formados por pai e mãe a partir de próprios questionamentos levados pelas crianças. Constatou-se também que a questão ecológica contribuiu para a apropriação de seu próprio território.
Referências bibliográficas
ARCARI, Caroline. Empoderamento de meninas e masculinidades positivas. In: RIBEIRO, Marcos. A conversa sobre gênero na escola: Aspectos conceituais e político-pedagógicos. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2019.p.61-74.
CARRASCO, Cristina. A economia feminista: um panorama sobre o conceito de reprodução. Temáticas: Dossiê Economia Feminista. Campinas, v.26, n.52, Semestral, 2018, p. 31-68.
GRUPO DE TRABALHO DE MULHERES DA ARTICULAÇÃO NACIONAL DE AGROECOLOGIA. Sem Feminismo Não Há Agroecologia. Boletim IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA). 2018. Disponível em: https://agroecologia.org.br/2018/09/05/sem-feminismo-nao-ha-agroecologia-2/. Acesso em 04/05/2025.
GUHUR, Dominique; SILVA, Nivia Regina. Agroecologia. In: DIAS, Alexandre (et all) Dicionário de Agroecologia e Educação. SP: Expressão Popular. RJ: Escola Politécnica de Sáude Joaquim Venâncio, 2021. p.59-73.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Mogi das Cruzes (SP). Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/mogi-das-cruzes/panorama. Acesso em: 21 mar. 2026.
OCAÑA, Alexander Ortiz; ARIAS, María Isabel López; CONEDO, Zaira Pedrozo. Metodología ‘otra’ en la investigación social, humana y educativa. El hacer decolonial como proceso decolonizante. Revista FAIA. Vol. 7. nº 30. 2018. p. 172-200. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/6575303.pdf. Acesso em 04/05/2025.
NOBRE, Miriam; MORENO, Renata. Natureza, trabalho e corpo: percursos feministas e pistas para a ação. In: Economia Feminista e ecológica: resistências e retomadas de corpos e territórios. Sempre Viva Organização Feminista, 2020. p.33-52.
RIBEIRO, Dionara Soares et al. (org.). Agroecologia na educação básica: questões propositivas de conteúdo e metodologia. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2017.
Literatura e Biografias para as crianças:
ADAMS, Julia. 101 mulheres incríveis que mudaram o mundo. [S.l.: s.n.], 2021.
BITTENCOURT, Adriane Lipert. Nina e a sua turma numa história de minhocas. Ipê, RS: Centro Ecológico, 2019.
DAVIES, Stephen. Não derrame o leite!. São Paulo: Brinque-Book, 2015.
EQUIPO PLANTEL. As mulheres e os homens. São Paulo: Boitatá, 2016.
FERRARI, Pri. Coisa de menina ou coisa de menino? São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2016.
hooks, bell. A pele que eu tenho. São Paulo: Boitatá, 2022.
LEÓN, Cristóbal. Estranhas criaturas. [S.l.: s.n.], 2019.
RAMOS, Alice. 50 mulheres para se inspirar. [S.l.: s.n.], 2021.
SANTANA, Bianca. Diálogos feministas antirracistas (e nada fáceis) com as crianças. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2023.
