Infância e sereias: ensinando gênero através da literatura infantil
Estado: São Paulo (SP)
Etapa de Ensino: Ensino Fundamental I
Modalidade: Educação Regular
Disciplina: História, Língua Portuguesa
Formato: Presencial
A Associação de Mulheridades, Transexuais e Travestis (AMTT) foi fundada em outubro de 2024 em Bauru, no estado de São Paulo, por Sophia Rivera junto de Dalilah de Fátima, ambas travestis, para organizar as necessidades sociais presentes em Bauru para mulheres LBTT (lésbicas, bissexuais, mulheres trans e travestis) e pessoas trans, fornecendo atenção integral e multissetorial (educação, saúde, renda e empregabilidade) para essas populações, atuando em prol de suas demandas, articulando com coletivos, organizações da sociedade civil, associações e o poder público em prol da melhoria das condições de vida para nossa população. Bauru é uma cidade conservadora do interior paulista, com necessidade de políticas públicas para a população LBTT e pessoas trans. Diante desse cenário, a associação busca articular essas pessoas em prol de demandas próprias e com responsabilidade, executando atividades de fortalecimento de vínculo, assistência social, assistência jurídica e psicossocial, junto do apoio a famílias de adolescentes e crianças trans, que enfrentam dificuldade na educação pública de Bauru por conta da transfobia institucional. Hoje, há 80 associades na AMTT, junto da atuação de voluntários especializados.
Objetivos
- Tratar de temas sobre transgeneridade e a infância através da literatura infantil, compreendendo a diversidade de identidades e suas manifestações como direito da criança no espaço escolar, criando uma educação plural.
- Introduzir estudantes ao conceito de igualdade e respeito à diferença do próximo, compreendendo a multiplicidade de formas e identidades que cada indivíduo pode ter.
- Utilizar os livros Julian é uma sereia e Tudo bem ser diferente para pensar as diferentes corporeidades e expressões possíveis para além do binarismo de gênero, levando a compreensão dos alunos que nossa sociedade é formada por múltiplas formas de existência.
- Apresentar conceitos da transgeneridade aos alunos de forma lúdica, evidenciando a multiplicidade de identidades de gênero existentes e a necessidade de respeito a elas em nossa sociedade.
Conteúdo
- Cisgeneridade.
- Transgeneridade.
- Cidadania.
- Igualdade.
Referência cultural:
- Julián é uma sereia, de Jessica Love e tradução de Daniela Gutfreund (2021).
Julian é uma sereia conta a história de Julian, garoto que deseja ser uma sereia e resolve se tornar uma se vestindo com roupas da avó,, mostrando sua admiração pelas sereias, questionando o binarismo de gênero na dicotomia homem x mulher.
- Tudo bem ser diferente, de Todd Parr (2002).
Tudo bem ser diferente apresenta várias diferenças físicas, culturais, étnico-raciais e sociais de forma colorida e lúdica, pensando a igualdade em meio às diferenças dentro da literatura infantil
- Amigo, amiga, composição de Palavra Cantada.
Amigo, amiga é uma música de recepção para os alunos.
Fundamentação teórica:
Louro (2001) diz que os estudos de gênero permitem pensar a ambiguidade, a multiplicidade e a fluidez das identidades sexuais e de gênero, mas, além disso, também sugere novas formas de pensar a cultura, o conhecimento, o poder e a educação.
Com os estudos de gênero, é possível analisar por outra ótica as relações de gênero e sexualidade na escola, compreendendo a sociedade e sua transfobia estrutural, interseccionando outras ideias e compreendendo as limitações da escola em relação ao gênero. Tais estudos possibilitam compreender que a escola abriga normas regulatórias sobre cada um e dessa maneira trabalha a normatização do gênero. Essa abordagem parte da ideia de que o gênero é performativo e vive em relação ao tempo histórico e a sociedade, trabalhando em prol do normativo na sociedade, controlando a linha entre a cisgeneridade e transgeneridade.
Louro (2000) discorre sobre necessidade do diálogo com os Estudos Lésbicos, Queer e de Gênero para compreender e trilhar melhores caminhos para uma educação que inclua e respeite o próximo a partir da identidade, fugindo da escola como mantenedora absoluta da heterossexualidade compulsória.
Pensando essa aproximação entre os estudos de gênero e a Educação Básica, em especial a etapa da infância e pré-adolescência, a literatura apresentada contribui para a discussão de gênero no ambiente escolar, compreendendo que a educação e letramento de gênero se inicia já na Educação Infantil, levando as crianças a pensar sobre os papéis de gênero, junto das identidades e diferenças presentes em cada um.
Julian é uma sereia e Tudo bem ser diferente questionam o binarismo de gênero e seus papéis, apresentando a possibilidade de fluidez no ser e existir, propondo uma reflexão sobre o papel do adulto em relação à criança que apresenta a dissidência de gênero e como a criança pode se expressar em sua multiplicidade, conduzindo os alunos a um entendimento inicial sobre identidades de gênero e o respeito com perspectivas que escapem da norma.
Metodologia
- Receber as crianças na sala de aula com a música Amigo, amiga do grupo Palavra Cantada, interagindo com as crianças durante a acolhida e conduzindo os alunos para tapetes onde podem se sentar.
- Com as crianças sentadas, apresentar o livro Tudo bem ser diferente de Todd Parr, indagando os alunos sobre o conteúdo, características e interagindo com eles com o intuito de instigar a curiosidade das crianças. O livro traz a perspectiva da diferença como algo bom, que ressalta nossa individualidade e importância no mundo.
- Apresentar, a partir do livro, o conceito de igualdade e sua importância para a sociedade, trabalhando a diferença como elemento fundamental para uma boa sociedade.
- Iniciar a leitura ao ar livre e atuar de maneira lúdica e interativa com o conteúdo apresentado, indagando os alunos em relação ao conteúdo apresentado e suas percepções, como “Vocês acham que tudo bem receber ajuda?”; “Como é a mãe de vocês?”; O que vocês acham de ter dois papéis?”. Ao questionar estudantes, busca-se criar um fluxo de ideias em discussão que leve à exposição.
- Ao fim da leitura, iniciar a produção coletiva de um painel com silhuetas das crianças (usando papel pardo, contornando o corpo delas, ou giz no chão da área de convivência), que serão decoradas com traços, cores e roupas escolhidas por elas. A decoração deve ocorrer a partir do desejo das crianças, trabalhando as diferenças de cada um e realçando isso ao decorrer das atividades.
2º momento
- Iniciar a acolhida com a brincadeira do abraço diferente: brincadeira de roda em que cada criança, ao ser chamada, escolhe como quer ser cumprimentada: abraço, toque de mãos, tchauzinho, trabalhando o respeito ao espaço pessoal e ao próximo, junto das escolhas e formas de interação que cada um prefere. Conforme cada aluno se senta, deve-se salientar a importância do respeito à individualidade e as diferenças.
- Iniciar a leitura do livro Julian é uma sereia, apresentando de maneira guiada e calma o livro para os alunos, com a escuta atenta a comentários e perguntas. Ao terminar a leitura, a professora pode questionar a turma sobre a compreensão do livro, apresentando questões como: “Vocês acham que meninos podem ser sereias?”; “Julian fez algo de errado?”. As questões devem possibilitar o início da abordagem das identidades de gênero para além da ideia binária de homem x mulher. Durante a dinâmica, é importante reforçar que todos são iguais na sociedade.
- Dialogar com os alunos sobre como cada um tem sua identidade e forma de existir, retomando a ideia do livro Tudo bem ser diferente e apresentando que muitas pessoas na sociedade não tem acesso a direitos e acabam sofrendo por serem vistas como diferentes. A abordagem deve dialogar com a história de Julian a partir da questão: “E se a avó de Julian não tivesse aceitado o que ele queria? Será que estaria tudo bem?”.
- Com esse questionamento, a docente deve distribuir papéis para que os alunos escrevam cartas e apresentar que muitas pessoas em nosso país possuem o mesmo desejo de Julian, de contrariar o que é entendido como normal, e que a ideia de “normal” não deixa todo mundo ser diferente, iniciando a discussão sobre pessoas LGBTQIA+, em especial a população trans, que é muito atingida pela violência no Brasil.
- Com os papéis, os alunos devem escrever pequenas cartas respondendo o seguinte questionamento da professora: “O que vocês diriam para avó de Julian caso ela não o aceitasse por ser diferente?”. Os alunos devem discorrer na carta sobre o respeito à diferença e importância da igualdade.
- Após atividade, a professora pode pedir para os alunos que quiserem ler mostrem suas cartas a turma discutindo aspectos da carta de cada aluno.
- Após a atividade, a professora pode pedir para os alunos mostrarem suas cartas aos colegas, discutindo aspectos da carta de cada estudante. Ao final, se julgar pertinente, é possível organizar, de maneira articulada com a coordenação, uma exposição para a comunidade escolar, apresentando o que foi produzido pelos alunos a partir das duas leituras, em consonância com a metodologia da Documentação Pedagógica de Reggio Emilia.
Recursos Necessários
- Equipamento de som.
- Papel pardo para as silhuetas e giz de lousa para desenhar no chão.
- Lápis de cor, canetinhas, giz de cera.
2º momento
- Espaço para brincadeira em roda.
- Folhas de papel para as cartas.
- Lápis, canetas ou giz de cera para escrita e desenhos.
- Material para exposição: cartolinas, painéis, fita adesiva.
- Registrar as atividades para a documentação pedagógica.
Duração Prevista
Processo Avaliativo
- Critérios de avaliação: observação da participação do aluno nas atividades, junto da atenção aos momentos de debate, avaliando o aluno a partir do diálogo que ele tem com o tema e com outros alunos.
- Avaliação individual: elaboração da carta e envolvimento com a tarefa.
- Avaliação coletiva: processo de elaboração do mural com as atividades dos alunos, analisar o processo com o intuito de avaliar o trabalho coletivo da turma.
Referências Bibliográficas
LOURO, G. L. Educação e docência: diversidade, gênero e sexualidade. Formação Docente, Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 62-70, 2011.4
LOURO, G. L. Corpo, escola e identidade. Educação & Realidade, v. 25, n. 2, p. 59-75, 2000.
LOURO, G. L. Teoria queer: uma política pós-identitária para a educação. Revista Estudos Feministas, v. 9, n. 2, p. 541–553, 2001. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-026X2001000200012. Acesso em: 17 mai. 2025.
LOVE, Jessica. Julian é uma sereia. Tradução de Marcos Bagno. São Paulo: Boitatá, 2019.
PARR, Todd. Tudo bem ser diferente. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Panda Books, 2017.
PALAVRA CANTADA. Amigo, amiga. In: Palavra Cantada. São Paulo: Palavra Cantada, [199]. 1 música.
