“E os homens, professora?”
Estado: Minas Gerais (MG)
Etapa de Ensino: Ensino Fundamental II
Modalidade: Educação Regular
Disciplina: Geografia, Matemática
Formato: Presencial
Formada em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), estudante de mestrado na Faculdade de Educação (FaE/UFMG) com pesquisa sobre movimentos sociais juvenis, com ênfase nas ocupações de escolas que ocorreram no Brasil nos anos de 2015 e 2016. Docente na Rede Municipal de Belo Horizonte.
Sobre a experiência
No trabalho com as temáticas de demografia e dinâmicas populacionais, população brasileira e mulher no mercado de trabalho em turmas de Geografia do 7º ano, alguns estudantes meninos demonstraram incômodos com a abordagem do feminismo na escola, pontuando: “E os homens, professora? Onde estão nesses dados?”.
Ao debater dados estatísticos sobre os homens, a aula possibilitou acessar e trabalhar a subjetividade dos meninos, os modos como lidam com frustrações em relação às figuras masculinas em suas vidas, ao mesmo tempo em que reproduzem lógicas machistas dentro e fora da escola.
Na aula com o sétimo ano, todos os elementos da referência cultural precisaram ser analisados minuciosamente com a turma. Assistimos ao clipe duas vezes, voltamos em trechos que eram importantes para a compreensão do enredo.
Além disso, analisamos de forma crítica a música, lendo a letra e compreendendo cada trecho. A intenção não era concordar com o enredo, mas sim analisar qual a posição dos dois personagens da música, qual a motivação de suas falas e como o diálogo entre os dois é construído.
Por vezes, os debates sobre gênero são trabalhados na escola desassociados dos debates sobre raça ou, quando unidos, parecem se somar de uma forma aritmética. Quando, na realidade, essas relações são transversais e perpassam a todo momento as nossas identidades e acontecimentos do dia a dia. Entendo que esse viés do cotidiano e da sua complexidade é bem retratado na música.
Como um material complementar a análise da música, indico o texto Não existe hierarquia de opressão (2019), da escritora Audre Lorde.
Atores envolvidos
A aula foi elaborada por mim e realizada junto a uma turma do 7º ano de 30 estudantes, sendo 20 meninos e 10 meninas. Cabe ressaltar, que nesta sala o conjunto de estudantes se identificava como cisgênero. O grupo de estudantes era composto, em maioria, por pessoas pretas e pardas, que vivem no entorno da escola, localizada no limite entre as cidades de Belo Horizonte e Sabará, no estado de Minas Gerais (MG). As habitações de muitos estudantes estão em ocupações nas margens de rodovias que conectam as duas cidades.
Relato de experiência
Embora o tema de masculinidades tenha sido trabalhado com as duas turmas de sétimos anos, os processos aqui descritos foram construídos de acordo com a demanda específica de uma das turmas: ter uma aula inteira sobre os homens.
O incômodo surgiu após uma aula sobre dados estatísticos em relação à população feminina do Brasil. Em uma turma com o dobro de meninos e diversos casos de machismo, eles desejavam que eu falasse sobre a importância dos homens na sociedade e eu me planejei para que na próxima semana o tema fosse abordado.
A “aula sobre os homens” foi elaborada em junho de 2024 e teve duração de uma hora, tempo de um horário escolar na Rede Municipal de Belo Horizonte. Ainda que tenha sido ministrada na disciplina de Geografia, considero que os dados estatísticos usados dialogam com a disciplina de Matemática, como em relação à análise de gráficos e porcentagem.
Iniciei a aula entregando pequenos papéis para todo o grupo de estudantes. A tarefa era que respondessem à pergunta: “Qual a importância do homem na sociedade?”. Após um tempo de cinco minutos, recolhi os papéis e pedi solicitação para lê-los na frente da sala, de forma que ninguém seria exposto, visto que os papéis não tinham identificação.
Com a autorização de todos, li primeiro os papéis dos meninos, os quais por unanimidade associavam os homens ao papel de provedor, com o trabalho, o dinheiro ou sustento da esposa e filhos. Em seguida, li os papéis das meninas, mais diversos, diziam que o papel do homem é trair, abandonar a família ou assediar e violentar mulheres.
A leitura dos papéis gerou uma revolta entre os meninos, que logo associaram que aqueles papéis, lidos por último, haviam sido escritos por suas colegas. Elas, por sua vez, riam.
Deixei que os meninos se defendessem por alguns minutos e depois pedi silêncio à turma. Fiz a seguinte pergunta: “Quero que vocês pensem em relação aos homens que conhecem. Eles se parecem com o que vocês escreveram ou com o que as meninas escreveram?”.
Um silêncio tomou conta da sala e um aluno respondeu: “com o que as meninas disseram, professora”.
Após essa dinâmica inicial, dialoguei com a turma sobre essa preocupação em debater sobre feminismo. Com o apoio de alguns materiais, como o livro O feminismo é para todo mundo, da autora bell hooks (2018), conversei sobre a necessidade de que eles, jovens, se atentem para serem homens melhores.
Em seguida, liguei o projetor para mostrar dados estatísticos sobre a população masculina do Brasil. Refleti com eles que, embora desejassem tanto saber sobre os homens, os dados não eram o esperado por eles. A população masculina é a com a maior taxa de mortalidade do Brasil, é a que mais se envolve em acidentes de trânsito, a que mais mata e é morta pelo tráfico, a que sofre mais violência policial.
Muitos diálogos e reflexões surgiram por iniciativa dos estudantes, que contavam sobre histórias de seus familiares, principalmente em relação a abandono paterno e envolvimento com o tráfico. O ideal de ser homem e estar na postura de provedor – destacada nos papéis do início da aula – estava distante da realidade daqueles estudantes.
Conversei sobre a complexidade das relações de gênero, raça e classe e, para ilustrar isso, usei a música Uma conversa com uma menina branca, do rapper belorizontino Djonga (2022).
Juntos, refletimos sobre como a questão de gênero, raça e classe estavam envolvidas entre os personagens da música. Ao fim, notei que a aula permitiu que muitos alunos refletissem sobre o que é ser homem e como a resposta para essa pergunta perpassa por ideais de masculinidades impostos socialmente.
Alguns choraram e disseram que nunca haviam parado para pensar sobre a temática, ou mesmo nunca haviam chorado de tristeza, apenas por ódio. Notei que a atividade proporcionou um momento de apoio mútuo entre a turma, proporcionando o estreitamento de vínculos de amizade entre os meninos.
Referência cultural
A fim de aprofundar na complexidade das relações de gênero e raça, foi analisada a música Conversa com uma menina branca (2022), composta e interpretada por Gustavo Marques (nome artístico: Djonga).
A música retrata uma conversa entre um homem negro e uma mulher branca. Enquanto o homem tenta explicar sua vivência na periferia, a mulher parece competir com ele expondo outras opressões que acontecem com ela.
Além do aspecto racial, existe uma diferença de classe entre os dois, sendo ela de classe média/alta. Ao fim, em uma atitude racista, ela acaba acusando-o de violento. O enredo possibilita abordar a complexidade das relações de raça, gênero e classe.
A música ilustra como no cotidiano as relações de gênero, raça e classe são complexas. A personagem mulher, embora apresente argumentos válidos de opressões por ela sofridas, também reforça uma posição de privilégio racial e de classe. Já o homem, tenta esclarecer as dificuldades em ser negro na periferia da cidade, como uma forma de se distanciar do suposto “privilégio masculino” a qual ela argumenta. Por vezes, as suas falas, trazem também as vivências de mulheres negras.
Para ser trabalhada nas escolas, essa música necessita de um debate crítico mediado pelo professor para que não seja interpretada como uma “competição entre opressões” ou uma batalha entre quem estaria certo ou errado no contexto da música.
Estratégias adotadas
Durante o planejamento da aula, escolhi dados estatísticos que permitissem aos estudantes refletirem sobre a posição do homem na sociedade de forma crítica. Para isso, usei fontes confiáveis, como dados do Censo Demográfico de 2022, que associavam as variáveis de gênero, raça e classe.
O objetivo foi impactá-los com informações reais sobre a população brasileira que apontassem para as consequências desastrosas do patriarcado. Mas, para além desse impacto, eu gostaria de ouvi-los, gostaria que dialogassem e expressassem seus sentimentos.
Por esse motivo, iniciei a aula com a dinâmica da entrega dos papéis. Já a escolha da música surgiu como um momento mais descontraído de apreciar a letra e o clipe, de conhecer o artista. Mas, para além disso, de avaliar o processo. Na conversa com a turma sobre a música eu pude notar se aquelas ideias da dinâmica inicial haviam mudado com o desenvolvimento da aula.
Dificuldades encontradas
As aulas sobre gênero, no geral, causam uma agitação entre os/as estudantes. Embora esse ânimo seja necessário em alguns momentos, caso seja constante pode se tornar uma aula cansativa ou estressante para a turma. Como uma forma de lidar com isso, intercalei os momentos de debate com práticas mais silenciosas (como a escrita ou a escuta da música).
Outro desafio que encontrei foi a de dar continuidade ao projeto. Muitos estudantes precisavam de uma escuta mais qualificada e individual e, embora eu tenha dialogado com eles, entendo que a escola necessita que o tema das masculinidades seja também trabalhado por psicólogos e assistentes sociais.
A todo momento, os jovens são bombardeados por conteúdos machistas, principalmente em redes virtuais. Seus círculos de amizades por vezes reforçam essas lógicas, sem espaço para acolher sentimentos ou debater sobre suas fragilidades. A aula surtiu um efeito momentâneo e aproximou de forma mais saudável os meninos, mas não extinguiu as ações machistas em sala de aula. Realizei outras ações e precisei de auxílio de um monitor, homem, para notar melhoras desta turma. É um dever nosso, enquanto sociedade, dialogar com os jovens e construir uma sociedade feminista.
Principais aprendizagens
Da minha parte, enquanto professora, o principal aprendizado foi sobre como é viável e potente debater masculinidades com os estudantes. Não fossem os questionamentos dos meninos eu não entraria neste tema. A partir dessa aula eu passei a lidar de forma diferente com os casos de machismo na escola, ao invés de cercear e punir, passei a questioná-los junto aos estudantes: “Por quê você pensa assim?”. Por vezes, essas ações são reproduzidas e pouco refletidas.
Já em relação à aula, passei a acrescentá-la em meu planejamento, somando ao conteúdo de população brasileira. Algo que eu farei diferente, é acrescentar o debate sobre a população LGBTQIA+, debatendo sobre como o patriarcado também está associado à homofobia e transfobia. Além disso, dessa vez, conversarei com os/as estudantes antes da aula sobre o tema ser sensível e irei dialogar com a equipe de assistência social e psicologia da escola.
Por parte dos estudantes, o principal aprendizado foi a desconstrução da imagem de homem ideal e a reflexão de suas próprias atitudes. Com o passar dos meses, ouvi meninos dizendo que começaram a notar que não gostariam de ser como os seus pais ou mesmo que se permitiram chorar sem culpa. Por parte das meninas, foi importante para acolher a fragilidade dos meninos sem julgá-los.
Referências bibliográficas
DJONGA. Conversa com uma menina branca. Composição de Gustavo Marques. O Dono do Lugar, 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=K60JEbq-fQE. Acesso em: 20 mar. 2026.
HOOKS, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Tradução de Ana Luiza Libânio. 1. ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.
IBGE. Panorama do Censo 2022. Disponível em: https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/. Acesso em: 20 mar. 2026.
LORDE, Audre. Não existe hierarquia de opressão. Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, p. 235-236, 2019.
