Vivências culturais indígenas na escola

Estado: Minas Gerais (MG)

Etapa de Ensino: Ensino Fundamental II

Modalidade: Educação Regular

Disciplina: Artes, Geografia, História

Formato: Presencial

Educadora indígena, graduanda em pedagogia, mãe de alunos da Escola Municipal Aristides José da Silva. Contribui com a escola compartilhando seus saberes, experiências e lutas de seu povo. Nesse projeto, atuou como orientadora, auxiliando os alunos em suas ações de intervenção e educação na escola.

Professor de Ciências na Escola Municipal Aristides José da Silva. Nesse projeto, acolheu e incentivou a realização das propostas dos alunos e da educadora Thais, dando suporte às ações educativas e vivências culturais desenvolvidas.

Sobre a experiência

A experiência Vivências Culturais Indígenas na Escola surgiu a partir de um episódio de preconceito vivido por uma aluna Pataxó ao expressar sua identidade cultural na escola. 

Esse episódio revelou a invisibilidade dos povos indígenas no meio urbano e a necessidade urgente de ações educativas para enfrentar o racismo, promover a valorização da diversidade e fortalecer a identidade cultural.

Foi desenvolvido um projeto educativo para promover a valorização da cultura indígena, o respeito à diversidade, a inclusão e a igualdade de gênero. As atividades destacaram os papéis e saberes de mulheres indígenas na preservação da cultura, fortalecendo a autoestima de meninas e estimulando o protagonismo feminino na comunidade escolar.

Foram realizadas oficinas de língua Patxohã, confecção de adornos, tintas naturais, grafismos corporais e culinária tradicional, além de manifestações em apoio às lutas indígenas e um intercâmbio com uma aldeia indígena.

Como resultado, também foi produzido um catálogo didático de pinturas corporais em formato tátil, acessível para pessoas com deficiência visual.

Pessoas envolvidas

O trabalho foi realizado na Escola Municipal Aristides José da Silva, uma instituição pública municipal, localizada bairro Jardim Teresópolis, em Betim, Minas Gerais (MG), que atende cerca 800 alunos de 1º a 9º ano de Ensino Fundamental (EFAI e EFAF), além de cerca de 200 estudantes jovens e adultos, na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA). Ao total, o projeto visa alcançar em torno de 3.500 pessoas da comunidade escolar, considerando educadores, alunos e suas famílias.

Relato de experiência

O projeto surgiu como resposta a um episódio de racismo vivido por uma aluna indígena da etnia Pataxó, que, ao se apresentar na escola com pinturas corporais tradicionais, sofreu preconceito e questionamentos.

Diante disso, formou-se uma equipe composta por educadores da escola e por membros da comunidade indígena local, especialmente pela Thais Pataxó e sua filha, que assumiram o papel de lideranças na condução das atividades.

As ações ocorreram de abril a dezembro de 2024, com a realização de oficinas culturais que incluíram práticas como a escrita na língua Patxohã, confecção de cocares, pulseiras, instrumentos musicais e vestimentas, produção de tintas naturais, aplicação de grafismos corporais e preparo de receitas tradicionais da culinária Pataxó.

Além das oficinas, foram realizadas manifestações na escola e na comunidade contra o Marco Temporal das terras indígenas, visando sensibilizar estudantes, famílias e moradores sobre as lutas e os direitos dos povos originários.

O projeto também proporcionou um intercâmbio com a Aldeia Pataxó Katurãma, localizada em Joaquim de Bicas, Minas Gerais (MG), onde alunos puderam vivenciar de perto os saberes, as histórias e a cultura do povo Pataxó.

Como parte do legado desse trabalho, foi desenvolvido um catálogo didático de pinturas corporais indígenas em formato tátil, com desenhos em relevo, tornando esse conhecimento acessível também para pessoas com deficiência visual.

Durante todo o processo, as atividades destacaram a importância da mulher indígena como guardiã da cultura, fortalecendo, assim, tanto a identidade étnica quanto a igualdade de gênero no ambiente escolar e na comunidade.

A experiência demonstrou que a educação, quando pautada na valorização dos saberes tradicionais e no respeito às diferenças, tem o poder de transformar realidades, combater preconceitos e promover uma sociedade mais justa, inclusiva e plural.

Estratégias adotadas

As ações se baseiam em diálogo, escuta ativa e valorização dos saberes tradicionais, especialmente dos povos indígenas Pataxó. Para a viabilização do projeto, consideramos alguns aspectos essenciais:

  • Protagonismo indígena: condução das atividades por lideranças da própria comunidade, garantindo autenticidade e respeito aos saberes tradicionais.
  • Parceria entre escola e comunidade.
  • Oficinas em espaços abertos e em conexão com a natureza: reforçando o vínculo com o ambiente natural, fundamental para a cultura indígena, e proporcionando um ambiente acolhedor de estímulo ao aprendizado e respeito ao meio ambiente.
  • Importância do trabalho coletivo: organização de forma colaborativa, fortalecendo os laços entre os participantes, promovendo a coletividade e o senso de pertencimento.
  • Baixo custo e uso de materiais acessíveis: oficinas planejadas utilizando materiais simples e naturais.
  • Compromisso com a inclusão e a equidade de gênero: atividades em que meninas e meninos participaram igualmente, com valorização do papel das mulheres indígenas como guardiãs da cultura.

Referência cultural

Grafismos da cultura Pataxó.

Os grafismos Pataxó são pinturas corporais que expressam identidade, ancestralidade e conexão com a natureza. Cada traço carrega significados culturais e espirituais, fortalecendo a resistência indígena.

A referência cultural dos grafismos Pataxó foi inserida na experiência por meio das oficinas práticas de pintura corporal, onde alunos e alunas puderam conhecer e reproduzir os desenhos tradicionais, acompanhados das explicações sobre seus significados, histórias e valores.

Essa vivência foi essencial para aproximar a comunidade escolar da cultura indígena, promovendo o respeito e a valorização de saberes muitas vezes invisibilizados no ambiente urbano e escolar. Além disso, a produção do catálogo tátil das pinturas corporais possibilitou a inclusão de pessoas com deficiência visual, ampliando o acesso a essa expressão cultural.

A inserção dos grafismos Pataxó também contribuiu diretamente para o debate de gênero na Educação Básica ao destacar as diferenças e significados específicos das pinturas para homens e mulheres dentro da cultura indígena.

Durante as oficinas e no catálogo, foram abordadas as particularidades dos grafismos usados por mulheres e homens, assim como as pinturas relacionadas ao estado civil e papel social de cada um. Essa abordagem valorizou o papel das mulheres indígenas como guardiãs e transmissores da cultura, reforçando a importância da equidade de gênero no reconhecimento das identidades e saberes.

Os grafismos serviram ainda como fio condutor para aprofundar o conhecimento sobre outros aspectos culturais Pataxó, sobretudo relacionados à linguagem, adornos identitários e costumes tradicionais. Por meio da valorização dos grafismos, os participantes foram introduzidos à língua Patxohã, à confecção de cocares, pulseiras e vestimentas, e à compreensão dos rituais e práticas culinárias ancestrais. Essa conexão ampliou o entendimento da riqueza cultural indígena em sua totalidade, integrando saberes e promovendo um olhar mais amplo sobre a diversidade cultural e as relações de gênero presentes na cultura Pataxó.

Dificuldades encontradas

Durante o desenvolvimento do projeto, enfrentamos diversas dificuldades, como reações iniciais de preconceito e racismo dentro da comunidade escolar, que exigiram ações constantes de sensibilização e diálogo.

A falta de recursos materiais e financeiros também foi um desafio, especialmente para a produção do catálogo tátil e a realização das oficinas, sendo necessário o uso de materiais adaptados e mais acessíveis.

Houve algumas manifestações de resistência de parte da comunidade frente às discussões sobre cultura indígena e igualdade de gênero, mas que foram se reduzindo com as exposições dos trabalhos que permitiram maior proximidade com a cultura indígena. 

Outro desafio foi garantir a acessibilidade do catálogo para pessoas com deficiência visual, demandando testes, adaptações e aprimoramentos.

Além disso, a realização das oficinas e vivências precisaram romper com a lógica dos tempos tradicionais da escola, que muitas vezes não contemplam metodologias mais livres, em espaços abertos e com uma dinâmica diferente da sala de aula convencional.

Principais aprendizagens

Como resultados, observou-se a redução do bullying, tanto contra alunos indígenas quanto entre toda a comunidade escolar, além da valorização e incorporação de elementos culturais e naturais na rotina dos alunos, como o uso de adereços e a adoção de práticas ancestrais.

O projeto também contribuiu para a promoção da igualdade de gênero, uma vez que desconstruiu estereótipos ligados aos papéis sociais, valorizando o protagonismo feminino nas culturas indígenas, em que mulheres e homens têm papéis fundamentais e complementares.

Houve ainda maior ocupação dos espaços ao ar livre durante as aulas e os momentos de lazer, redução de atos de vandalismo em jardins e cuidado com as plantas, além da diminuição do uso excessivo de aparelhos eletrônicos.

A inclusão de alunos com deficiência foi ampliada, culminando na produção de um catálogo cultural acessível, que integra tecnologias ancestrais e recursos modernos.

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