Originárias: recontando vozes de mulheres indígenas em HQs
Estado: Roraima (RR)
Etapa de Ensino: Ensino Médio
Modalidade: Educação Regular
Disciplina: Língua Portuguesa
Formato: Presencial
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Letras, pela Universidade Federal de Roraima; Bolsista CAPES; Especialista em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e Literatura pela Faculdade Educacional da Lapa e Licenciatura em Letras/Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Estadual de Roraima. Experiência na área de docência na rede estadual de ensino (SEED/RR), com ênfase em ensino de literatura na perspectiva das relações étnico-raciais, com foco em produções literárias de mulheres.
Sobre a experiência
O projeto Originárias: recontando vozes de mulheres indígenas em HQs foi desenvolvido com alunos do 1º ano do Ensino Médio e teve como proposta a leitura e releitura de contos escritos por autoras indígenas, com o objetivo de transformá-los em histórias em quadrinhos.
Através dessa abordagem, os estudantes desenvolveram a leitura crítica, a criatividade e o respeito à diversidade cultural, ao mesmo tempo em que puderam refletir sobre o valor dos saberes ancestrais e as narrativas femininas indígenas. O trabalho foi finalizado com uma exposição das HQs produzidas.
Pessoas envolvidas
O projeto envolveu a professora de Literatura, cerca de 140 estudantes de quatro turmas do 1º ano do Ensino Médio e autoras indígenas como Julie Dorrico (por meio de entrevistas on-line). Contou ainda com o apoio da equipe pedagógica e da comunidade escolar.
Relato de experiência
O projeto Originárias: recontando vozes de mulheres indígenas em HQs foi desenvolvido no 1º bimestre letivo de 2025 na Escola Estadual Professora Maria das Dores Brasil, situada em um bairro periférico de Boa Vista, Roraima (RR), próximo a áreas indígenas e a abrigos de refugiados venezuelanos.
A escola possui um ambiente diverso, com muitos estudantes em situação de vulnerabilidade social e forte presença de culturas originárias, o que demanda práticas pedagógicas sensíveis, inclusivas e conectadas com o território.
A iniciativa partiu da constatação de que, embora a literatura indígena tenha ganhado maior visibilidade nos últimos anos, a produção de autoras indígenas ainda é pouco abordada nas salas de aula, especialmente em suas dimensões de identidade, ancestralidade, feminismo indígena e resistência cultural. O projeto buscou dar centralidade a essas vozes, promovendo o protagonismo estudantil por meio da releitura e recriação de contos escritos por mulheres indígenas em formato de histórias em quadrinhos.
O projeto teve como base legal a Lei 11.645/2008, que torna obrigatória a inclusão da história e cultura afro-brasileira e indígena nos currículos escolares, e também se alinha à recente Lei 14.986/2024, que prevê abordagens curriculares a partir das experiências e perspectivas femininas. Além disso, a experiência fortaleceu o vínculo dos alunos com a cultura local, ao mesmo tempo em que promoveu a igualdade de gênero ao dar visibilidade às narrativas femininas indígenas.
Os resultados foram expressivos: os estudantes demonstraram maior engajamento na leitura, aprofundaram sua compreensão sobre diversidade cultural e fortaleceram competências como empatia, criatividade, pensamento crítico e trabalho em equipe. Mais do que uma atividade pontual, o projeto se consolidou como uma proposta transformadora, que reposiciona a escola como espaço de valorização de vozes historicamente silenciadas, especialmente de mulheres indígenas que constroem, com palavras e ancestralidade, outras formas de existir, resistir e ensinar.
Estratégias adotadas
O processo foi dividido em quatro etapas:
- sensibilização e leitura;
- análise da linguagem das HQs;
- produção artística;
- socialização dos trabalhos.
Na primeira etapa, os alunos participaram de rodas de conversa e exposições sobre a diversidade dos povos indígenas no Brasil e o papel das mulheres na preservação dos saberes tradicionais. Foram realizadas leituras compartilhadas de contos das obras Originárias: uma antologia feminina de literatura indígena (org. Trudruá Dorrico e Maurício Negro) e Eu sou macuxi e outras histórias (Julie Dorrico), seguidas de discussões sobre os temas centrais: identidade, pertencimento, natureza, oralidade e resistência.
Na segunda etapa, os estudantes exploraram a linguagem das HQs, aprendendo sobre roteiro, quadros, balões e narrativa visual. A partir daí, cada grupo escolheu um conto para adaptar, respeitando os aspectos culturais e simbólicos da história original.
Na terceira etapa, as HQs foram produzidas utilizando diferentes linguagens: alguns grupos optaram por desenho manual com lápis de cor, enquanto outros utilizaram ferramentas digitais como Canva, Pixton e Storyboard That. Durante o processo, os alunos revisaram seus roteiros com apoio da professora, atentos à fidelidade cultural e à estética indígena.
A quarta etapa culminou na apresentação das HQs em um evento escolar que reuniu professores, estudantes e comunidade, por meio de murais, varal literário e exibição em telões. Ao final, foi realizada uma roda de conversa em que os alunos relataram o que aprenderam sobre as culturas indígenas e como o projeto ampliou suas percepções sobre o papel das mulheres indígenas na literatura e na sociedade.
Referência cultural
A principal referência cultural foi a obra Originárias: uma antologia feminina de literatura indígena, organizada por Trudruá Dorrico e Maurício Negro, que reúne contos de autoras indígenas de diferentes etnias, valorizando a oralidade, ancestralidade e o protagonismo feminino.
A obra reúne textos literários de mulheres indígenas de diferentes povos do Brasil, como Macuxi, Guarani, Pataxó, Tukano, entre outros. Com narrativas que mesclam oralidade, memória e resistência, a antologia traz contos, poemas e relatos que falam sobre identidade, território, espiritualidade, ancestralidade, pertencimento, meio ambiente e os desafios enfrentados pelas mulheres indígenas em contextos contemporâneos.
A obra dá visibilidade às vozes femininas indígenas, fortalecendo a representatividade dessas autoras no campo literário e educativo. Seu propósito é preservar e transmitir os saberes tradicionais por meio da linguagem escrita, sem perder os vínculos com a oralidade e com os modos de vida de seus povos. A narrativa da antologia valoriza a pluralidade cultural e questiona estereótipos, promovendo uma literatura que educa, cura e conecta leitores às raízes indígenas do Brasil.
A referência cultural Originárias: uma antologia feminina de literatura indígena foi inserida como eixo central da experiência pedagógica, orientando as leituras, reflexões e produções dos alunos. Os contos da obra foram lidos em sala de aula em rodas de conversa, com destaque para o protagonismo das autoras indígenas e os temas recorrentes em suas narrativas: ancestralidade, força feminina, pertencimento, espiritualidade, resistência cultural e a relação com a natureza. Esses elementos foram discutidos com os estudantes à luz das experiências sociais das mulheres indígenas e sua atuação como guardiãs de saberes e narradoras de seus povos.
A partir dessas leituras, os alunos foram desafiados a adaptar os contos em histórias em quadrinhos, respeitando os elementos culturais presentes e destacando a potência das vozes femininas indígenas. O processo envolveu pesquisa, escuta atenta, planejamento visual e reflexão crítica. A linguagem das HQs possibilitou que os estudantes interpretassem os textos de maneira criativa, ao mesmo tempo em que se aprofundavam nas questões de identidade e gênero presentes nas obras.
A contribuição da obra para o debate de gênero na Educação Básica é significativa: ela apresenta uma perspectiva interseccional, ao mostrar a realidade de mulheres que enfrentam múltiplas camadas de invisibilização – por serem indígenas, mulheres e, muitas vezes, lideranças em seus contextos. Ao levar essas narrativas para a sala de aula, o projeto possibilitou que os alunos compreendessem as desigualdades históricas de gênero com um olhar mais plural e sensível, rompendo estereótipos e valorizando saberes silenciados. Assim, promoveu-se uma educação que dialoga com a diversidade, estimula o respeito às diferenças e fortalece a construção de novas narrativas mais justas e inclusivas.
Dificuldades encontradas
Um dos principais desafios foi a escassez de obras literárias que abordassem a temática. Foi necessário fazer a aquisição do livro por conta própria, porque na sala de leitura da escola não havia exemplar disponível.
Outra dificuldade foi a limitação de recursos tecnológicos: nem todos os alunos tinham acesso a dispositivos ou internet para usar ferramentas digitais de criação de HQs. Para contornar isso, foram disponibilizadas alternativas manuais, com papel e materiais de desenho, garantindo a participação de todos.
Além disso, houve resistência inicial de alguns estudantes em relação ao tema, por desconhecimento ou por visões estereotipadas sobre os povos indígenas. Essa barreira foi superada com rodas de conversa, vídeos e relatos que aproximaram os alunos da realidade das autoras, despertando empatia e interesse. A escuta ativa, a mediação respeitosa e o estímulo à criatividade foram estratégias fundamentais para manter o engajamento da turma e assegurar a inclusão de diferentes perspectivas durante a execução do projeto.
Principais aprendizagens
O projeto promoveu a valorização das narrativas de mulheres indígenas no ambiente escolar, despertando nos estudantes maior consciência sobre identidade, ancestralidade e pertencimento. A produção de HQs possibilitou um diálogo criativo e acessível com a cultura indígena feminina, favorecendo o letramento crítico e o fortalecimento da autoestima, especialmente entre alunos indígenas. As pessoas envolvidas aprenderam a ouvir com sensibilidade e a reconhecer saberes historicamente silenciados.
Como pontos a melhorar, destaca-se a necessidade de mais tempo para a criação das HQs, permitindo um aprofundamento maior nas histórias e na arte. Além disso, é fundamental que o Estado disponibilize obras literárias com protagonismo indígena, em especial de mulheres, para garantir acesso a materiais de qualidade que sustentem práticas pedagógicas inclusivas, antirracistas e culturalmente relevantes.
Referências bibliográficas
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