Diferentes formas de ser

Autoria: Isadora Cunha Pimentel

Estado: Minas Gerais (MG)

Etapa de Ensino: Ensino Fundamental II, Ensino Médio

Modalidade: Educação de Jovens e Adultos, Educação do Campo, Educação Escolar Indígena, Educação Escolar Quilombola, Educação Especial, Educação Profissional Tecnológica, Educação Regular, Educação Tecnológica

Disciplina: Artes, Filosofia, Geografia Geral, História Geral, Língua Portuguesa, Sociologia

Formato: Presencial

Sobre Isadora Cunha Pimentel

1) Isadora Cunha Pimentel. Cientista social, pesquisadora e educadora. Professora de Sociologia no Ensino Médio Regular e na Educação de Jovens e Adultos. Realiza pesquisas na área da tecnologia, gênero, educação e cinema.

2) Juliana Gonçalves Tolentino. Poeta, cientista social, pesquisadora e educadora. Realiza palestras, rodas de conversas e oficinas sobre questões raciais, classe, gêneros e sexualidades e sobre literatura negra. Participa e produz intervenções poéticas, como saraus.

Objetivos

O objetivo dessa proposta é fazer um debate de gênero que proporcione uma reflexão do estudante sobre si e sobre o outro, estimulando processos de autoconhecimento e percepção, assim como empatia e alteridade. A construção da dinâmica busca incluir identidades múltiplas, abrindo espaço para que os debates realizados se pautem na realidade do grupo escolar, ao invés de utilizar abordagens prontas que podem não corresponder à vivência local. Dessa forma, o projeto permite o reconhecimento e a valorização da diversidade, dentro de uma perspectiva interseccional.

Conteúdo

Apresentação: Essa proposta de sequência didática foi idealizada levando em consideração o tempo e os recursos materiais disponíveis em diferentes escolas. Ela pode ser ampliada, inclusive para ser trabalhada com outras disciplinas, evidenciando que as questões de gênero e seus entrecruzamentos são transversais.

Aula 1 - Primeiras análises sobre gênero

Materiais: Folha de ofício, canetas coloridas e fita adesiva.

Objetivo: A intenção desta aula é discutir com os estudantes como eles percebem os papéis de gênero em sua comunidade, a partir da percepção de si. No primeiro momento, queremos que os alunos apresentem de forma espontânea algumas características arquetípicas e estereotipadas dos gêneros, dessa forma, podemos acessar o imaginário construído na região e evitamos discursos que universalizam a experiência de opressão das mulheres. Ao pedir que elaborarem os comportamentos que os diferenciam destes papéis, convidamos os alunos à um momento de estranhamento de sua cultura, reconhecimento dos limites impostos pelas categorias de gênero e de autopercepção.

O texto proposto fornece elementos para debater a alteração dos conceitos de gênero ao longo dos anos, a inadequação inerente a conceitos que se apoiam no binarismo, as diferentes construções de feminilidades e masculinidades e a interseccionalidade (CRENSHAW, 2004) entre raça, gênero e classe.

PASSO A PASSO:
1) Cada aluno irá receber dois cartões (cartão 1 e cartão 2), em que vão escrever com qual gênero se identifica, de forma espontânea. Os cartões serão preenchidos de forma anônima, evitando o constrangimento dos mesmos. Caso perguntem o que é gênero, a mediadora dará uma breve definição e oferecerá as opções: mulher cis, homem cis, mulher trans, homem trans, não-binárie. (2 min.)
2) A mediadora pedirá para os alunos fecharem os olhos e imaginar quais características correspondem ao gênero escolhido, que serão escritas no cartão 1, o “Cartão das Características”. Para estimular a reflexão, a mediadora pode fazer algumas perguntas disparadoras, por exemplo: a) tipos de vestimentas b) quais comportamentos geralmente são esperados c) o que gosta de fazer no tempo livre d) que tipo de pessoa se relaciona e) quais personalidades assumem. Outras perguntas que se relacionam com os estereótipos de gênero podem ser acrescentadas, caso necessário. (5 min.)
3) Após finalizar a etapa anterior, a mediadora pedirá aos alunos para escreverem no cartão 2, o “Cartão das Diferenças”, o que os diferencia das características elencadas no cartão 1. Logo após, irão entregar os dois cartões para a mediadora, que irá organizá-los em duas pilhas, ou duas caixas, como a mediadora achar mais conveniente. (4 min.)
5) A mediadora irá ler o discurso E não sou uma mulher?, da ativista negra Sojourner Truth. Após a leitura, abrir para comentários dos alunos. (10 min.)
6) A mediadora irá apresentar o texto, a autora, o contexto, e relacioná-lo com o debate de gênero: como papéis de gênero podem ser restritivos na sociedade. (15 min.)
7) Fechamento: a mediadora irá colar os cartões 1 dos alunos no quadro, propondo uma reflexão guiada a partir dos escritos, do texto apresentado e dos comentários feitos pelos alunos (14 min.)

Aula 2: Construção Social do Gênero

Dinâmica “Vantagens e desvantagens?”

Material: Cartazes, canetas coloridas e fita adesiva.

Objetivo: A partir da discussão da primeira aula, em que ocorreu a sensibilização sobre as relações de gênero através da percepção de si, a intenção na aula 2 é aprofundar nas questões e identidades de gênero, apresentando as definições sobre sexo, gênero e sexualidade e a interseccionalidade com as questões de raça e classe. Evidenciar que apesar de serem construções sociais, elas são configuradas como relações de poder que produzem efeitos concretos na vida das pessoas, sejam materiais, simbólicos e/ou emocionais. Discutir as opressões geradas e também as formas de resistências. A atividade permitiria aos estudantes se colocar no lugar do outro, em um exercício de alteridade e empatia.

PASSO A PASSO:

1) A sala será dividida em grupos de até 5 pessoas, dependendo da quantidade de alunos presentes. A divisão será feita pelos próprios alunos, a partir de suas identidade de gênero. Logo após, os grupos constituídos teriam a tarefa de discutir e produzir cartazes contendo as vantagens e desvantagens de se pertencer em um dos outros grupos. (20 min)

2) Os cartazes produzidos serão apresentados para toda a turma e serviriam de guia para uma discussão sobre a construção social do gênero, utilizando principalmente as semelhanças e diferenças que aparecem descritas nessa dinâmica. (15 min)
A dinâmica permite uma variedade de abordagens, que vão depender dos elementos que cada turma vai expor. Alguns apontamentos possíveis para discutir os cartazes:
- Perguntar se as meninas e os meninos da sala concordam com o que foi levantado pelos outros grupos e se eles adicionariam algo aos cartazes como vantagem ou desvantagem de seu próprio gênero;
- O que mais chamou a atenção deles ao longo da atividade?
- O que eles pensam do resultado final dos cartazes?
- Algum desses elementos de diferenciação marca hierarquia entre os gêneros? (Ex: o “Não poder” versus o “poder sair de casa a noite/sozinho”, que podem aparecer como “desvantagens de ser mulher” e “vantagens de ser homem”, respectivamente.)
- Usar elementos estereotipados, como “homens não choram”, para desnaturalizar os papéis de gênero

3) Fechamento da dinâmica: Utilizando os elementos levantados pelos alunos, a educadora sistematiza os conceitos de sexo, gênero e sexualidade, assim como a forma como eles se articulam ou se distanciam. Esta exposição deve ser feita conjugando também as discussões feitas na aula 1.
Para encerrar a aula, será deixada uma provocação para os alunos e que será base para a atividade da aula 3: “Depois de toda a discussão, o que entendo sobre relações de gênero? Se fosse explicar para alguém, como um familiar, como explicaria?” (10 minutos)

Aula 3: Formação dos roteiros

Objetivos: Apresentação da atividade final e sua elaboração: a produção de um vídeo, um zine ou um podcast, de acordo com os recursos disponíveis em cada contexto escolar e pensando a acessibilidade para educação inclusiva. Importante que a parte imagética seja narrada. Sugerimos trabalhar de forma interdisciplinar, com es/as/ educadores/as de Português e de Artes.

Para elaborar esta aula, as educadoras envolvidas no projeto irão analisar os escritos do “Cartão das Diferenças”, produzido na aula 1, e categorizá-los a partir dos aspectos e temáticas relatados pelos alunos. Essas categorias serão utilizadas como temas para o trabalho final desta sequência didática, uma produção audiovisual ou um zine que traduza o debate de gênero realizado ao longo das aulas e tenha como guia a valorização das “Diferentes Formas de Ser”.

Os estudantes vão se dividir de acordo com o interesse que cada um apresentar nas diferentes temáticas expostas (masculinidades, feminilidades, cisgeneridades, transsexualidades, orientações sexuais, divisão sexual do trabalho, debate público x privado, entre outros), sendo aberto à eles a chance de propor novas categorias de análise. O aluno não precisa escolher um tema que se alinhe com as diferenças relatadas por ele no cartão da primeira aula, assegurando assim um mínimo de anonimato.

Assim que os grupos estiverem formados, cada um receberá uma folha com os relatos que levaram a educadora a criar aquela categoria. (OBS: Sugerimos que uma sistematização dos relatos seja feita pela pessoa que vai mediar esta aula, já que alguns relatos podem ter um caráter muito pessoal e os alunos poderiam identificar o colega a partir da organização do cartão ou a letra). Os alunos serão orientados a se aprofundar no tema escolhido e planejar um roteiro que exponha as conclusões elaboradas pelo grupo para um público externo (resto da comunidade escolar, pais, professores, afins). Tanto a sistematização dos “Cartões da Diferença” quanto os cartazes produzidos na aula 2 vão estar disponíveis para os alunos utilizarem como base para a primeira formulação do roteiro.

Ao longo desta terceira aula, os grupos vão debater e construir os roteiros, assim como definir os detalhes para a realização do projeto final. A mediadora estará em sala para apoiar os grupos e tirar eventuais dúvidas.

Aula 4: Elaboração dos vídeos e/ou dos zines, de acordo com os recursos disponíveis e da escolha de cada grupo.

Essa aula poderia ser feita com ou pela educadora de Artes, conjugando a interdisciplinaridade dessa sequência didática.

ANEXOS:
Discurso E não sou uma mulher?, da ativista negra Sojourner Truth. Disponível em: https://www.geledes.org.br/e-nao-sou-uma-mulher-sojourner-truth/

 

Metodologia


  • Aulas expositivas dialogadas;

  • Debates e dinâmicas com participação dos alunos.

Recursos Necessários

Folha de ofício, cartazes, canetas coloridas e fita adesiva.

Duração Prevista

Quatro aulas de 50 minutos cada.

Processo Avaliativo

Participação nas dinâmicas e discussões nas aulas, com a confecção de um vídeo ou zine no final da sequência didática.

Observações

Essa proposta foi realizada por Isadora Cunha (professora de Sociologia da rede pública estadual de Minas Gerais) e Juliana Tolentino (residente docente de Sociologia do Colégio de Aplicação João XXIII/ UFJF).

Referências Bibliográficas

CRENSHAW, Kimberlé. A interseccionalidade na discriminação de raça e gênero. VV. AA. Cruzamento: raça e gênero. Brasília: Unifem, p. 7-16, 2004.

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Racismos contemporâneos. Rio de Janeiro: Takano Editora, v. 49, p. 49-58, 2003.

MEAD, M. Sexo e temperamento em três sociedades primitivas, 1935.

NOGUEIRA, P. H. D. Q.; D'ANDREA, A. C. E. B. Juventude Brasileira e Ensino Médio. Belo Horizonte: Editora UFMG. Juventudes, Sexualidades e Relações de Gênero, 2014.

OLIVEIRA, L. F.; COSTA, C. R. D. Sociologia para jovens do século XXI. 3. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio Gráfica e Editora Ltda, 2010.

Retrato das desigualdades de gênero e raça / Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ... [et al.]. - 4ª ed. - Brasília: Ipea, 2011. 39 p. : il.

Vários Autores. Sociologia em movimento. SILVA, A.;LOUREIRO, B., et al. São Paulo: Editora Moderna Ltda, 2013.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, v. 16, n.2, jul/dez 1990.

Mapa da Violência contra a Mulher (2018). Disponível em: https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/comissao-de-defesa-dos-direitos-da-mulher-cmulher/arquivos-de-audio-e-video/MapadaViolenciaatualizado200219.pdf. Acesso: 26 de novembro de 2020.

“UMA DISCUSSÃO DE GÊNERO ATRAVÉS DE DIN MICAS E VÍDEOS: representações e autorrepresentações”. Disponível em: . Acesso: 26 de novembro de 2020.

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