CENA – Coletivo Estudantil Neuza Avelino

Autoria: Marcelle Marques de Andrade

Estado: São Paulo (SP)

Etapa de Ensino: Ensino Fundamental II, Ensino Médio

Modalidade: Educação Regular

Disciplina: Artes, Geografia do Brasil, Geografia Geral, História do Brasil, Língua Portuguesa

Formato: Presencial

Sobre Marcelle Marques de Andrade

Sou professora da Rede Pública há nove anos, trabalho na Rede Municipal de São Paulo na Zona Leste e também atuo em Guarulhos como professora da Rede Estadual. Sou mestre em Identidades e Culturas Brasileiras pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP, me considero uma professora que é muito curiosa e aprende muito com as/os estudantes.

Objetivos

Promover o protagonismo infanto-juvenil por meio de atividades e produtos artístico-culturais.

  • Criar um ambiente estimulador e colaborativo que potencialize o fazer artístico, o pensamento crítico reflexivo e o desenvolvimento de postura investigativa;

  • Estimular capacidades cognitivas como as de síntese, comparação, observação, seleção, entre outras;

  • Incentivar o uso crítico e criativo da câmera do celular e da escrita comunicativa.


Específicos:

  • Fomentar a autonomia, protagonismo, criatividade e diálogo no grupo de educandos participantes do projeto, através da produção artística, de teatro, fotografia e audiovisual, tendo como foco a história de mulheres do bairro;

  • Apresentar aos educandos conceitos básicos de fotografia digital, áudio e vídeo;

  • Orientar os educandos na produção de diferentes estilos de fotografia e edição simples das mesmas;

  • Apresentar aos educandos uma breve história do teatro, do audiovisual e comunicação digital;

  • Proporcionar ambientes reflexivos e para discussão sobre a relação entre texto e imagem;

  • Orientar os educandos na produção de roteiros (teatral, fílmico) considerando a vivência das mulheres periféricas de Ermelino Matarazzo e demais temas em consonância que sejam de interesse dos alunos e por eles levantados;

  • Realizar saídas de observação e coleta de dados no bairro;

  • Elaborar e executar junto aos educandos exposição de suas produções: podcast, curta-metragem, site, etc.;

  • Desenvolver um olhar sobre o bairro voltado para a importância da memória e ação de seus moradores, enquanto sujeitos históricos.

Conteúdo

O projeto CENA (Coletivo Estudantil Neuza Avelino) nasceu a partir do projeto de complementação de jornada “Tecnologia e Cidadania: Mídias digitais na escola” da professora Marcelle Andrade, designada POIE no período matutino da EMEF Neuza Avelino, no ano de 2019. Contudo, o tema “cidadania” provocou os alunos, que verbalizaram a ausência da escuta de suas demandas, concomitante ao fato de que não se enxergavam protagonistas no processo pedagógico. Mediante as questões trazidas pelos alunos, suas necessidades e interesses culminaram na formação do coletivo.

Um coletivo é um grupo de pessoas que se une com um objetivo comum, seja ele cultural, social, artístico. A gestão deste tipo de organização é horizontal, sendo a participação de todos os seus componentes vista com a mesma importância. Um coletivo pode ser também enxergado como um espaço de acolhimento e expressão. Compreendemos também que o Coletivo Estudantil fortaleceu o protagonismo estudantil no espaço escolar. Consideramos fundamental repensar a escola e propor algo que vá além do modelo homogeneizante, que desconsidera os saberes, as habilidades e a trajetória de cada estudante. Como ressalta bell hooks, é indispensável estar atento ao valor de cada voz, precisamos ouvir nossos alunos. Ouvi-los é um exercício de reconhecimento, imprescindível na construção do saber.

O Coletivo nasceu, portanto, do desejo espontâneo de buscar representatividade em nome de uma escola pública democrática. Neuza Avelino da Silva Melo (1942-2010), patronesse da escola e nome escolhido para o coletivo, foi uma corajosa militante nordestina que construiu sua vida em São Paulo, mais precisamente no bairro de Ermelino Matarazzo, na Zona Leste. Foi responsável pela Associação Comunitária das Mulheres do Movimento Sem Terra, lutando por direitos e justiça social. O bairro de Ermelino Matarazzo historicamente possui um forte movimento pela moradia, do qual muitas mulheres estiveram à frente, mas suas histórias não foram contadas. O coletivo está se apropriando da história do bairro e pretende registrá-la pela ótica das mulheres, recontando suas vivências e trajetórias.

No caso do CENA, como resultado do trabalho desenvolvido, numa dimensão que se estendeu para além da Unidade Escolar, o projeto foi premiado pelo Instituto Tomie Ohtake como um dos vencedores do 4º Prêmio Territórios em 2019, prêmio que pretende iluminar projetos colaborativos em andamento que sejam realizados em parceria entre professores, gestores escolares, diferentes segmentos da escola (outros professores, estudantes, funcionários e famílias), e com as diversas potencialidades da cidade, promovendo ações que aconteçam intra e/ou extramuros, que sejam exemplares na perspectiva de uma educação integral, integrada e integradora, e que tenham a cultura, em sua ampla diversidade, como eixo central. No ano de 2020, visando a continuidade e ampliação do projeto propusemos que o projeto passasse a ser assistido por duas professoras que tem como papel orientar em diferentes aspectos teóricos e práticos as produções artísticas dos estudantes, a partir de um olhar para as demandas que os mesmos tragam a respeito do bairro e sua formação histórica e sócio-cultural. Cada educadora se tornou responsável por uma parte do desenvolvimento da formação dos educandos neste sentido.

Propondo-se a ser um espaço de reflexão, criação, protagonismo estudantil, identidade e pertencimento, o projeto trabalhou e vem trabalhando a história do bairro, sua constituição social e o papel da luta desempenhada por Neuza Avelino da Silva Melo e tantas outras mulheres periféricas, em sua luta e conquista por moradia nas adjacências da escola. O material coletado e manejado pelos alunos através de seu diálogo com a comunidade transformou-se em mídia e conteúdo digital acessível; o processo proporcionou o debate de temas de extrema importância na atualidade e que dialogam diretamente com situações da vivência dos educandos, quais sejam a empatia, direitos, minorias, educação de qualidade. Em sensível conexão com os temas dos ODS indicados no Currículo da Cidade, alcançou a sala de aula e sua dinâmica, desenvolvendo um senso de comunidade, alteridade e protagonismo entre os educandos. Para além disso, permitiu a criatividade e fazer artísticos voltados para a produção de mídias digitais e seu processo de criação.

No ano de 2020 a continuidade do projeto pretende proporcionar a continuação das supracitadas atividades e ampliar o fazer artístico para com o teatro e a produção audiovisual, com foco na história das mulheres periféricas de Ermelino Matarazzo e Zona Leste, além de outras demandas que venham a aparecer ao longo do desenvolvimento do projeto.

Através da dramaturgia, de produção fotográfica/audiovisual e do desenvolvimento do olhar artístico, em geral atrelado a uma viagem pela memória e história do bairro, o educando sente-se pertencente. Estar em um coletivo é uma das maneiras contemporâneas de produzir arte e cultura de modo horizontal, humano e transformador de realidades.
Atividades de pesquisa, sejam elas em campo, pelo acesso a documentos e por meio digital são capazes de habilitar o reconhecimento de detalhes sobre o bairro, outrora desconhecidos ou desapercebidos, criando e ampliando a sensação de pertencimento e identidade com a comunidade escolar. A produção coletiva de pautas, o levantamento de subtemas e estratégias de trabalho além de fomentar a ação em equipe, é capaz de desenvolver um senso de recorte da realidade a ser explorado com maior profundidade e sensibilidade para questões sócio-culturais que se manifestam no bairro.

Metodologia


  • Sondagem inicial dos interesses e conhecimentos dos educandos em relação ao teatro, fotografia, audiovisual, exposições e mídias. Isto permite acomodar os alunos em diferentes grupos de interesse na produção;

  • Apresentação e conceituação básica de fotografia, incluindo exemplos e modelos;

  • Aulas de exercícios de produção de roteiros;

  • Aulas de exercícios de produção de imagens fotográficas;

  • Aulas de discussão e reflexão sobre a relação entre imagem e texto em grupo;

  • Aulas dialogadas sobre o contexto sócio-cultural do bairro, das atividades de mulheres relacionadas à história da conquista de moradia e lutas sociais;

  • Saídas de observação do bairro com roteiro pré-definido em grupo pelos educandos e professores proponentes do projeto para coleta do material de pesquisa – entrevistas, relatos, documentação, etc – produção de imagens e áudios com o celular;

  • Conceituação de recorte na pesquisa;

  • Aulas para sugestão e definição de recortes a serem feitos pelos alunos, sob supervisão dos professores proponentes do projeto;

  • Aulas de organização e discussão de material coletado e produzido pelos educandos.

  • Aulas de orientação para a produção de uma exposição;

  • Organização de material produzido com a finalidade de montagem de exposição;

  • Organização de divulgação da exposição;

  • Montagem de exposição;

  • Abertura de exposição;

  • Fechamento de exposição e avaliação;

  • Roda de conversa com produtora ou produtor de arte teatral e/ou fotográfica, audiovisual/conteúdo digital.

Recursos Necessários


  • Sala de aula ou pátio (na verdade um espaço que possam ocorrer os encontros);

  • Utilização de um dos pátios para montagem de exposição final;

  • Utilização de painel para divulgação de trabalhos;

  • Impressão de imagens;

  • Laboratório de informática esporadicamente para edição de material;

  • Folhas sulfite;

  • Impressão de bilhetes, comunicados, etc;

  • Papelaria disponível para montagem de exposição;

  • Cola quente e pistola de cola quente;

  • Papel fotográfico;

  • Visitas externas;

  • Máquina fotográfica digital.

Duração Prevista

Semanal: 2 aulas semanais.

Processo Avaliativo

Em conjunto com a coordenação pedagógica, estabelecer instrumentos de registro capazes de avaliar o andamento do projeto. Dado que é a mesma a responsável pelo acompanhamento cotidiano do desenvolvimento do projeto é importante saber quais vias utilizar em conjunto.

Criaremos questionários avaliativos, os quais serão respondidos pelos visitantes da exposição final e diálogos regulares com a turma de educandos participantes do projeto a fim de realizar autoavaliação dos educandos e do educador. Pretendemos realizar esta etapa de avaliação a partir de registro de vídeo e/ou escrita.

Observações

A possibilidade de trabalharmos os Territórios Educativos contemplou a ideia de aplicarmos a interdisciplinaridade concomitantemente à integração dos saberes. Pensando em uma cidade que ensina e aprende, buscamos criar vínculos com nossa comunidade e sair do que conceituamos isolamento pedagógico. O que nos une? Em resposta a esta questão pensamos em experiências dentro de nosso território, dentro dos muros da escola e fora deles na possibilidade de saídas, diálogos com membros da comunidade e exploração de nosso território. Estas ações foram essenciais para que pudéssemos quebrar barreiras simbólicas e nos apropriar do direito à cidade, à educação além dos muros da escola. Portanto por meio de rodas de conversas, pudemos escutar os alunos, realizamos diálogos com muita troca de conhecimento e aprendizagem. É em momentos assim que estabelecemos nossa avaliação de resultados, os objetivos que foram escolhidos e pensados pelos alunos. Juntos estabelecemos o que gostaríamos de aprender. O objetivo principal foi fomentar o protagonismo estudantil e pensamos que esse objetivo nos deu muitos frutos, o projeto é reconhecido por esta característica, mas também priorizamos que o projeto abarque o direito à educação integral na escola pública, a conexão com o território e escola que se reconhece parte de um lugar, estabelece vínculos e pertinência, e entendemos que estes objetivos fazem parte de uma construção coletiva, portanto, os levaremos adiante com a continuidade do projeto.

Referências Bibliográficas

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BENJAMIN, W. Pequena história da fotografia. In: Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994.

HOOKS, Bell; A teoria como prática libertadora. In:_____ Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

KOSSOY, Boris. Fotografia & História. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999.

MOLETTA, Alex. Fazendo cinema na escola – arte audiovisual dentro e fora da sala de aula. São Paulo: Summus Editorial, 2014.

OLIVEIRA. Lages. Significado e contribuições da afetividade, no contexto da Metodologia de Projetos, na Educação Básica. Dissertação (Mestrado em Educação Tecnológica) – Centro Federal DE Educação de Minas GeraIS/ cefetmg, Belo Horizonte, 2006.

Regulamenta o Decreto nº 54.452, de 10/10/13, que institui, na Secretaria Municipal de Educação, o Programa de Reorganização Curricular e Administrativa, Ampliação e Fortalecimento da Rede Municipal de Ensino de São Paulo- “Mais Educação São Paulo”.

SANTOS,Karen Mata; MIRANDA, Jean Carlos; GONZAGA, Glaucia Ribeiro. A Fotografia como recurso didático. Revista Educação Pública. Rio de Janeiro. Disponível em Acesso em 07/11/2020.

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Strickland, Gene. FOTOGRAFIA DIGITAL – resumão especial. São Paulo: Barros, Fischer e Associados, 2013.

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