As filosofias de minha avó: Redescobertas de um legado ancestral

Autoria: Maria Isabel dos Santos Gonçalves

Estado: Bahia (BA)

Etapa de Ensino: Ensino Médio

Modalidade: Educação do Campo, Educação Escolar Quilombola, Educação Regular

Disciplina: Filosofia, Sociologia

Formato: Presencial

Sobre Maria Isabel dos Santos Gonçalves

Maria Isabel Gonçalves é uma das vencedoras do Prêmio Educador Nota 10 2020 com o projeto "As filosofias de minha avó: poetizando memórias para afirmar direitos". Professora desde 2009 pela rede pública, possui licenciatura em Letras e Filosofia, com especialização em Ensino de Filosofia, Direitos Humanos e Contemporaneidade pela UFBA. Natural de Seabra, Chapada Diamantina/BA, cresceu numa comunidade rural chamada Duas Passagens, e viu sua história se fazer em meio ao encantamento com as palavras e as diversas expressões da linguagem. Interesses: Memória, Paisagem e Narrativas.

Objetivos

Através da coleta de histórias dos avós, os estudantes reconhecerão nas avós um referencial de resistência e conhecimento, numa conexão entre a memória e as grandes questões da filosofia, como a felicidade, a poética, o amor, o tempo, a sabedoria e o sentido da vida. Os temas filosóficos serão experimentados em comunidade, a partir da coleta de memórias, pelos fios das recordações. No momento em que os avós contam os fatos mais marcantes de suas suas vidas, os estudantes terão a plena experiência de um filosofar por inteiro, movidos pelo afeto e inspiração das avós.

Algumas das habilidades da BNCC contempladas pelo projeto são:
(EM13CHS101) Analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão e à critica de ideias filosóficas e processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais.
(EM13CHS104) Analisar objetos da cultura material e imaterial como suporte de conhecimentos, valores, crenças e práticas que singularizam diferentes sociedades inseridas no tempo e no espaço.

Conteúdo


  • Filosofia da memória;

  • Conhecimento e sabedoria;

  • O bem, a virtude e a felicidade;

  • As concepções do amor;

  • O tempo;

  • O sentido da vida;

  • A ética Ubuntu;

  • Direitos Humanos.

Metodologia

Os planos de aula do projeto incluem atividades que priorizam o envolvimento dos estudantes com as suas comunidades. Numa proposta de dar voz às memórias contadas como um ato político, inspirados em Hannah Arendt, os estudantes terão a experiência de serem COLETORES DE HISTÓRIAS, numa redescoberta das filosofias presentes nos relatos de seus avós. No ouvir das histórias, os estudantes expressarão numa linguagem poética as memórias coletadas, os ensinamentos ouvidos, numa relação com um amplo estudo sobre os Direitos Humanos para propor intervenções acerca dos direitos negados historicamente às suas próprias comunidades.

Passo 1: Fundamentação - Existimos em comunidade: em Ubuntu

Começar apresentando aos alunos o vídeo: Ubuntu - O que significa essa filosofia e como pode nos ajudar nos desafios de hoje – BBC News (disponível no youtube) propondo uma conexão dos significados da ética Ubuntu nas vivências da própria comunidade.

Em pequenos grupos, os estudantes construíram um mapa ilustrado de suas comunidades representando em cada mapa o NÓS que as constitui, que seria expresso pelo conjunto de seus diversos aspectos (as pessoas, o espaço, a cultura, a natureza e os ancestrais – o legado da memória).

Passo 2: Fundamentação – A Filosofia da Memória

Para construir o conceito de memória, comece perguntando para as turmas o que eles entendiam por memória e como ela se constitui. Fui enumerando esses significados na lousa, comentando a importância de cada um para a formulação de um conceito para a memória. A seguir, apresente para a turma alguns aspectos da memória a partir de Henri Bergson (a memória como hábito e a memória pura ou do instante marcante).

A seguir, trazer a leitura de um pequeno trecho da obra Cem anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marquez que trata da manifestação do esquecimento no povoado de Macondo e as estratégias traçadas pelos personagens para continuarem a lembrar da utilidade das coisas. A partir do texto, outras questões se abrem para a conversa com a turma (quais as consequências do esquecimento, tanto no individual, quanto no coletivo; quais as semelhanças daquela descrição do povoado de Macondo com as comunidades rurais da região; quais as melhores estratégias para preservação da memória numa comunidade).

Posteriormente, destaque na lousa o seguinte trecho que foi lido:
“Assim, continuaram vivendo numa realidade escorregadia momentaneamente capturada pelas palavras, mas que de fugir sem remédio quando esquecessem os valores da letra escrita (MARQUES, 1994, p. 48)” - E a partir desse trecho, apresente os principais objetivos do projeto, numa perspectiva de afirmação do direito à memória.

Passo 3: Fundamentação - Poetizar memórias – Os Mestres da Narrativa

Apresente para a turma um trecho do pensamento do filósofo Kierkegaard para direcioná-los a reconhecer os avós como os grandes mestres da narrativa e contação de histórias:

“[...] o velho tem algo de poeta; a imaginação popular vê no velho um profeta, animado pelo espírito divino. Mas a recordação é a sua melhor força, a consolação que o sustenta, porque lhe dá a visão distante, a visão de poeta." (KIERKEGAARD, 1972, p. 36)

Passo 4: Roteiro - As Filosofias de minha avó

Os estudantes são convidados a construirem um roteiro para a coleta de relatos na comunidade com base nos temas centrais da filosofia já estudados anteriormente: o tempo, o amor, a felicidade, o sentido da vida, a sabedoria para serem expressos por uma trilha de saudades e recordações.

Passo 5: Coletores de Memórias

Com o roteiro em mãos, e aproveitando os recursos dos próprios celulares, os grupos devem partir para a coleta de relatos na comunidade, ouvindo os seus avós, demais familiares e outros membros da comunidade, bem atentos aos aspectos filosóficos de cada história contada.

Os depoimentos podem ser gravados em áudio ou vídeo, e transcritos num caderno de registros.

Passo 6: Paisagens das Recordações

Após a coleta, os estudantes devem sair numa procura pelas paisagens relativas às histórias contadas, registrando em vídeos e fotografias. Eles também deverão procurar o baú das recordações da família: cartas, fotos antigas e objetos especiais na história da família.

Passo 7: Poetizando Memórias para afirmar direitos

Após a coleta, os estudantes se dedicarão a escrever narrativas poéticas dos aprendizados de toda a experiência, apontando os aspectos filosóficos de cada relato e suas principais denúncias, numa perspectiva dos direitos humanos fundamentais. Esse poetizar poderá ser nos diversos formatos: poemas, narrativas, mini documentários, exposição de fotografias ou um musical.

Recursos Necessários

Nessa proposta de afirmar o direito à memória das comunidades, os diversos recursos de multimídia serão imprescindíveis. Os estudantes passarão a ser coletores de memórias a partir das possibilidades dos próprios celulares, gravando vídeos ou áudios dos relatos dos avós e outras pessoas da família e da comunidade, e posteriormente, fotografando as paisagens demarcadas em cada relato. Assim, dispondo de simples programas de edição de vídeo dfo próprio celular, os estudantes poderão fazer a edição de um pequeno documentário para apresentarem em sala de aula.

Duração Prevista

6 encontros em sala de aula (no mínimo), 1 dia de coleta de memórias e escuta dos avós na comunidade, 1 dia para registrar as paisagens da recordação.

Processo Avaliativo

Os professores devem se atentar aos aprendizados construídos com a turma em cada etapa do projeto, no passo a passo dessa redescoberta de uma filosofia ancestral pelo olhar dos estudantes. Conforme o projeto vai se desenvolvendo, os estudantes verão a filosofia se revelar nas diversas questões do cotidiano. Ao ouvir os avós, eles passarão a reconhecer nos relatos a plena expressão da sabedoria, aquela que é experimentada na dificuldade e experiências vividas. Toda a turma será avaliada no quanto eles testemunharem a filosofia viva feita em comunidade, e no quanto eles percebem em cada relato uma forte denúncia quanto aos direitos humanos fundamentais.

Observações

Esse projeto foi pensado a partir da busca de novas metodologias para o ensino da Filosofia no ensino médio, em que estudantes passam a ser coletores de memórias a pelas paisagens das comunidades rurais do município de Boninal, no Estado da Bahia. Algumas dessas comunidades são de linhagem quilombola e afrodescendente, em que as avós são as guardiãs de saberes e são tidas como líderes da comunidade, numa espécie de matriarcado, e o Ubuntu ainda prevalece nas relações que são configuradas a partir do “Nós”. Com inspiração na filosofia africana, o projeto se lança numa procura pelo pensamento da tradição oral, numa perspectiva de uma epistemologia decolonial, dar voz àqueles que foram silenciados na história moderna e contemporânea, promovendo a memória como um espaço de reivindicação dos direitos humanos historicamente negados. No interior das comunidades negras ou afrodescendentes, a memória é sua maior riqueza, nos relatos iluminados pela recordação. Assim, a exemplo da Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileiras dentro dos contextos educacionais, eu queria que os meus alunos fizessem essa redescoberta, voltando-se para o próprio legado que eles carregam em suas próprias famílias e comunidades.

Referências Bibliográficas

ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 10.ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 2007.

KIERKEGAARD, Søren Aabye. O Banquete (In vino veritas). Trad.: Álvaro Ribeiro. Portugal: Guimarães & C. Editores, 1972.

NASCIMENTO, Alexandre do. Ubuntu como fundamento. UJIMA, nº XX , Ano XX, 2014.

VASCONCELOS, José Antônio. Reflexões: Filosofia e cotidiano: filosofia: ensino médio, 1. ed. – São Paulo: Edições SM, 2016.

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